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The marsh king's daughter


Não sou muito de ler coisas tristes e pesadas porque acho que de triste e pesada já basta a vida, então sempre dou preferência a coisas que me fazem feliz, mas me enviaram um livro e pediram pra eu dizer o que eu achava, então fui ler e: gente. 

GENTE

É mais ou menos assim: a guria tá lá, vivendo a vida dela, cuidando das filhas e do marido quando descobre que seu pai fugiu da prisão. Ela fica bem louca, pois o homem é perigoso, manda as crianças pra longe e sai à caça do pai. A gente fica meio que diabos, mas então descobrimos que o pai dela é um raptor, estuprador e assassino e que manteve ela e a mãe dela cativas por anos numa cabana na floresta. 

Enredo simpático, né? 

Mas apesar de toda a vibe errada da sinopse, o livro é tranquilíssimo de ser lido. A Helena, a filha do cara, é a narradora e ela vai intercalando lembranças da vida na cabana com o que está acontecendo no presente, então fica uma narrativa meio policial, com um mistério do que diabos aconteceu... é bacana sem ser a coisa horrível e pesada que parece. 

The marsh king's daughter
Karen Dionne
320 páginas
G.P. Putnam's Sons
Ano de publicação: 2017  

O que eu mais gostei é que, ao contrário de outros livros por aí (estou falando com você, A garota no trem), nesse a Dionne realmente pára pra refletir sobre as questões psicológicas das personagens, como passar anos em um cativeiro e o que isso faz com a sua cabeça. É um trecho melhor do que o outro, grifei demais o livro. 

"Quando eu era criança, não tinha ideia de que havia algo errado com minha família. Crianças geralmente não percebem. Qualquer que seja a situação, é o que entendem como normal. Filhas de abusadores acabam se envolvendo com homens abusivos quando adultas porque é com isso que estão acostumadas. Parece conhecido. Natural. Mesmo que não gostem das circunstâncias em que foram criadas."

A Helena não apenas foi aprisionada por seu pai como foi criada no meio do mato sem conhecer a civilização e sem saber que era prisioneira. Tudo o que ela conhecia era o que seu pai lhe mostrava: as caçadas, a natureza e a cultura indígena. O único sinal do mundo exterior com que ela teve contato durante doze anos foram umas revistas antiquíssimas que retratavam a vida de indígenas em diversos lugares do mundo (até mesmo aqui, em terras brasileiras). Ela realmente achava que estava apenas vivendo sua vida normalmente e idolatrava aquele pai, que era um grande caçador e um homem destemido. Não fazia a menor ideia do monstro que ele era e não conseguia entender por que a mãe era tão estranha a ele.

Só depois que um evento x acontece é que ela se dá conta de que as coisas não eram tão perfeitas quanto ela imaginava e que havia toda uma outra realidade que ela não conhecia. Ela nunca tinha ido pra escola ou andado de bicicleta e só havia falado com duas pessoas durante toda a sua vida: sua mãe e seu pai. A menina era um bichinho do mato que só sabia que era feliz ali. E como é que se vai fazer com que uma criança entenda que aquilo não é normal, que o que ela viveu foi um abuso, um rapto, um crime, se tudo o que ela conheceu como real e correto foi a vida no pântano? Um pouco complicado. Mesmo depois de adulta e com uns bons anos convivendo em sociedade, Helena ainda tem probleminhas pra se ajustar porque certas coisas simplesmente não fazem sentido pra ela. Eu amei que a autora tenha enfatizado bastante isso porque lembro bem daqueles casos de caras que raptaram meninas e tiveram trocentos filhos com elas. Lembro que elas foram libertadas e tal, mas sempre fiquei me questionando o que acontece na cabeça de uma pessoa que vive um trauma desses. Não sei se dá pra viver normalmente depois disso.

"Depois que eu soube a verdade sobre meu pai e minha mãe, costumava me perguntar por que minha mãe não havia fugido. Se ela odiava viver no pântano tanto quanto afirmou mais tarde, por que não foi embora? Ela podia ter atravessado o pântano quando ele estava congelado, enquanto meu pai e eu conferíamos as armadilhas. Podia ter calçado as botas de borracha de meu pai e se enfiado pelo pântano enquanto nós estávamos pescando na canoa dele. Podia ter roubado a canoa e remado para longe enquanto estávamos caçando. Entendo que ela era uma criança quando meu pai a levou para a cabana, então algumas dessas opções talvez não lhe tivessem ocorrido no começo. Mas ela teve catorze anos para planejar alguma coisa. Agora que li relatos de meninas que foram raptadas e mantidas cativas, entendo mais sobre os fatores psicológicos que estavam envolvidos. Algo se quebra dentro da mente e da vontade de uma pessoa que foi privada de autonomia. Por mais que gostemos de pensar que lutaríamos como linces se estivéssemos em situação similar, as chances são de que acabássemos desistindo. Provavelmente em pouco tempo. Quando uma pessoa está em uma posição em que quanto mais ela luta, mais duramente é castigada, não demora muito para aprender a fazer exatamente o que seu captor quer.

Isso não é síndrome de Estocolmo; os psicólogos a chamam de desamparo aprendido. Se uma pessoa raptada acreditar que seu captor não vai mais castigá-la ou até mesmo lhe dará uma recompensa, como um cobertor ou um pouco de comida, se ela fizer o que ele manda, ela o fará, por mais repugnante ou degradante que possa ser. Se o raptor estiver disposto a infligir dor, o processo anda muito mais rápido. Depois de um tempo, por mais que deseje, a cativa nem sequer tentará escapar."

Não sei ainda quando ele será lançado no Brasil (a previsão é pra este ano, mas né, mercado editorial, blablabla), mas total vale a pena ser lido. Meu conselho (hahahaha que séria) é: esperem até o final do ano; se não for lançado até lá, leiam em inglês mesmo porque baita livrão.

3 Comentários

  1. Nossa, que diferente essa abordagem. Fiquei muito curiosa. Infelizmente as pessoas acham que os danos somem quando a pessoa volta para um ambiente "seguro". Sendo que na real não é bem assim. Gostei bastante das citações que você colocou. =)
    Seu blog ficou tão lindo nessas cores <3

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  2. me interessei muito pela leitura, gosto de temas pesados. vou me organizar de alguma forma com meus livros e dar espaços às novas criações, mas parece que estou cada vez mais lerda para leitura!

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  3. adoro livro/série/filme/whatever que puxa essas análises psicológicas da coisa toda. pena que a bonita aqui não manja tanto dos inglês (shame on me) e vai ter que esperar pra lançarem por essas bandas mesmo. curiosíssima!

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