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30 e poucos anos e uma máquina do tempo

Eu não sou uma pessoa particularmente musical. Já fui mais, na época em que tinha uma banda e cantava por aí; minha vida era basicamente música, música e mais música e era bem bacana. Eu era realmente boa nisso e só não continuei porque um dia acordei e puf, simplesmente a vontade não estava mais lá. Só que eu ainda gosto bastante de ouvir música, especialmente quando vou ler ou escrever (fazer essas coisas com o doce som das pessoas tagarelas e barulhentas à volta é um dos meus infernos pessoais, então uma boa playlist sempre ajuda - inclusive, escutando Ocean Rain, de Echo & the Bunnymen agora). Porém, como toda boa criança cujos irmãos são mais velhos e total dos anos 90, fui criada no meio artístico cheio de bandas e instrumentos musicais em casa, ensaios de covers e originais e muitos clipes antigos e estranhos. Então, dá pra dizer facilmente que metade da minha personalidade foi formada através da música que rolava lá em casa durante a minha infância.


Mas tem duas coisas às quais eu não resisto: livros sobre viagens no tempo e livros sobre música. O primeiro por motivos óbvios de MEU DEUS VIAGEM NO TEMPO QUE SONHO QUERO DEMAIS. É um dos meus sonhos desde criança porque o passado é uma coisa doida (não que o presente não seja, mas relevemos) e sempre tive a maior vontade de viajar pra lá pra poder ver as coisas de perto - inclusive, tenho listinha de lugares, momentos e pessoas do passado que eu gostaria de visitar Ó PESSOAL DA FÍSICA, CÊS TÃO PERDENDO UM GRANDE MERCADO AÍ. O segundo porque: música, que coisa incrível. Não sei como foi que se construiu toda a nossa cultura musical, mas é certo que a música é uma das melhores coisas da humanidade e a capacidade que ela tem de totalmente transformar os nossos dias e as nossas emoções é algo lindo demais, então se tem algo escrito sobre música eu total vou ler porque bora conhecer coisas novas.

E aí que tem esse livro, no qual tô de olho desde o lançamento, que mistura as duas coisas: VIAGEM NO TEMPO E MÚSICA. Pra ser mais exata, viagem no tempo pra ver shows de bandas de rock.

Obviamente assim que finalmente o achei, o levei pra casa pois necessário demais. E ó, melhor decisão, pois que livrinho maravilhoso.

30 e poucos anos e uma máquina do tempo
Mo Daviau
304 páginas
Rocco
Ano de publicação: 2017
Encontre na Amazon

Sobre o que é: Karl e Wayne, dois amigos de meia-idade, descobrem um meio de voltar no tempo para assistir a shows incríveis e a ganhar dinheiro com o negócio. Tudo vai bem até que Wayne decide o óbvio: interferir no passado. Afinal, quem dispensaria a chance de reescrever uma ou outra linha da própria história? Movido a música e romance, 30 e poucos anos e uma máquina do tempo é uma espirituosa, e um tanto nostálgica, reflexão sobre sonhos, escolhas de vida e a passagem do tempo.

Claro que, lendo essa sinopse, pensei que o livro fosse mais um sobre dois caras meio babacas que vivem naquelas de beber, lamentar o passado, beber mais e tentar pegar mulheres do que sobre viagens no tempo. Mas dei uma chance mesmo assim porque VIAGEM NO TEMPO, midesculpem, mas amo demais mesmo, risos. E fui surpreendida de uma forma que realmente não imaginava que seria.

O livro começa com bem aquilo que eu imaginei pela sinopse: dois amigos de meia-idade com vidas super fracassadas e que ficam se lamentando enquanto bebem todas e ficam relembrando o tempo que já se foi. Mas aí um dia o Karl cai dentro de uma espécie de buraco de minhoca que simplesmente apareceu dentro de sua casa e aí se vê voltando pra o passado!!!!

É aí que tudo começa. Ele conta a proeza pra seu amigo, Wayne, que é um físico e o cara já se anima todo pela possibilidade de voltar ao passado e cria um esquema pra que se possa viajar de forma segura, com a certeza de um retorno através de um app no celular (SIM, QUE COISA MAIS INCRÍVEL, EU SEEEEEEEEEI). Porém, logo eles estabelecem regras: o buraco de minhoca é secreto; apenas alguns clientes do bar e amigos dos tempos de rock poderiam usá-lo para viajar no tempo; as viagens seriam programadas por eles e seriam apenas e tão somente para assistir a shows de rock; quem quisesse assistir a um show do passado teria de pagar muito bem por isso.

Porém, um dia Wayne decide que sua vida não faz sentido: ele tem muito dinheiro, um bom emprego e tudo de que precisa, mas ainda assim é infeliz. Então, decide fazer algo significativo: voltar no tempo e impedir o assassinato de John Lennon. Ele acredita que o mundo seria um lugar melhor com Lennon vivo e se manda pra o passado pra salvá-lo, apesar dos protestos do Karl.

"Sentei ao computador e olhei fixamente para a interface do buraco de minhoca que Wayne havia criado. Ela parecia com Pong. No campo de PONTO DE ENTRADA CRONOLÓGICO, digitei 08 DEZ 1980, e entrei rua 72 com Central Park West, Manhattan, no campo de PONTO DE ENTRADA GEOGRÁFICO. Digitei lentamente, olhando para Wayne para que ele soubesse que as coisas iam ficar bem feias entre nós, independentemente de ele ser ou não bem-sucedido em salvar John Lennon. Essa merda de justiceiro me deixava com raiva. Certo, digamos que Wayne salve John Lennon, e depois? Estaríamos obrigados a matar Hitler, libertar os escravos, inverter as eleições de 2000, e socar o saco de cerca de 50 milhões de bullies em escolas primárias." 

Só que algo dá errado e aparentemente Wayne não foi parar no momento do assassinado de John Lennon, mas sim no ano 980, ou seja, MIL E TRINTA ANOS NO PASSADO.

"Novecentos e oitenta. Mais de quinhentos anos antes de o primeiro barco de colonos holandeses desembarcar na ilha de Mannahatta. Não há registro na história americana para o ano de 980. Ainda se passariam mais cem anos antes da chegada dos vikings em Newfoundland." 

E agora, o que fazer? Como houve esse erro ridículo, Wayne não pode voltar, pois o app que permite as viagens no tempo necessita de energia elétrica, o que obviamente não existia há mais de mil anos. A única coisa possível é procurar um outro físico que tente dar um jeito naquilo, mas isso levanta outros problemas: primeiro que o buraco de minhoca é secretíssimo; segundo que, mesmo achando alguém confiável pra revelar o segredo das viagens no tempo, ainda assim seria um grande obstáculo convencer a pessoa de que aquilo é real e não apenas uma grande pegadinha do malandro. E também não é como se o Karl conhecesse um monte de físicos por aí - ainda mais um que entenda especificamente dessa área tão desacreditada pela ciência.

Claro que Karl não é tão burro assim e faz o que todos nós faríamos: apela pra internet e vai à caça de um astrofísico em quem possa confiar. Mas "todos os alunos de Ph.D. em astrofísica na Northwestern estavam retratados no site do departamento em fotos mal iluminadas tiradas na tradição artística do departamento de veículos motorizados. Não havia jeito de aquele bando de caras extremamente sérios, fora de moda e de barbas malfeitas acreditar em mim quando eu lhes explicasse minha situação, e se eles acreditassem, iriam roubar minha operação e mandar me matar".  Quando estava quase desistindo da empreitada e deixando seu amigo lá no meio do mato de 980, ele se depara com a foto de uma aluna de Ph.D. de astrofísica que se destacava dos outros. Ela tinha um cabelo com mechas azuis, óculos de Buddy Holly e camiseta dos Melvins, olhando pra câmera com uma cara de Courtney Love. O nome dela é Lena R. Geduldig e Karl sabia que tinha encontrado a garota certa.

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Confesso que logo que ela foi introduzida na história, revirei os olhos e pensei AH PRONTO, porque só o que faltava começar o clichê da garota estranha, feia, gorda, mas muito inteligente, que vira de cabeça pra baixo a vida do protagonista porque o ensina a viver.

Só que esse livro foi escrito por uma mulher.
E livros de sci-fi escritos por mulheres não funcionam dessa maneira.

Todo aquele início acelerado, cheio de acontecimentos estranhos e impactantes, de que eu falei nos parágrafos acima não é nada comparado ao que acontece com a chegada de Lena à história. Karl, que até então era o personagem principal, tem de ceder lugar pra essa mulher inteligente e complicadíssima, ferida de tantas maneiras que nem consigo acreditar direito que a Mo Daviau tenha conseguido criar uma personagem tão verossímil.

30 e poucos anos e uma máquina do tempo é um livro de ficção científica, mas é muito, muito mais do que isso. É um livro que fala de coisas importantes que muitas vezes não são citadas na ficção. No centro de tudo está Lena, a jovem quase doutora em astrofísica que passou por traumas terríveis durante a vida, como a perda da mãe quando ainda menina, um pai relapso que casou novamente com uma mulher que não a aceitou, os problemas alimentares, o sobrepeso, o estilo underground quando isso era considerado ruim, um estupro que mudou completamente sua personalidade, a luta diária pra tentar seguir em frente e fazer o melhor possível. Lena é uma mulher real, com problemas reais e ver isso sendo retratado num livro de ficção científica é algo que realmente me deixou satisfeita. Por muitos anos eu deixei livros do gênero de lado justamente por sempre retratarem mulheres dentro de estereótipos de a ajudante burra, ou a personagem secundária que só aparece pra ajudar o personagem principal. Lena é introduzida no livro como uma ajuda pra Karl, mas ela rouba completamente a cena porque tudo acaba girando em torno dela. Ela é muito bem construída e seus dilemas são tratados como seriam no mundo real mesmo. Lena não vive num conto de fadas e esse não é um livro bonitinho.

"- Você podia lutar.
O lábio inferior de Lena começou a tremer.
- Sabe de uma coisa? Que se foda essa merda de 'lutar'. Por que eu tenho que lutar o tempo todo quando as outras garotas não? Você pega uma pessoa como eu, que foi tratada como lixo por praticamente todo mundo, e as pessoas acham que estão dando apoio quando dizem: 'Lute', 'Seja forte'. Mas o que eles estão realmente dizendo é que tenho que ser eu a mudar, não a outra pessoa, não o jeito como a sociedade funciona. Bom, eu não sou forte, e tenho uma inveja desgraçada das garotas que podem ser fracas, que conseguem tudo o que querem só ficando ali sentadas, sendo bonitas e burras. Vá se foder por me dizer para lutar." 

(Lena me representando totalmente com sua raiva de gente que quer ajudar, mas acaba piorando a situação com esse discursinho de ir atrás das coisas como se a gente já não fosse. A parte de falar que tem meninas bonitas que não precisam lutar pra conseguir as coisas não me agrada, mas são coisas que a gente fala na hora da raiva porque tudo parece ser tão fácil pras outras pessoas que dá raiva mesmo.)

A vida não é fácil pra Lena e a descoberta da possibilidade de viajar no tempo só complica tudo ainda mais, no entanto é Lena quem salva o dia afinal de contas - apesar de não haver um salvamento de fato, afinal esse definitivamente não é um livro bonitinho. Mas Lena é o ponto central e suas inquietações são o que provocam as mudanças que afetarão o mundo. Porém, até isso acontecer, ela enfrenta diversas dificuldades, especialmente por ser uma mulher gorda e doutoranda em astrofísica.

"Estou acostumada com os homens não gostarem de mim assim. Eles têm que estar em paz com a gordura, e muitos homens estão, mas quando descobrem minha cabeça, fim de papo. Ser ao mesmo tempo gorda e inteligente, e também mulher, é algo desencorajado em nossa cultura, mesmo nos departamentos de física de nossas universidades que valorizam os melhores cérebros, onde homens superam as mulheres na razão de dez para uma. É de se pensar que ter uma boceta e ser capaz de discutir as últimas descobertas sobre o Bóson de Higgs seria um plus, mas não é. Adicione trauma e perda, e você pode ver por que prefiro a vida de um robô." 

Ler esse livro foi como me olhar no espelho e ver como se eu seria se fosse uma personagem de ficção científica. Ele poderia ser dividido em duas partes: pra onde você iria se pudesse voltar no tempo? e quem você seria se pudesse mudar o seu passado?. A segunda pergunta é a mais relevante e provavelmente eu tomaria a mesma decisão da Lena, mesmo que isso alterasse drasticamente tudo, porque ter a possibilidade de mudar coisas essenciais que estragaram a sua vida pra poder ser uma pessoa melhor, e não alguém desgraçada da cabeça, é uma ideia tentadora. O livro inteiro é incrível e virou um dos meus favoritos, mas a Lena, a Lena realmente é algo especial. Se eu tivesse de recomendar essa leitura por algo além dela própria (VIAGEM NO TEMPO! ROCK! MAIS VIAGENS NO TEMPO!), usaria o argumento de que vocês precisam conhecer a Lena.


O livro, além de sci-fi, é sobre shows de rock, então é claro que ele tem uma playlist com as músicas e artistas citados. Clica aqui pra ouvir, só tem musicão. ♥ 

2 Comentários

  1. quero muito ler esse livro!!!!!!!1111
    cara, esses quotes... que soco.

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  2. Consegui este livro gratuitamente no site da Amazon e a leitura está muito agradável. Realmente, não há nada de clichê.

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