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“a thing of beauty is a joy forever”

Como uma crise de gases me fez refletir sobre saúde mental


Num fim de semana passado estava eu terminando de me vestir após o banho quando comecei a sentir uma dor. Tá, era só o que faltava. Respirei fundo, mentalizei um xô, satanás, e prossegui - até porque as crianças estavam na sala esperando e uma delas já havia batido na porta do banheiro duas vezes querendo entrar logo, então não era a hora de dar chilique. Só que a dor não passou. Como ela estava mais ou menos, terminei de colocar a roupa, saí, dei um oi rápido pra todo mundo e fui pra o quarto pra secar o cabelo. 

Só que, chegando lá, mal tinha começado a desembaraçar o dito cujo quando fui obrigada a parar porque A DOR. Pense numa dor. Sim, pior do que dor de dente - porque dor de dente é algo que total superei aos treze anos, quando tive um dente inflamado que me fez ficar com a cara inchada por dois dias, delirando entre a cama e a sala enquanto meu pai via alguma minissérie bizarra cujo nome jamais lembrarei que contava a ascensão do diabo na Terra; bons tempos, como se pode perceber. Até porque não sei vocês, mas dor no tronco é uma coisa que me deixa completamente desestabilizada. Cada vez que tenho uma dor de barriga penso que vou morrer porque é algo bizarro, forte, faz barulhos estranhos e não há posição que dê jeito naquilo. 

Namorado entrou no quarto e viu que algo estava errado porque eu estava deitada na cama, meio em posição fetal, meio esparramada, e metade do lençol estava molhado por causa do meu cabelo que se esparramou junto e verteu água conforme eu tentava achar uma posição que não me doesse. Ele perguntou o que eu tinha. Dor. Comassim dor? Dor, muita dor. Mas onde dor? Na barriga, dor na barriga. Já cagou? Não, tô travada há dois dias, mas tenho certeza de que não é isso. 

Então ele saiu do quarto e me deixou sozinha pra ir ficar com as crianças enquanto eu chorava de verdade como só chorei quando tinha 13 anos e meu dente inflamou pela primeira vez. Aquilo me assustou pra caramba porque eu sou MUITO resistente a dor. Muito mesmo. Uma vez uma amiga ficou apavoradíssima porque estávamos saindo da biblioteca e um livro de mil e poucas páginas caiu no meu pé. Deu um estrondo, todo mundo olhou, e se não fosse por isso ela nem teria percebido nada porque eu.não.emiti.nenhum.som. Não que eu não tivesse sentido dor, mas aguenta que tem dor pior, não faz drama é tipo o mantra da minha vida. Teve a vez também em que fui duplamente atropelada (melhor historinha: um ônibus me atropelou, caí e durante a queda o que vinha atrás deu mais uma atropeladinha que me fez bater com força no cordão da calçada) e quebrei o cóccix (essa porcaria que me dói até hoje). Fiquei uns quinze minutos sentada lá, sentindo uma dor intensa e infernal, e sem ninguém pra ajudar porque as pessoas, sempre as pessoas; até que verifiquei se podia me mexer, levantei calmamente, toda dura, e fui terminar o que tinha ido fazer na faculdade pra só então procurar um médico, que se recusou a me atender porque, segundo ele, tu não foi atropelada, gente atropelada não tem essa cara, tu tá bem. Porque eu não.choro.nunca. 

Mas aí me peguei chorando de dor, apertando a barriga numa cama ensopada por causa do meu cabelo e me sentindo triste porque tinha certeza de que iria morrer e não faria nem metade das coisas que planejo há tanto tempo. Foi quando namorado entrou, me viu naquele estado e me trouxe um remedinho - não faço ideia de qual seja, só sei que tomei a contragosto, porque odeio tomar remédio, e fiquei lá, em posição fetal, chorandinho pelas pontadas de dor que me atravessavam o tronco. 

— Tu tá com muita dor? 
— Obviamente, já que estou chorando de dor. 
— Como é exatamente? 
— É uma dor constante intercalada com dores horríveis que me atravessam a barriga, o estômago, o umbigo, tudo. 
— Hmmm... E tu peidou desde que isso começou? 
— Quê? 
— É, tu peidou? 
— Não, por quê? 
— Porque isso é peido atravessado. 
— QUÊ? 
— É, peido atravessado é um troço que dói pra caramba. Fica quietinha que passa. 
— MAS E SE TIVER ALGO DE ERRADO COMIGO E NÃO FOR DESCOBERTO PORQUE TU ACHA QUE É ALGO COMO GASES? 
— Tu não tem nada. 
— MAS E SE TIVER? 
— Mas tu não tem. 
— MAS E SE? 
— Relaxa, tu não tem. 

E saiu do quarto novamente, me deixando sozinha, chorando e desesperada porque agora mesmo é que tinha certeza de que ia morrer e ninguém ia perceber porque estavam todos lá fora se divertindo ao som de uma trilha sonora infantil e barulhenta e eu pensei meu deus, não acredito que vou morrer ouvindo isso, poderia bem ser algo mais adequado, tipo o requiem do Mozart ou algo assim, minha vida é uma piada, ele vai voltar aqui e eu vou estar toda horrível, provavelmente minhas tripas já vão ter estourado e aí será tarde e... isso foi um peido? E era um peido mesmo. Que foi acompanhado por outro e mais outro e mais outro até que, apesar de ainda estar dolorida, as agulhadas fortíssimas passaram e eu pude levantar e pentear o cabelo finalmente. 

Isso poderia ser apenas uma história ridícula sobre exagero, mas eu não sou a Jenny Lawson com seu dom de fazer todo mundo rir de suas histórias ridículas e maravilhosas. 

Como já disse Charles Dickens, o narrador pessoal da minha existência, "It was the best of times, it was the worst of times.". Isso porque viver dentro da sua cabeça quando você está sempre atenta a sinais de morte é algo horrível. HORRÍVEL. Está tudo ótimo, adoro a firma, a faculdade tá maravilhosa, tenho amigos, um namorado bacana, uma perspectiva legal de futuro... Mas basta uma dorzinha pra eu achar que estou morrendo, que tudo acabou, que nada mais faz sentido e que todo mundo me odeia.

~mood~

Todo dia é o pior dos tempos pra quem tem a cabeça desgraçada. É como disse meu amigo Sherlockinho, "Estresse pode estragar todos os dias da sua vida. Morrer, apenas um.". Qualidade de vida é muito mais do que um emprego estável, gente legal ao seu lado, apoio emocional. Qualidade de vida é, principalmente, estar em paz consigo mesmo, com a mente tranquila e sem ser invadida por um desespero terrível cada vez que uma pequena coisa estranha acontecer.

E isso é um saco. 

Comentários

  1. essa dor é indescritível, parece que a gente vai se partir no meio, né! e o final do seu texto, eu entendo tão completamente, é tão horrível. qualquer coisa que faço ou me acontece fora do script eu acho que vou levar bronca, e fico nervosa como se levar bronca fosse equivalente a levar um tiro. de repente, é como você falou: o emprego, as pessoas que gostam da gente, os nossos lazeres, nada mais importa, só o desgraçamento que foi ativado e está sendo alimentado na nossa cabeça. eu sempre tive um pouco disso, mas parece que está piorando. e eu sempre acho que as pessoas vão acreditar que sou uma incompetente então estou eternamente no 220v. ai, ai.

    e que namorado camarada hein! fico feliz quando vejo ou sei de vocês dois. se eu fosse da vibe dos adolescentes até diria que shippo vcs dois eheheh

    melhoras para a nossa sanidade mental!

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  2. isso me fez lembrar da vez que meu pai, que recém tinha saído de uma cirurgia de remoção de próstata por conta de um câncer, entrou em desespero com dores fortíssimas e achava que ia morrer. e eu lembro porque ele era você sofrendo horrores e a médica dele era seu namorado, com toda a tranquilidade falando NÃO, VOCÊ NÃO VAI MORRER. SÃO APENAS NUVENS BRANCAS q? É, NUVENS BRANCAS. SÃO GAZES PRESOS. e nada como alguns peidinhos pra aliviar a tensão.

    quanto a relação com a morte. ainda hoje terminei de ler confissões do crematório, de caitlin doughty e bom, me fez ter um perspectiva bem interessante sobre isso. o livro é basicamente sobre a experiência dela com a indústria funerário e a relação das pessoas com a morte no decorrer da história. fica a dica de leitura ♥

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