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A assombração da casa da colina

Histórias de terror são as minhas favoritas desde que eu era criança. Comecei a 1ª série já alfabetizada e pegando livrinhos na biblioteca. Um dos primeiros que peguei foi o Contos de Assombrações, uma coletânea com diversos contos de terror da América Latina. Lembro que fiquei fascinada por eles e suas histórias me marcaram muito, tanto que posso recontá-las até hoje, mesmo nunca tendo relido o livro. A minha preferida era A Mulata de Córdoba, uma mulher lindíssima que, por ser tão bonita e não envelhecer, foi presa e condenada à morte, acusada de bruxaria. Nada de novo sob o céu, como fiquei sabendo tempos depois, infelizmente. Porém, o conto continua lindo e misterioso e foi um dos motivos para o meu amor pelo terror. 


A Companhia das Letras, minha editora preferida e parceira aqui no bloguito, está lançando no Brasil, pelo selo Suma, a obra da Shirley Jackson, notória escritora de terror dos EUA que, por algum motivo, não é muito conhecida por aqui. Mas total deveria ser, porque li apenas um livro dela até agora e já quero ler tudo o que ela escreveu. O lido da vez foi A assombração da casa da colina, livro que virou série da Netflix (com o título um pouquinho modificado de A maldição da residência Hill) e que me deixou nervosa em muitas páginas.


The haunting of Hill House
Shirley Jackson
240 páginas
Suma
Ano de publicação: 2018
Encontre na Amazon 

Sobre o que é: Sozinha no mundo, Eleanor fica encantada ao receber uma carta do dr. Montague convidando-a para passar um tempo na Casa da Colina, um local conhecido por suas manifestações fantasmagóricas. O mesmo convite é feito a Theodora, uma alma artística e “sensitiva”, e a Luke, o herdeiro da mansão. Mas o que começa como uma exploração bem-humorada de um mito inocente se transforma em uma viagem para os piores pesadelos de seus moradores. Com o tempo, fica cada vez mais claro que a vida, e a sanidade, de todos está em risco. 

O dr. Montague é um daqueles típicos senhorzinhos de filmes dos anos 60 que tiveram uma experiência com o sobrenatural na juventude e agora passam a vida atrás de qualquer coisa que possa se assemelhar àquilo, mas acaba se perdendo na ânsia de fazer uma grande descoberta científica sobre o Grande Além. Numa dessas, ele encontra a Casa da Colina (Hill House) e, após perceber que ninguém da cidade sequer falava sobre a casa, pois coisas ruins aconteceram por lá, ele se decidiu a passar um verão naquele local. Pra isso, entrou em contato com várias pessoas que supostamente haviam passado por experiências paranormais para aflorar melhor o sobrenatural na casa.

No início da leitura, pensei que a narrativa se alternaria entre os quatro personagens principais: dr. Montague, Eleanor, Theodora e Luke. No entanto, conforme fui lendo, percebi que a personagem principal, de fato, é Eleanor.

Todos ali são interessantes e perturbadinhos em certa medida, mas Eleanor realmente leva aquilo a sério. Após passar anos cuidando de uma mãe doente que lhe atormentava, ela foi morar com a irmã e o cunhado, que a tratam como criança porque ela dedicou os primeiros anos de sua vida adulta a cuidar da mãe ao invés de constituir família. São os anos 1960 e ser uma mulher solteira aos trinta e poucos não era algo visto com bons olhos. Quando ela recebe a carta do dr. Montague a convidando a passar o verão na Casa da Colina, vê naquilo não apenas uma caça a fantasmas, mas sim uma fuga de sua realidade e uma possibilidade de uma nova vida. "Jornadas sempre terminam com o encontro de amantes."

Quando criança ela havia tido uma experiência de telecinese que chegou a ser noticiada, mas desde então nada tinha se manifestado. Porém, isso estava para mudar e me atrevo a dizer que de todas as pessoas supostamente sensitivas daquela casa, Eleanor era a única que de fato possuía uma conexão com o Grande Além.

Sua chegada na Casa da Colina só pode ser descrita como repleta de tormentos. Após passar pelo povoado que antecede as grandes colinas além e travar um diálogo muito estranho numa lancheria, Eleanor finalmente chega ao seu destino e a sensação que o local lhe passa é algo que faz o próprio leitor se sentir profundamente incomodado. A casa é um tipo de mansão vitoriana, porém totalmente fora de proporção. Ela foi construída de forma a causar mal estar em quem olhá-la ou estiver perto dela, pois é literalmente torta. Nada faz sentido ali: as portas se fecham sozinhas, é tudo escuro e com cheiro de mofo, a decoração é em tons escuros e sombrios e ninguém pára muito tempo ali dentro sem ter um ataque de nervos.

O dr. Montague possui um método científico para seus estudos da casa, mas não há método que resista às coisas que ali acontecem (especialmente naquele capítulo que ocorre com a Eleanor e a Theo; se você leu o livro tenho certeza de que sabe do que estou falando porque aquela é uma das passagens mais tensas que já li).

É interessante observarmos que essa seria uma história de terror qualquer não fosse pela narrativa. Não é à toa que Shirley Jackson foi apelidada de Virginia Werewoolf pelo pessoal de sua época, já que seu estilo narrativo, com fluxo de consciência, é parecido com o da maravilhosa escritora Virginia Woolf, ao passo que Werewoolf significa Lobisomem (ou seja, uma Virginia Woolf do horror). Sua escrita é maravilhosa. Há várias cenas verdadeiramente oníricas em que não sabemos se o que está acontecendo é real ou se está apenas no plano das ideias. E é justamente esta a sensação de se estar vivendo uma história de terror: o limiar entre a loucura e a sanidade precisa ser tênue, e Shirley conseguiu esse efeito com maestria.

Em um quote: 
"Não entendo." Theodora largou o lápis num gesto exasperado. "Você sempre vai aonde não te querem?"
Eleanor sorriu placidamente. "Nunca me quiseram em lugar nenhum", ela explicou. 

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1 Comentários

  1. Eu sou muito cagona pra livro de terror, quando li O Iluminado só conseguia ler de dia porque a noite sempre que lia tinha pesadelos, aff!
    Sei que tô relapsa no nosso projetinho das fotos, mas tô tentando voltar pro blog e te indiquei pra uma tag, se quiser responder fica a vontade: https://www.suspirare.com/2018/10/sunshine-blogger-awards.html

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