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A criança no tempo, de Ian McEwan


Apesar de eu não ter nenhum de seus livros como favorito, Ian McEwan é um dos meus escritores preferidos. Isso pode parecer contraditório, mas não é tanto: ainda não li um livro do McEwan que me fizesse ter uma experiência literária profunda e sentimental, como aconteceu com todos os meus favoritos, mas por mais que um livro seu como um todo não tenha me cativado dessa maneira, sua obra - escrita, forma narrativa, etc - me faz querer dar um abraço nesse senhorzinho, pois ele de fato é um dos grandes escritores contemporâneos. 

Não cheguei a favoritar na lista de favoritos da vida A criança no tempo, mas ele está entre os favoritos do ano passado. Lido com calma, como se deve ler todos os livros que tratam da temática do tempo, ele foi meu companheiro de viagens por mais ou menos um mês e conforme suas personagens iam passando pelo tempo e pensando sobre o tempo, eu também passava e pensava, e senti que crescia de uma forma muito particular junto com a leitura. 

A criança no tempo
Ian McEwan
288 páginas
Companhia das Letras
Ano de publicação: 2018
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Sobre o que é: Numa ida rotineira ao supermercado, Stephen Lewis, escritor bem-sucedido de livros infantis, se depara com a maior agonia de um pai: Kate, sua filha de três anos, desaparece sem deixar rastros. Numa imagem terrível que se repete ao longo dos anos seguintes, ele percebe que a garota não vai voltar. Com ternura e sensibilidade, Ian McEwan nos leva ao território sombrio de um casamento devastado pela perda de um filho. A ausência de Kate coloca a relação de Stephen e de sua esposa Julie em xeque, enquanto cada um deles enfrenta à sua maneira uma dor que só parece se intensificar com o passar do tempo. O livro discute temas como ausência, luto, culpa e as marcas indeléveis que um acontecimento pode deixar em uma família. Um romance surpreendente de um dos melhores escritores de sua geração.

A história é sobre Stephen, um escritor de livros infantis que vê sua vida desmoronar. Quando sua filha desaparece, sua existência entra em suspensão. O desaparecimento de uma criança é um dos mais terríveis medos que se pode sentir. Todos já ouvimos histórias de crianças que foram passear com os pais ou algum parente e, em meio a uma multidão, sumiram e nunca mais foram encontradas. Essa é a história de Kate, a filha pequena de Stephen que um dia, no supermercado, simplesmente desaparece e nunca mais é encontrada. Não se preocupe, isso não é um spoiler: a história não é sobre o que acontece, mas sobre o que se sente a respeito do que acontece. 

É interessante perceber as camadas presentes em A criança no tempo, camadas de infância em quase todas as personagens. A criança do título não é apenas Kate, a filha desaparecida, mas também Stephen, que entra num luto tão profundo a ponto de ficar atordoado e com os sentidos embaçados, se refugiando em rotinas diárias e conhecidas e voltando a um passado que não viveu, de sua mais remota infância. Sua criança é onírica e representa a pouca sanidade que lhe restou, mas não lhe tira a adultez, apenas lhe desvia o foco para que ele possa lidar com o luto sem afundar em si mesmo. Stephen vive uma vida miserável após o desaparecimento de Kate. Seu processo de luto é interno: após meses de buscas incessantes, ele simplesmente pára e vive como se estivesse programado no modo automático. Vai a suas reuniões da comissão no Parlamento para a saúde e educação na infância, visita seu amigo e editor, Charles, tenta uma reaproximação com a esposa, que saiu de casa para poder vivenciar seu luto de sua maneira, tudo repetidamente, sem um respiro. Às vezes pensa ter visto sinais da resistente existência de Kate no mundo, mas isso ocorre porque ele não sabe como lidar com uma pessoa que um dia está lá e no outro simplesmente não mais está. 

No livro todo há opostos, e o de Stephen é sua esposa, Julie, que abraça a dor e vive o luto intensamente, sem refúgios ou escapatórias para não sentir. Ela é seu pólo oposto, representando o duplo da adultez, do assombroso reconhecimento da realidade. Ela não pode fingir que Kate não existiu, tampouco consegue ignorar que ela não mais está no mundo - ao contrário de Stephen, que se agarra a essa possibilidade mesmo anos após anos terem se passado. Julie tem a forma esperada de se lidar com a perda: ela se isola, passa por mudanças profundas em sua rotina, sua aparência, sua trajetória. Ela é o oposto de Stephen por não apenas sentir o luto, mas não tentar fugir dele. 

Outro duplo está presente em Charles e sua esposa, uma professora universitária de Física. Charles conheceu Stephen através de seu primeiro livro, que era um romance para adultos, mas a que Charles viu como algo claramente pertencente ao universo infantil. Fascinado pela escrita de Stephen, não apenas editou seu livro como também se aproximou dele, construiu uma amizade profunda e via em Stephen uma afirmação - quase como uma autorização - para exercer seu lado infantil, lado reprimido por muito tempo, mas fortemente lutando para sair. Esse homem de negócios, que posteriormente foi para a política e se tornou muito bem-sucedido nela, de repente larga absolutamente tudo, se muda para o meio do mato, se isola de todos e vive como se fosse uma criança, correndo pelos campos e fazendo brincadeiras.

Sem revelar muito do enredo, pois o desenvolvimento de Charles é inverso ao de Stephen e ambos são amarrados como dependentes do outro na narrativa, devo dizer que Ian McEwan mais uma vez mostrou não apenas sua habilidade para a escrita, mas que ele se diverte escrevendo - e é por isso que seus livros são tão bons. Se pode observar isso, por exemplo, pelo fato de sempre haver um personagem escritor em seus livros, talvez um reflexo de si próprio.

A criança no tempo tinha tudo para ser um livro triste e pesado, mas é um livro mágico, dotado de uma atmosfera de magia - uma magia que congela o tempo e faz com que nós também fiquemos suspensos no tempo enquanto acompanhamos a jornada de Stephen, e de Julie, e de Charles, perdidos numa espécie de transe entre o mundo adulto e o infantil. É um livro lindíssimo que merece ser lido com calma.

Enquanto vivia aquele ano, contudo, ele sentia que estava num tempo vazio, sem significado ou propósito.

2 Comentários

  1. Comecei o ano passado lendo Na Praia do autor, e nesse comecei Reparação. Com Na Praia, senti como se meu ar fosse constantemente tirado de mim. Pela sua resenha, acho que o mesmo acontece nos outros livros dele, não é?
    Beijos, Mia <3

    Limonada

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    Respostas
    1. Ainda não li Na Praia, mas já ouvi dizerem que é o mais pesado dele mesmo. Porém, essa sensação é real em seus livros. Todos que li possuem essa vibe de TENSÃO, mas de uma forma poética que eu amo demais haha

      Bjo!

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