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Os números do amor, de Helen Hoang


Eu não costumo ler livros de romance. Muito menos com conteúdo adulto. Mas eu não sabia que esse livro continha cenas picantes quando iniciei a leitura. (Desatenção minha, tem um aviso na contracapa.) Comecei a lê-lo por curiosidade em saber como retratariam uma protagonista Asperger e acabei me deparando com umas cenas bem detalhadas. Porém, quero dizer logo de cara que isso não foi problema algum: apesar de não curtir muito o estilo, gostei bastante do livro e só tenho coisas boas pra falar dele. 

Os números do amor
Helen Hoang
280 páginas
Paralela
Ano de publicação: 2018
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Sobre o que é: Já passou da hora de Stella se casar e constituir família - pelo menos é isso que sua mãe acha. Mas se relacionar com o sexo oposto não é nada fácil para ela: talentosa e bem-sucedida, a econometrista é portadora de Asperger, um transtorno do espectro autista caracterizado por dificuldades nas relações sociais. Se para ela a análise de dados é uma tarefa simples, lidar com os embaraços que uma interação cara a cara podem trazer parece uma missão impossível. Diante desse impasse, Stella bola um plano bem inusitado: contratar um acompanhante para ensiná-la a ser uma boa namorada. Enfrentando uma pilha cada vez maior de contas, Michael Phan usa seu charme e sua aparência para conseguir um dinheiro extra. O acompanhante de luxo tem uma regra que segue à risca: nada de clientes reincidentes. Mas ele se rende à tentação de quebrá-la quando Stella entra em sua vida com uma proposta nada convencional. Quanto mais tempo passam juntos, mais Michael se encanta com a mente brilhante de Stella. E ela, pela primeira vez, vai se sentir impelida a sair de sua zona de conforto para descobrir a equação do amor. 

Stella é uma econometrista bem-sucedida que lida com uma situação desgastante com a qual muitas de nós temos de lidar: a família enchendo o saco pra que ela case e tenha filhos. Por algum motivo, a sociedade ainda acha que mulheres não são completas e não podem ser felizes se não estiverem casadas e parindo. Stella acha isso uma bobagem, mas pra não ter de ficar o tempo todo ouvindo essa ladainha e melhorar suas people skills, como diria o nosso amado Cass de Supernatural, ela decide contratar um acompanhante pra ensiná-la as artes do sexo.

Já amei essa premissa logo de cara porque é muito aquele filme maravilhoso dos anos 90, Muito bem acompanhada, só que numa vibe mais erótica do que romântica - ao menos a princípio. Porém, os motivos que levam Stella a fazer isso vão muito além de sua mãe incomodativa: ela é Asperger e não sabe se relacionar com pessoas.

Para quem não sabe do que estou falando, Asperger é uma classificação leve no espectro do autismo - aliás, ERA, já que no ano passado foi tirado da classificação de autismo porque aspies são super funcionais, apenas possuem uma forma diferente de lidar com o mundo. É importante lembrar que Asperger NÃO É UMA DOENÇA, é uma alteração cerebral que faz com que indivíduos sejam diferentes em relações sociais e tenham certas peculiaridades, mas não os torna incapazes de nada.

Stella é Asperger e, apesar de não sabermos muito sobre sua família durante o livro, dá para perceber que sempre foi forçada a ser como todo mundo. Suas limitações são simples, mas as pessoas parecem não compreender que barulho demais a deixa agitada, festas são seu inferno pessoal e contato físico a faz hiperventilar. Ela só quer ficar em paz, mas é bem comum que as pessoas não aceitem a forma como os outros são e tentem impor seu modo de vida a elas - e isso infelizmente ocorre com Stella.

É aí que ela conhece Michael. Ele, um acompanhante profissional descendente de vietnamitas, todo musculoso e tatuado, a deixou balançada. Não somente por seu visual, que para Stella era o máximo da atração, mas também por seu comportamento. A ideia dela era contratá-lo para ensiná-la os segredos do sexo, mas ele logo percebe que não é disso que ela precisa. Stella queria aprender a se relacionar, porém uma relação é muito mais do que o aspecto físico.

Michael realmente respeita Stella e, apesar de todos os sentimentos envolvidos, sempre tenta deixá-la o mais confortável possível, sendo ela a guia de seus momentos pra que nada seja forçado. Achei isso bem importante, pois se há uma coisa de que não precisamos é de mais um romance com um cara abusivo ultrapassando todos os limites, especialmente com uma personagem aspie.

No entanto, apesar do romance que acaba se desenvolvendo entre os dois ser bacana, achei complicada a premissa de que a pessoa Asperger tem de mudar seu modo de ser para conseguir se relacionar. Por mais que Michael respeite Stella, rola umas lições de Como Ser Uma Pessoa Normal que realmente me incomodaram. Também me incomodei com o quanto ele é possessivo. Sim, sentimentos são intensos, ainda mais no contexto de uma pessoa como Michael, que não esperava gostar de alguém ou se envolver para além das questões profissionais, porém acho que já deu de personagens possessivos como o ideal romântico, não é mesmo?

Dito isso, devo dizer que o livro é realmente fofo. Me vi torcendo pelos dois em vários momentos - e olha que eu sou uma pessoa que curte as trevas e solidão e geralmente torço contra casais, risos - e as cenas eróticas, apesar das descrições explícitas, fazem sentido no contexto narrativo, não estão soltas ali por acaso.

Um ponto muito importante é que a autora, Helen Hoang, é Asperger! Ela descobriu isso justamente quando estava fazendo pesquisa para o livro, após a escola de sua filha lhe chamar a atenção para traços aspies da menina. É muito comum que mulheres sejam diagnosticadas como Aspergers após os 30 anos porque há toda uma socialização feminina que induz a mulher a usar máscaras sociais e se adaptar à sociedade - mais do que o menino, que demonstra com facilidade seus traços, pois não é coagido a se misturar.

Aquele era o jeito dela. Stella se sentia mais solitária do que nunca quando estava cercada de gente. Em geral, aquilo não a incomodava. Não precisava de companhia. Ficava contente se tinha espaço e tempo para se dedicar àquilo que a interessava. Mas Michael a interessava, e ela não se sentia solitária com ele. Nem um pouco. 

2 Comentários

  1. Mia, que curiosidade gigante me deu de ler esse livro. Adorei a resenha. ♥

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    1. Oi, Mafê! Espero que leia e goste - realmente vale a pena ♥

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