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Daisy Jones & The Six é o livro que você precisa ler e nem sabia


Taylor Jenkins Reid tem um gosto pelo jornalismo. Os dois livros que li dela, Daisy Jones & The Six e The Seven Husbands of Evelyn Hugo trazem histórias de pessoas famosas contadas por meio de entrevistas jornalísticas. E, apesar de eu ter gostado de Evelyn Hugo e seus dramas hollywoodianos, o que se encontra em Daisy Jones é singular, eletrizante e viciante. A história da maior banda da década de 70 e do ícone musical que foi Daisy Jones é algo de que não se consegue tirar os olhos até chegar à última página. 

Daisy Jones & The Six 
Taylor Jenkins Reid 
244 páginas 
Paralela 
Ano de publicação: 2019 

Sobre o que é: Todo mundo conhece Daisy Jones & The Six. Nos anos setenta, eles dominavam as paradas de sucesso, faziam shows para plateias lotadas e conquistavam milhões de fãs. Eram a voz de uma geração, e Daisy, a inspiração de toda garota descolada. Mas no dia 12 de julho de 1979, no último show da turnê Aurora, eles se separaram. E ninguém nunca soube por quê. Até agora. Esta é história de uma menina de Los Angeles que sonhava em ser uma estrela do rock e de uma banda que também almejava seu lugar ao sol. E de tudo o que aconteceu ― o sexo, as drogas, os conflitos e os dramas ― quando um produtor apostou (certo!) que juntos poderiam se tornar lendas da música. Neste romance inesquecível narrado a partir de entrevistas, Taylor Jenkins Reid reconstitui a trajetória de uma banda fictícia com a intensidade presente nos melhores backstages do rock’n’roll. 

É impossível não se apaixonar por Daisy Jones. Essa não é apenas a conclusão de Billy Dunne, vocalista da banda The Six, mas também minha. Durante a leitura do livro, não foram poucas as vezes em que lamentei que Daisy e a banda fossem fictícios. Existem algumas coisas a que não resisto: um bom rock and roll, uma mulher liderando uma banda e pessoas que vivem sua verdade. Daisy Jones é tudo isso. A história da menina groupie que ficava seguindo bandas e pegando caras de bandas no final dos anos 60 e que percebeu que era usada por essas caras para ser a musa inspiradora de suas músicas quando, na verdade, ela é quem deveria estar sendo ouvida por aí é contagiante. 

Eu não tinha o menor interesse em ser a porra da musa de alguém. Eu não sou a musa. Eu sou esse alguém. E assunto encerrado. 

Quando finalmente começa a escrever suas músicas e usar sua potente e grave voz para cantá-las, produtores do meio musical ficam imediatamente de olho nela, mas o problema é que sendo mulher o agenciamento nunca é apenas algo profissional, já que os agentes se aproveitavam de suas artistas em todas as formas. Não é fácil para Daisy se lançar na música e requer um bom tempo até que consiga autonomia para fazer as coisas do seu jeito, mas quando consegue ela se transforma em um furacão incapaz de ser contido. Infelizmente, esse furacão é abastecido com drogas e álcool, o que se torna um problema real na vida de Daisy. 

Enquanto isso, as coisas estão finalmente deslanchando para a banda The Six. Formada pelos irmãos Dunne, Billy e Graham, eles estão conseguindo contatos e shows, vendendo muitos discos e criando novas músicas. Porém, apesar de todo o sucesso e o dinheiro, as drogas e o álcool falam mais alto para Billy, que não consegue se controlar e acaba se atirando numa espiral perigosa de abuso de substâncias ao casar com sua namorada, Camila. Após uma turnê regada a todo tipo de substâncias ilícitas, Billy se interna numa clínica de reabilitação, perdendo o nascimento da filha mais velha e seus primeiros meses de vida. Finalmente se recupera, sai da clínica e parte com a banda para gravar um novo álbum. Quando o pessoal da gravadora sugere que uma música em específico, Honeycomb, tem potencial para se tornar um hit estrondoso caso Billy a cante em dueto com alguma cantora e a cantora em questão é Daisy Jones, as coisas esquentam para o lado de Billy, que luta para se manter sóbrio e cumprir as promessas que fez à Camila enquanto lida com Daisy, deslumbrante, problemática e eternamente chapada. 

Mas esse não é um livro sobre uma manic pixie dream girl aparecendo com toda sua loucura e espontaneidade para salvar um cara meio perdido na vida. Os problemas de Daisy são reais e Taylor os trata com seriedade pela perspectiva dos antigos integrantes da banda, com entrevistas em que rememoram os tempos passados e contam todos os detalhes sórdidos do mundo do rock e das drogas dos anos 70. 

A gente estabelece os limites. Mas aí acaba passando dos limites mesmo assim. E, de repente, surge aquela ideia perigosa de que dá para ultrapassar os limites sem que nada aconteça. O mundo não vai acabar por causa disso.
A gente pega uma linha divisória muito clara e transforma numa zona cinzenta. E de vez em quando acaba indo longe demais de novo, e essa zona cinzenta vai ficando ainda mais difícil de distinguir, e a gente pensa: Tinha um limite muito claro aqui, só não sei onde

O vício é abordado de maneira muito real e horrível. De início, as drogas parecem apenas parte da diversão, algo simples e legal. Depois, aos poucos, os integrantes da banda vão percebendo o quanto elas estão estragando suas vidas e como os limites entre ser uma pessoa que está se divertindo e um viciado parecem não mais existir conforme afundam cada vez mais no uso de drogas. Para quem conhece a cena musical dos anos 60 e 70, não é difícil perceber a realidade do que a autora retrata no livro e de como, apesar de a banda ser fictícia, todos ali poderiam existir de verdade. 

Outra coisa incrível no livro é que dá para perceber direitinho que ele foi escrito por uma mulher. Taylor faz questão de inserir personagens femininas e dar voz a elas, coisa que homens geralmente não fazem, especialmente em livros sobre música. Não é fácil ser mulher, mas naquela época era mais difícil ainda ser uma mulher no meio musical, especialmente dentro do rock, tão masculino e objetificador. Além de Daisy, que é a maior estrela do livro, também há outras personagens importantes: Karen, a tecladista da banda, e Camila, esposa de Billy. Todas as personagens são complexas e independentes. É incrível como a autora conseguiu criar personalidades distintas para tantos personagens e dar nuances únicas a cada mulher na trama, fazendo com que elas realmente pareçam verossímeis e vão muito além do estereótipo de esposa de rockstar ou mulher do rock que usa sua sensualidade para conquistar a fama. Elas não são assim e seus dramas são tangíveis a ponto de o leitor realmente conseguir se envolver. 

Era um mundo totalmente masculino. O mundo inteiro era dominado pelos homens, mas a indústria fonográfica... não era fácil. A gente precisava da aprovação dos homens para fazer qualquer coisa, e parecia só ter duas opções. Ou se comportava como um dos caras - que foi o caminho que resolvi seguir -, ou dava uma de menininha e tentava ganhar todo mundo na base do charme. Eles gostavam disso. 

Karen virou uma das minhas personagens preferidas. Como uma mulher do rock em plena década de 70, ela tinha uma postura muito firme e decidida, se impondo para não ser mandada pelos caras à sua volta, que não tinham nenhum respeito por mulheres. Não usava roupas decotadas, não se envolvia em relacionamentos com caras da música e focava no trabalho. Daisy era seu oposto, saindo quase nua, se envolvendo com todo mundo e fazendo o que bem entendesse, inclusive se deixando ser usada pelos caras. As personalidades de Karen e Daisy mostram o que parecia ser os únicos dois caminhos que uma mulher podia seguir naquela época se quisesse fazer sucesso: ou abusava da sua sexualidade ou a negava. Não parecia haver meio-termo para ser uma mulher do rock na época. 

Após alguns anos com a banda, quando finalmente decidiu que poderia abrir um pouco seus sentimentos e se relacionar com Graham, Karen teve de tomar uma difícil decisão. Ao engravidar de Graham, ela decidiu abortar o feto para continuar com sua carreira. Graham ficou ensandecido de raiva, mas Karen deixou bem claro para ele: "Contei para o Graham que tinha decidido abortar. E ele me falou que eu estava louca. Eu disse que não estava louca coisa nenhuma. Aí ele me pediu para não fazer aquilo. Eu perguntei: 'Você vai sair da banda para criar esse bebê?'. E ele não respondeu. E isso encerrou a conversa.". Ser mulher é uma droga. Homens raramente estão dispostos a fazer sacrifícios por suas carreiras em prol da família, mas é esperado que as mulheres o façam. A forma com que a autora traz o tema da gravidez, do aborto e da carreira da mulher no livro é incrível e, por isso, Karen é uma das personagens que mais se destacam na história. 

Porém, sendo Taylor uma boa escritora, ela não se limitou a aprofundar apenas as personagens femininas, mas também deu profundidade suficiente aos homens da história, que falaram abertamente sobre seus desejos, medos e motivações. Billy é o líder da banda, vocalista, compositor e praticamente todo o resto porque não permite que ninguém faça nada além de tocar as músicas que ele determina. Ele tem sérios problemas como um cara viciado e tenta o tempo todo se redimir para proporcionar a vida que sua esposa, Camila, merece. Seu irmão Graham é o típico rockstar: festas, álcool, drogas e muitas mulheres ao redor dele, mas ele deseja sossegar e ter algo como o que Billy tem com Camila. Os outros caras da banda não ganham tanto destaque, mas Eddie tem sua quota de personalidade bem definida com seus rompantes de revolta - uma revolta justíssima, por sinal - contra Billy e sua mania de liderança incontestável. Contudo, apesar das nuances dos personagens masculinos, este é um livro em que as mulheres do rock brilham mais do que todo mundo e isso é satisfatório demais.

Outro ponto importante do livro é a forma com que as músicas são descritas. Todas as letras dos grandes sucessos da banda foram criadas pela autora, e são letras lindíssimas. É impossível lê-las e não querer ir no Spotify procurar por Daisy Jones & The Six para ouvi-las. Lamento muito não poder ouvir The Impossible Woman, que a autora descreve como visceral, atormentado, repleto de dor e raiva na voz grave e meio rouca de Daisy. Ou os duetos entre ela e Billy. A maneira com que as músicas são descritas a faz parecerem reais e totalmente desejáveis. Daisy Jones & The Six é a banda que eu queria que existisse.

O formato do livro é todo em entrevistas, bem jornalístico, e achei isso demais, já que quebra com a narrativa de romance tradicional e traz proximidade do leitor com as personagens, que contam a história em primeira pessoa. A única coisa de que não gostei muito foi do final. Não detestei, certamente não afetou a leitura, mas Taylor parece ter uma predisposição a finais dramáticos, já que o que ela fez nesse livro é bem similar ao que ela havia feito em The Seven Husbands of Evelyn Hugo. Achei desnecessário e fora de tom dentro da história. Mas, como disse, não prejudicou a leitura, apenas ficou sobrando.

As referências musicais estão presentes em toda a obra para os leitores que conhecem a cena musical do rock setentista - e no final a autora, em seus agradecimentos, revela algumas delas. Para mim, durante a leitura, vi Daisy Jones como uma espécie de Stevie Nicks, e a autora revelou que de fato o álbum Rumours, do Fleetwood Mac, foi uma grande inspiração para a banda. Mas também vi um pouco da Grace Slick, do Jefferson Airplane, na maneira com que a voz de Daisy Jones é descrita. Enfim, as referências são várias, mas particularmente quando terminei a leitura eu fui correndo ouvir o álbum Rumours para entender melhor o que a autora tinha em mente ao escrever as músicas e a vibe da banda e foi uma experiência maravilhosa. Recomendo.

Em um quote:
É por isso que eu sempre amei fazer música. Não pelo som, pela fama e pela diversão, e sim pelas palavras que a gente pode deixar fluir enquanto canta - as emoções, as histórias, as verdades. 


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