na cabeceira

literatura & diarices

Mulheres na luta: a história do feminismo em quadrinhos


Quando eu era criança, lia muitas HQs. Conforme o tempo foi passando, senti que algo faltava naquelas histórias e comecei a perder o hábito de lê-las. Comecei a passar reto pela sessão de HQs em livrarias. Mas percebi, do ano passado pra cá, que meu problema com HQs não era a história ser contada através de desenhos, mas simplesmente as temáticas. Sim, eu gosto de heróis, acho algumas premissas bem interessantes, mas parecia faltar aquela coisa que falasse comigo. Identificação, apelo a persona, chame do que quiser: eu queria ler mais mulheres e ver suas criações retratadas em desenhos. 

Quando descobri o mundo das HQs femininas fiquei muito empolgada. Já tenho algumas em minha estante e sempre olho para elas com carinho, pensando o quão bom é que esse espaço, tão masculino, esteja sendo cada vez mais conquistado por mulheres. O lançamento da editora Seguinte, que conta a história do feminismo em quadrinhos, é um achado em meio a esse mundo e só faz aumentar a voz feminina em um mercado tão fechado. 

Mulheres na luta: 150 anos em busca de liberdade, igualdade e sororidade 
Marta Breen e Jenny Jordahl 
128 páginas 
Seguinte 
Tradutora: Kristin Lie Garrubo 
Ano de publicação: 2019 

Sobre o que é: Há 150 anos, a vida das mulheres era muito diferente: elas não podiam tomar decisões sobre seu corpo, votar ou ganhar o próprio dinheiro. Quando nasciam, os pais estavam no comando; depois, os maridos. O cenário só começou a mudar quando elas passaram a se organizar e a lutar por liberdade e igualdade. Neste livro, Marta Breen e Jenny Jordahl destacam batalhas históricas das mulheres — pelo direito à educação, pela participação na política, pelo uso de contraceptivos, por igualdade no mercado de trabalho, entre várias outras —, relacionando-as a diversos movimentos sociais. O resultado é um rico panorama da luta feminista, que mostra o avanço que já foi feito — e tudo o que ainda precisamos conquistar. 

A história do movimento feminista contada em quadrinhos é algo muito necessário e, ao mesmo tempo, irônico. Necessário para meninas e jovens mulheres conhecerem melhor o que é o feminismo, onde surgiu, quais foram as primeiras lutas do movimento e para onde ele vai. Irônico porque parece que as autoras Marta Breen e Jenny Jordahl decidiram dar vida ao ditado "quer que eu desenhe?". Infelizmente, parece que algumas coisas precisam, de fato, ser desenhadas para que as pessoas as possam compreendê-las. O feminismo é um desses casos, já que grande parte da população ainda vê as feministas como mulheres loucas, rebeldes, revoltadas e sem moral. Obviamente nada disso é verdade e essa HQ pode ajudar o leitor a compreender melhor o movimento ao mesmo tempo em que homenageia várias mulheres que deram suas vidas em nome da liberdade. 

A HQ começa reconstruindo a vida da mulher no século XIX, quando não era permitido que elas frequentassem cursos universitários, possuir terras ou votar. Essa situação se estendeu por muito tempo e não foi sem luta que as mulheres conseguiram se libertar de tais amarras, que as restringiam a basicamente papéis de esposas e mães. A luta pela liberdade das mulheres também passou pela luta contra a escravidão. É impossível dissociar o feminismo das pautas anti-escravagistas e anti-racistas, como a HQ deixa bem claro. Harriet Tubman, uma ex-escravizada nos EUA daquela época, ganha muitas páginas na obra, que retrata em breves quadrinhos sua vida e importante contribuição para o feminismo. 

Talvez a pauta mais conhecida desse feminismo histórico seja o sufrágio. As sufragistas ficaram especialmente conhecidas após o filme que saiu em 2015, e é destinada uma parte dos quadrinhos da HQ para contar essa história. O sufrágio foi a união das mulheres pelo direito ao voto, que só ocorreu muitos anos depois do início da luta. Foi a chamada primeira onda feminista. 


A obra segue mostrando a vida de mulheres que se destacaram no feminismo e que travaram suas batalhas, dando o foco para mostrar que cada vitória, mesmo pessoal, é público no âmbito da conquista dos direitos das mulheres. A HQ não se aprofunda em nenhum momento para explicar o movimento feminista, mas esse não é seu objetivo. A ideia é traçar um panorama geral de mais de um século de luta pelo direito de existir com dignidade e respeito, e mostrar o quanto avançamos até aqui - mas o quanto ainda temos a avançar. 

É linda, recomendadíssima e perfeita para dar de presente a meninas adolescentes e jovens adultas que não conhecem muito do feminismo e não têm interesse em ler teoria feminista (que é algo maravilhoso, mas difícil). 

0 Comentários