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Maternidade: ser mulher não precisa significar ser mãe

~arte retirada do facebook da editora~

Nunca havia lido nada da Sheila Heti. A existência da escritora canadense passava completamente despercebida para mim até o dia em que a Companhia das Letras anunciou em seu podcast que publicaria um livro dela sobre maternidade e mulheres que não querem ser mães. Apesar do tema não ser particularmente apelativo a mim, nunca havia lido um livro que tratasse da questão da não-mãe, então resolvi embarcar na leitura desse. Não me arrependi. 

Maternidade 
Sheila Heti 
312 páginas 
Companhia das Letras 
Ano de publicação: 2019 
Tradutora: Julia Debasse 

Sobre o que é: Ao se aproximar dos quarenta anos, numa fase em que todas as suas amigas se perguntam quando irão ter filhos, a narradora do romance intimista e urgente de Heti — no limiar entre a ficção e autorreflexão — questiona se aquela é uma experiência que ela quer ter. Numa narrativa que se estende ao longo de muitos anos, moldada a partir de conversas com seus pares e seu parceiro e de sua relação com os pais, ela se vê em um embate para fazer uma escolha sábia e coerente. Depois de buscar ajuda na filosofia, no próprio corpo, no misticismo e no acaso, ela descobre a resposta num lugar bem mais familiar do que imaginaria. 

Esse não é um livro fácil de ser lido. Sheila Heti faz uma espécie de auto-ficção, em que mergulha no assunto da maternidade ao se aproximar do fim de seu período fértil. A pressão de suas amigas, sua família, da vida e de si mesma por ter sido criada sabendo que o papel social imposto à mulher é o de mãe acabam lhe levando a uma série de questionamentos em que ela destrincha a própria consciência a fim de tentar encontrar a vontade de ter um filho. Ela não a encontra. Mas o que encontra é bem mais interessante: a tranquilidade de saber que ser mulher não precisa significar ser mãe

A estrutura do livro é uma mistura de auto-ficção com ensaios, tudo num fluxo de pensamento. Por isso nem sempre é fácil, pois ao nos aprofundarmos nos pensamentos da autora/personagem corremos o risco de ficar estafados com seu monólogo interno. Entrar na mente de alguém pode ser bem desgastante. Apesar de eu ter genuinamente gostado do livro e achado a forma dele interessante, pode ser que outras pessoas o considerem maçante justamente pelos motivos por que gostei.

“Viver de um jeito não é uma crítica a todos os outros jeitos de viver. Será que essa é a ameaça que a mulher sem filhos apresenta? Ainda assim, a mulher sem filhos não está dizendo que nenhuma mulher deveria ter filhos, ou que você - mulher empurrando o carrinho de bebê - fez a escolha errada. A decisão que ela toma para sua vida não é um discurso sobre a sua. A vida de uma pessoa não é um discurso político, ou geral, sobre como todas as vidas devem ser. Outras vidas deveriam correr paralelamente à nossa sem qualquer ameaça ou juízo.” 

O realmente interessante nesse livro não é a história, que é banal e poderia ter sido contada por qualquer mulher. O interessante são suas reflexões, a construção de seu pensamento na luta para descobrir quem ela é entre o que esperam que ela seja e quem ela tem sido até então. As metáforas que a autora constrói, tanto para si como para o leitor, também são dignas de nota, já que a luta para ela parece ser algo real, comparada à luta de Jacó com o anjo na busca de sua bênção, história bíblica do Antigo Testamento.

A personagem-narradora é uma escritora, com vários livros publicados, que, em meio a escrita de uma coisa e outra, decide escrever um livro sobre maternidade. Como amo uma metalinguagem, isso já me pegou em cheio. Mas o destaque realmente vai para todos os contornos abordados acerca da temática, como o fato de que ela ser descendente de judeus influencia diretamente em todas as suas reflexões, que são permeadas por lembranças de sua mãe e de sua avó, por conselhos recebidos e nas histórias de vidas opostas - a avó, que viveu para seus filhos, e a mãe, que viveu para seu trabalho. Contudo, é deixado bem claro que, apesar da escolha que as mulheres de sua família tiveram, as limitações ainda existiam e parecia não haver muitas dúvidas acerca de ser ou não ser mãe. Para a personagem-narradora, entretanto, há escolha. Ela se enxerga como parte da primeira geração de mulheres que realmente têm uma escolha e pontua de forma sensível e real o quanto essa possibilidade de escolha, por mais verdadeira que seja, ainda é limitada, já que é bem verdade que as mulheres atualmente podem ser mais do que mães ou simplesmente não ter filhos, porém ainda assim há a cobrança para que procriem - cobrança advinda da sociedade, da família e dos costumes que colocam a mulher no lugar materno.

“Sendo mulher, você não pode simplesmente dizer que não quer filhos. Você precisa ter algum grande plano ou ideia do que você vai fazer em vez disso. E é bom que seja algo incrível. E é bom que você consiga dizer de forma convincente qual vai ser o enredo da sua vida - antes mesmo que ele se desenrole.”

Amei a forma com que a autora dá vazão às angústias de muitas mulheres com seu diálogo interno sobre maternidade. Mas amei ainda mais as soluções procuradas pela personagem-narradora enquanto percorre sua jornada da não-maternidade. Ela procura entender a si mesma através do misticismo, perguntando para moedas coisas que poderiam ser respondidas com um sim ou um não. Ela recorre a uma cigana, ela tem a vida lida pelo tarô, ela se embrenha em diversas artes esotéricas para finalmente compreender que, existindo ou não algo além de si mesma que poderia guiá-la, o que importa é estar em paz consigo mesma.

Talvez não seja apreciado por todos, mas certamente é uma leitura de que se pode tirar muito proveito e que tem a capacidade de fazer o leitor refletir sobre a vida e sobre papéis de gênero, o que é uma discussão sempre importante.

Em um quote:
"Há algo de ameaçador em uma mulher que não está ocupada com os filhos. Uma mulher assim provoca certa inquietação. O que ela vai fazer então que tipo de problemas ela vai arrumar." 


Se interessou pelo livro? Encontre ele aqui.

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