na cabeceira

literatura & diarices

Aceite a flor


My method is uncertain
It's a mess, but it's working

(Please, please, please - Fiona Apple)

Ultimamente tem sido bem difícil existir, assim, num todo. 
Estou fazendo doze disciplinas na faculdade porque preciso me formar até o final do ano, já que sou bolsista e o querido governo decidiu acabar com a educação no país. Por mais que digam que não vão mexer no Prouni, a única certeza que resta de fato é que não dá para confiar na palavra deles e que é preciso conseguir o diploma o mais rápido possível, antes que cheguem à conclusão de que estão gastando demais com todos os prounistas deste país Brasil. Essas doze disciplinas me consomem três turnos: só tem um dia em que eu não tenho aula pela manhã, tenho também aula à tarde durante três dias da semana e faço aulas todas as noites. Ou seja, não é como se estivesse me sobrando tempo; a faculdade virou uma segunda casa e na minha casa de verdade eu só apareço para dormir. 

Tudo bem, a gente vai levando a vida como dá. 
O problema real é que eu tenho muita coisa pra fazer todos os dias, coisas obrigatórias que preciso fazer para conseguir me formar, mas também tenho as coisas que preciso fazer pra manter a minha sanidade mental - que já foi pras cucuias há muito tempo; eu tenho andado por aí gritando com as pessoas e batendo as mãozinhas nervosamente -, preciso fazer os freelas de revisão de livros e leitura crítica, preciso ler os artigos e livros da faculdade e ainda preciso controlar minhas ideias a respeito de contos e romances que estou escrevendo, pois decidi assumir meu lado escritora e parir de fato uma história a ser publicada no mundo. Mas tudo demanda tempo, e tempo é uma coisa que não tenho no momento, o que faz com que eu faça tudo pela metade: os trabalhos da faculdade, os trabalhos da vida real, o trato com a família, com o namorado, com as amizades (que devem ter até me bloqueado das redes após eu ter sumido geral e não ter respondido mais ninguém) e o trato comigo mesma. Me sinto uma fraude todos os dias, mas aparentemente tem gente que não acha isso de mim. 

Numa das aulas, estávamos debatendo alguns textos sobre criatividade e inovação. Durante o debate o professor pediu para a turma dar exemplos de pessoas e empresas que são criativas. Nisso, metade da turma apontou pra mim e falou que eu sou super criativa. Honestamente, foi um momento estranho, pois eu estava no celular atualizando o feed do twitter e pensando que não tinha nada de interessante a dizer sobre os textos porque eu sou uma grande fraude (em minha defesa, eu estava no auge da TPM). Então, ser chamada de exemplo de criatividade por meus colegas naquele momento foi algo bem peculiar e que me deixou particularmente confusa, pois não sei em que momento aconteceu a mudança do status batata para o status criativa. No entanto, após o professor perguntar por que eles achavam isso e o debate se estender para as coisas que eu produzo na internet e como escrever é um trabalho criativo e o jornalismo deveria ser encarado como um trabalho criativo também, parei para pensar que talvez eu não seja uma fraude tão grande assim ou, melhor, talvez todos sejamos fraudes. 

Eu nunca havia parado para pensar sobre a criatividade de fato. Lá pelo meio da adolescência simplesmente concluí que não sou uma pessoa criativa e segui em frente, sem maiores lamentações e restringindo as minhas atividades a coisas que não demandassem muito esforço criativo. Porém, eu sempre fui uma Pessoa Que Escreve; faz dez anos que tenho blogs pela internet e que tenho publicado meus pensamentos online; fora isso, desde criança mantenho um diário, narrando a minha própria vida para ninguém, e já passei incontáveis horas escrevendo poemas e contos que nunca foram lidos por outra pessoa além de mim. Me rotular como alguém não criativo restringiu muito meu modus operandi. 

Conversando sobre isso com a Manu, ela me disse uma coisa que me fez rir muito e ao mesmo tempo ficar pensando longamente a respeito. Citando Amanda Palmer, ela disse: "Escrever, amiga. Cê quer mais criatividade que isso, meu anjo? ACEITE A FLOR". No ano passado aproveitei a biblioteca da ex-firma para ler alguns livros que estavam na minha wishlist. Um deles foi A arte de pedir, da Amanda Palmer. Nele, ela conta como foi sua trajetória de menina introvertida e esquisita que mal tinha amigos e não sabia interagir direito com as pessoas até ser uma artista reconhecidamente famosa e cheia de gente que se inspira em suas músicas para continuar existindo. É uma trajetória bem bacana a dela, mas não consegui me conectar com o livro porque, ao contrário da Amanda, eu não curto muito calor humano. Essa coisa de ficar no meio das pessoas, conversando com muita gente e trocando carinho me dá um certo desespero. Porém, o que ela falou é real, como a Manu bem me lembrou: às vezes a gente tem que aceitar a flor. E nem sempre sabemos aceitá-la. É muito difícil aceitar que somos pessoas dignas de receber algo dos outros, quer esse algo seja um elogio, quer seja uma ajuda palpável. Aceitar a própria vulnerabilidade e não mais enxergá-la como um defeito horrível é difícil pra caramba. Porém, mais difícil do que superar o medo de parecer vulnerável é aceitar que você não está enganando todo mundo e sendo uma fraude só porque sente que não merece a flor que as pessoas lhe oferecem por não sentir que realmente sabe o que está fazendo; você merece aquela flor, porque mesmo que não seja a pessoa mais talentosa e criativa do mundo você fez a diferença na vida de alguém, e isso faz parte da belíssima troca de ser alguém criando coisas, trazendo algo novo ao mundo. 

Talvez o grande entrave da minha vida até agora tenha sido justamente essa batalha entre me restringir ao papel de pessoa não criativa apenas fazendo meu trabalho como deve ser feito ou assumir que eu tenho muitas ideias, mas não sei nem como colocá-las no mundo direito, nem como aceitar a flor que as pessoas me dão por elas. Porém, o problema de se assumir como uma pessoa criativa - ou, ao menos, com mais criatividade do que o estabelecido até então - é que se pode falhar. E muito. Falhar feio, em todos os sentidos. Passar de pessoa criativa para pessoa que acumula fracassos é fácil demais, e eu nunca gostei de falhar. 

Mas esse é um grande problema da vida. Somos criados para sermos infalíveis, estimulados a produzir cada vez mais numa cultura que não reconhece o erro como um processo não apenas natural como necessário para o aprendizado e aprimoramento de qualquer coisa. É muito fácil culpar o capitalismo por isso, que nos instiga a ser cada vez mais competitivos e acumular vitórias e títulos desde muito cedo, e eu sou a primeira a apontar o capitalismo como o grande vilão em qualquer discussão, mas não nessa, porque se formos parar para realmente analisar o histórico da humanidade sobre como lidamos com o fracasso veremos que bem antes de pessoas ambiciosas e meio burras estruturarem a base do pensamento capitalista a gente já não lidava bem com a ideia de fracassar. Assumir erros e admitir que ninguém vive só de momentos maravilhosos nunca esteve entre as características-chave da humanidade. 

Que o jornalismo está afundando não há novidade. Como agora somos todos consumidores e produtores de informação, o papel do jornalista ficou confuso e acabou se perdendo eu uma tempestade de fake news e correntes enviadas pelo whatsapp na qual as pessoas acreditam porque como não acreditar no que o fulano que eu conheço a vida inteira disse ao invés de acreditar nesse jornalistazinha metido que vive numa bolha e nem faz ideia do que é a vida real do brasileiro? Mas, para além do óbvio, o jornalismo está afundando por não saber se adaptar à época em que vivemos e não conseguir sair da estrutura enrijecida de noticiabilidade e rotinas de trabalho que cunhou para si mesmo e não apenas usar a internet como um repositório para conteúdo jornalístico, mas de fato pensar em formas de se conectar com as pessoas e levar informação de qualidade e explicativa para o público. Um dos motivos disso é que o jornalista não se enxerga como uma pessoa criativa. A profissão, toda voltada para o lead, para um jornalismo mínimo e diário, não consegue se ver para além de uma redação - redação essa que nem existe mais, por sinal - e ainda está tentando forçar uma volta ao hábito das pessoas de sentarem pela manhã cedo, abrirem o jornal e lerem as notícias de cabo a rabo enquanto comem um pão com chimia. Isso não cabe mais e está mais do que na hora de deixarmos essa caixa limitadora de lado e nos enxergarmos como parte da indústria informativa, que precisa ser criativa para se reinventar e se adaptar a um público em constante movimento. 

~tão EXAUSTIVO fazer jornalismo em 2019~

No entanto, ainda assim eu, que me formo em jornalismo no final do ano, ainda não consigo ouvir pessoas me chamando de criativa, mesmo que eu trabalhe com escrita e design gráfico e esteja constantemente pensando em novas formas de fazer coisas já batidas. É um grande muro, e talvez Amanda Palmer pudesse aparecer aqui para dizer que tudo não passa de Síndrome do Impostor (coisa na qual acredito muito, por sinal), porém ainda é real. E se isso restringe a mim, que tenho reservado uma boa parte dos meus dias para pensar no assunto, como não vai restringir a quem nem pensa duas vezes antes de se fechar na caixinha de pessoa não criativa? São questões. Falo aqui do jornalismo pois é o que estudo e no que trabalho, mas poderia falar sobre basicamente qualquer outra coisa que daria no mesmo: a gente aceita o gesso e passa a se definir por ele. 

Cada vez mais o governo esquarteja a educação e sei que é difícil pensar em se levar a sério como artista ou pessoa criativa num país (mundo? época?) que parece apenas valorizar aquilo que é fixo, tradicional, conservador. Contudo, precisamos parar de nos enxergar dessa maneira apenas porque nos disseram que assim é melhor e que criatividade é coisa de quem não tem o que fazer. É verdade que nem todos produziremos grandes obras, escreveremos livros ou gravaremos álbuns, mas isso não nos impede de exercitar a criatividade no dia-a-dia e de criar coisas que nos façam felizes ou que nos ajudem a conseguir algo, atingir um objetivo, seja ele qual for. 

"There’s no 'correct path' to becoming a real artist. You might think you’ll gain legitimacy by going to art school, getting published, getting signed to a record label. But it’s all bullshit, and it’s all in your head. You’re an artist when you say you are. And you’re a good artist when you make somebody else experience or feel something deep or unexpected."
(Amanda Palmer, A arte de pedir)
Assumir a criatividade num mundo cada vez mais retrógrado e conservador é uma forma de rebeldia, mas mais do que isso, é um manifesto a favor da fraude, ou ao menos da destruição do conceito de fraude, já que todos somos fraudes e não sabemos o que estamos fazendo - e se sabemos com toda a certeza é porque algo está errado ou você tem obedecido demais aos outros. É uma maneira de exercer a individualidade em uma época onde nos querem abelhas-operárias, seguindo ordens sem contestações durante o dia inteiro e chegando tarde demais em casa com tempo apenas para comer um miojo e ver um episódio de alguma coisa. 

Apesar de Susan Sontag ter passado boa parte da vida escrevendo críticas e ensaios e ter ficado famosa não por suas obras de ficção, mas por seu afinco em ir a fundo em diversos assuntos, ninguém ousaria dizer que ela não era criativa. Em um perfil publicado pela The New Yorker, é dito que "When, as a young graduate student, she was trying to figure out what she would do for a living, she decided to become a writer because, as she later told Edward Hirsch for the Paris Review, 'What I really wanted was every kind of life, and the writer’s life seemed the most inclusive.'". Eu sou uma Pessoa Que Escreve. Entrei para o jornalismo porque, assim como a dona Susan, eu queria viver todas as vidas possíveis, sem me contentar apenas com a minha, e escrever sempre me pareceu a melhor maneira para fazer isso. Nem todo mundo é uma Pessoa Que Escreve, mas eu sou, essa é a minha forma de expressão e, talvez, de criatividade. Estou longe de ser uma Susan Sontag da vida (but a girl can dream), contudo se ninguém tem coragem de dizer que uma mulher dessas não era criativa mesmo sendo mais crítica e ensaísta do que ficcionista é porque ela se portava dessa forma e aceitava a flor. ACEITE A FLOR.  

Amanda Palmer lyrics - “My Alcoholic Friends” (daqui)

O que, obviamente, me lembra de Crazy Ex-Girlfriend. Toda a jornada de Rebecca Bunch, tudo por que ela passou durante as quatro temporadas da série a levaram finalmente a aceitar a flor. Ao contrário do que sua mãe queria, Rebecca sempre foi uma pessoa criativa e reprimir essa parte de si mesma para atuar em uma profissão que lhe trazia muito sucesso financeiro, mas que lhe tolhia a criatividade estava acabando com ela (entre outras coisas; vejam a série, é maravilhosa, sensível e faz muito sentido). Quando ela finalmente aceita que nunca será como as outras pessoas e precisa expressar sua criatividade, finalmente pára de se odiar e aceita ajuda, aceita expor sua vulnerabilidade e aceita a flor. 

Acompanhar Rebecca durante todos esses anos me fez perceber muitas coisas a respeito de mim mesma, e uma delas é que nunca serei alguém que se contentará com fazer um trabalho normal e parar nele. Se não der vasão a meu impulso criativo, serei eternamente frustrada e terei uma energia acumulada imensa que provavelmente vai acarretar confusão e dor para mim e para quem está ao meu redor. Porém, a vida real não é uma série televisiva e não dá para largar tudo, fazer aulas de música e ser artista em tempo integral. É preciso estudar, trabalhar e ganhar a vida. Mas isso não precisa ser tudo. Não pode ser tudo. Se for, seremos infelizes e incompletos. O impulso criativo pode estar onde for, na escrita, na música, no artesanato, na culinária, em cuidar de pessoas... Não importa o onde, o importante é não se permitir limitar pelo que nos impõem. 

Quando estava na minha ex-firma e passava metade do dia fazendo clipagem e cuidando de uma newsletter quase completamente automatizada, sentia que minha energia estava sendo sugada por um dementador. É bem verdade que hoje estou muito mais atarefada do que estava antes, mas a possibilidade de usar meu tempo não apenas para estudar e trabalhar, mas também para desenvolver projetos de que eu gosto, coisas pessoais minhas, me faz mais feliz e me traz um senso de propósito como nunca senti antes. Não que eu saiba o que estou fazendo, honestamente eu não sei no que tudo isso vai dar, mas estou fazendo algo meu, e isso já é uma grande coisa. 

Você pode fazer o que você quiser, basta apenas aceitar a flor. Seja gentil consigo mesma. 



*este texto foi originalmente postado na minha newsletter, ser uma garota é difícil, mas incrível. porém, decidi trazê-lo para cá também pois o blog é o grande repositório da minha escrita, a newsletter é recente e nem todo mundo a conhece e acho que esse texto merece um espaço aqui por ser muito especial para mim.

2 Comentários

  1. Um dos meus maiores pânicos de voltar a trabalhar em escritório é essa sensação de rotina automatizada que te faz agir igual a um robô. Não te desafia, não te faz crescer e pensar, sabe? Pavor. Mas tem quem não ligue e até prefira. O importante é entender a si e fazer escolhas pertinentes. <3

    ResponderExcluir
  2. Muito obrigada, eu estava precisando ler isto.

    ResponderExcluir

Postar um comentário