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This is my year of rest and relaxation


Eu não consigo suportar almoços em família. 
Parece que, ultimamente, as pessoas só sabem se reunir para falar de morte, doenças e governo. De política não aguento mais ouvir, sequer falar. Não foi por falta de aviso e estou honestamente exausta de debates que não levam a lugar algum. Já doenças e morte sempre foram tópicos que me fascinaram, mas ultimamente, encarando a minha própria mortalidade e tendo me dado conta de que a distância que mantinha desses assuntos, vistos apenas como algo que acontece com os outros, foi posta por terra quando percebi que eu também um dia deixarei de existir. 

É muito estranha a ideia de não existir. Muitas pessoas com quem converso sobre o assunto me dizem que veem na morte um sentimento de paz, de descanso eterno. Eu não acredito em descanso, que o fará eterno, e minha visão a respeito da morte é bem diferente daquela que têm as pessoas à minha volta. Acho que estamos todos presos em uma roda de aprendizagem eterna, e que há alguém muito sábio ou muito sádico por trás disso, mas não me dei ao trabalho de teorizar a respeito ou tentar achar uma respostas definitiva. Se vou morrer um dia, quero aproveitar minha vida fazendo coisas das quais me orgulho e, como disse nossa melhor amiga famosa, sendo definida pelas coisas que amo, não pelas coisas que odeio. 

Porém, por mais que eu saiba que a morte não é esse bicho-papão todo - apesar de assustar pra caramba pelo vazio que deixa -, não consigo mais ouvir alguém falar sobre ela sem que minha ansiedade ataque e eu comece a hiperventilar. Tem sido muito difícil viver na minha mente por causa disso. E talvez se torne mais difícil agora, que finalmente entendi o grande porquê dessa reação exagerada. 

Conversando com minha amiga Ana Luíza sobre Sylvia Plath e seu filho único, A redoma de vidro, me dei conta de que se evito o assunto morte e fico ansiosa ao ouvir falar sobre ele é porque, de certa, forma, eu o desejo. Não foram poucas as vezes neste ano em que tive de literalmente me segurar firme para não ir a um extremo tentar morrer. Eu não quero morrer, mas parte de mim quer. E isso é algo que eu não sentia há anos.


2019 tem sido um ano difícil para todos. Para onde quer que eu olhe, vejo pessoas estressadas, nervosas, deprimidas e desesperadas, cada uma à sua medida. Não há como passar por 2019 incólume, isso é uma certeza. Este ano e toda sua carga de acontecimentos políticos e sociais está me fazendo, sim, querer morrer. Não há muitas perspectivas de escapatória, há tanto a fazer e tão pouco que pode, de fato, ser feito, que não dá vontade de fazer coisa alguma, além de deitar num canto e esquecer que eu existo. 

É ridículo e até meio adolescente falar isso, porém é verdade. E talvez esta seja a primeira vez que estou sendo completamente sincera comigo mesma em anos, sem performar uma personalidade eternamente ocupada com trabalhos e projetos para não pensar no querer morrer, para não pensar na facilidade que reside em deixar de existir. 

Eu escrevo, escrevo, escrevo para tentar existir num mundo que me rejeita, num mundo hostil que odeia a todos que são fora do padrão. Escrevo porque encontrei na arte e na expressão artística uma forma de existir e resistir, mas até que ponto vale a pena ser resistência quando a perspectiva de futuro é sombria? 

Eu, que nunca gostei de jogos, me pego passando horas jogando coisas idiotas em que coloco roupas em bonecas virtuais e preparo pratos para um restaurante que não existe. Mergulho em livros e mais livros. Reassisto a séries de vampiro e filmes de vampiro sempre que tenho tempo livre. Já estou na quarta temporada de The vampire diaries. THE VAMPIRE DIARIES, aquela série que achei tão insuportável lá por 2011 que larguei de mão e disse que nunca mais tornaria a assistir. (Inclusive, sou #TeamDamon.) Ouço Lover em looping. Comecei até a ouvir Lana Del Rey, sendo que eu nunca gostei de Lana Del Rey. Estou me atirando na ficção e nas produções artísticas para não sucumbir a mim mesma, para não ter tempo de pensar que eu não precisaria estar passando por todo este inferno se não existisse. 

E isso é uma droga. 

Mas não me sinto necessariamente suicida em potencial. Não é que eu queira tirar a minha vida. Simplesmente não estou conseguindo lidar com o agora e com a perspectiva de um amanhã nebuloso. Recentemente li Meu ano de descanso e relaxamento, da Otessa Moshfegh. O livro fala basicamente sobre uma jovem adulta de vinte e poucos anos que resolve tirar um ano sabático para dormir e, através do sono, se permitir curar seus problemas emocionais e escapar da realidade. Em determinado momento, ela diz que “Não que eu estivesse me suicidando. Na verdade era o oposto de um suicídio. Minha hibernação era uma medida de autopreservação. Eu achava que aquilo salvaria minha vida”. E é bem isso. 

Desde que vi esse livro fui atraída para ele, pois, apesar de não ter nada em comum com a protagonista - que é rica, loira, magra, o cúmulo do privilégio -, a minha grande vontade para esta temporada é dormir até toda essa situação absurda passar. Como não posso fazer isso, tenho jogado jogos idiotas e visto séries de vampiro e escrito sobre cultura pop, tudo enquanto tento focar minha atenção no TCC e nos projetos da faculdade. Me encher de trabalhos, projetos e cultura é, sim, uma forma de me alienar - e também uma medida de autopreservação. Sem culpa alguma. 

As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, não é um dos meus livros preferidos, mas tem um dos trechos que mais amo e que mais fazem sentido para mim: 
“O inferno dos vivos não é algo que será, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.” 
A primeira maneira de não sofrer, de acordo com o autor, é se misturar ao inferno. A segunda é se alienando. A forma escolhida para a alienação difere. Pode ser através de música, literatura, cinema, jogos, redes sociais ou mesmo o sono, mas o objetivo é o mesmo: escapar do inferno, seja ele psicológico ou político. Sem uma dose de alienação é quase impossível sobreviver. 

Vejo muita gente criticando quem escolhe se alienar nestes tempos terríveis e mergulhar na arte para não acabar se matando. Para mim, ou essas pessoas não têm a mínima noção do que é ter algum problema psicológico, ou são privilegiadas a ponto de poderem estar ativamente envolvidas no que está acontecendo sem querer morrer diariamente. De qualquer forma, a empatia passou longe do discurso dessa gente. Me preocupo demais com o quanto temos virado vigias do comportamento alheio, pautando o que deve ou não ser feito e qual postura é a correta para se manter diante dos acontecimentos desastrosos que temos presenciado e que aniquilam nossa saúde mental. Honestamente, acho que sobreviver a tudo isso já é um ato de resistência. Mas há dias em que não sei se quero resistir.


Este texto foi originalmente publicado na minha newsletter, Ser uma garota é difícil, mas incrível, na semana passada, mas achei digno deixá-lo aqui também após tudo o que aconteceu durante o fim-de-semana, com a censura a livros LGBT e mais uma vez o debate do inferno sobre quando teremos paz para viver neste país sem estar com a cabeça desgraçada.

A gente segue tentando, mas tá difícil.
Vejam Fleabag, ouçam Lover, bebam água. 

1 Comentários

  1. "A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.” Eu havia interpretado esse trecho mais como uma forma de resistência do que de alienação, mas reconheço que a proposta pode se enquadrar tanto em uma quanto em outra. Em minha concepção, reconhecer o que não é inferno no meio do inferno é fazer leitura de mundo e entender como não se alienar (tanto) ao sistema.

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