na cabeceira

literatura & diarices

Sessão da meia-noite com Rayne e Delilah: filmes de terror, programas toscos e amizade feminina

Eu disse que entrei em hiatus e aí vim aqui fazer o quê? Isso mesmo, escrever sobre um livro às 02h58 da manhã em uma quarta-feira. Mas, honestamente, após quase uma década de blog as pessoas que me leem já deveriam saber que eu não consigo ficar muito tempo longe daqui. Este é o meu relacionamento mais longo e confiável, afinal de contas. E, apesar do tcc e da correria com a faculdade, às vezes sobra um tempinho pra falar sobre livros. 



Terminei há cerca de meia hora a leitura de Sessão da meia-noite com Rayne e Delilah, do Jeff Zentner. Ultimamente, não tenho lido sinopses de nada - filmes, livros, séries, só me atiro nas coisas pra ter a experiência mais completa possível e descobrir a história aos poucos. Por isso, foi uma surpresa descobrir que o livro conta a história de duas gurias - Rayne e Delilah, que na verdade se chamam Josie e Delia - que apresentam um programa de terror na televisão local às sextas à noite. Passei reto pela sinopse, mas só ela bastaria pra me fazer querer ler esse livro na hora, pois une: 
  • amizade feminina 
  • filmes de terror 
  • programas toscos 

Tenho um grande amor por programas toscos e por coisas meio toscas no geral - motivo pelo qual, apesar de já ter meus vinte e poucos anos, estar me formando em jornalismo e escrever pra trocentos lugares sérios sobre literatura, continuo mantendo este blog num formato mais descontraído e despretensioso, como o meu espaço pessoal onde posso ser boba se quiser sem ter medo de passar vergonha. Gosto de pessoas que se levam a sério, mas nem tanto, e conseguem preservar espaços de tosquice e divertimento em suas vidas caóticas e adultas. Josie e Delia não são adultas ainda, mas estão naquela transição estranha que acontece lá pelos dezoito anos, quando a gente sai da escola e começa a ter que fazer escolhas apavorantes sobre nosso futuro - escolhas que de fato importam. Enquanto vivem o ensino médio, elas tocam um programa de terror chamado Sessão da meia-noite com Rayne e Delilah, que consiste basicamente nas duas, vestidas como vampiras, passando filmes antigos de terror do lado-c do cinema trash que, de tão toscos, são mais engraçados do que assustadores. Em meio ao terrir, elas fazem comentários, brincadeiras e quadros divertidos que envolvem uma marionete de Frankenstein (sim, todos sabemos que é o monstro do Frankenstein, mas sigamos) e alguns convidados aleatórios que não têm medo de passar vergonha em frente às câmeras. 

Quando a ShiverCon se aproxima - um evento para pessoas do terror -, as duas metem o pé na estrada e embarcam numa viagem de 12h até a Flórida na esperança de tentar fazer o programa crescer. Mas esse não é um livro sobre a viagem ou sobre o programa. Apesar de ter muitas coisas acontecendo nele - e de elas serem genuinamente interessantes; eu vou ser obrigada a fazer uma lista de filmes toscos de terror, vocês não estão entendendo -, não é o tipo de história sobre coisas que acontecem, mas sim sobre por que elas acontecem e como nos sentimos quando elas acontecem. 

Delia tem problemas. Todos temos problemas, mas ela tem uma autoestima praticamente nula. Enquanto Josie é toda autoconfiante e sabe o que quer da vida, Delia se sente completamente perdida, péssima e incapaz de ser amada. Essa desvalorização toda acontece porque, quando criança, ela foi abandonada pelo pai. Criada sozinha pela mãe desde então, Delia aprendeu que não importa o quanto as pessoas digam que te amam, um dia elas vão embora. A vontade que dá lendo o livro é de pegar a Delia nos braços e protegê-la de tudo, especialmente porque a Josie, apesar de ser super querida e uma boa amiga, tem literalmente tudo de que precisa pra ser feliz - uma família estável, ryqueza, aprovação em duas faculdades e um namorado que faria tudo por ela. Confesso que me irritei um pouco com o autor por dar um destino tão nhé pra Delia enquanto a Josie ganha todas. 

Claro que essa é uma reação puramente emocional e não tem nada a ver com a narrativa do autor - que é boa, fluída, está bem amarradinha, faz sentido e fica ainda melhor porque há alternância de narrador, possibilitando para o leitor a experiência de ver as coisas tanto pela perspectiva da Delia quanto da Josie. Porém, foi impossível para mim não me sentir um pouco refletida na Delia, já que ela ama filmes de terror, coisas meio toscas, não tem medo de passar vergonha, adora vampiros, tem projetos pessoais que vai tocando como se sua vida dependesse disso (eu mesma tenho um programa de terror meio tosco, mas muito divertido, que me consome horas e noites acordada catando entrevistados - inclusive, entrevistei um médico legista e o tradutor de Drácula pra o episódio mais recente! foi muito legal!) e uma autoestima praticamente nula. Houve alguns trechos narrados por ela que me fizeram respirar fundo e pensar sobre a vida. Imagino que mais gente sentirá isso também lendo esse livro. 

É um daqueles livros que ainda quero reler com mais cuidado, com mais atenção, assim que terminar o tcc e os quatro projetos que são como um dementador sugando a minha alma (mas adoro). Recomendado para todos que amam terror, coisas toscas, amizades femininas e estão em um momento de transição - ou apenas querem ler uma história sincera sobre adolescentes encarando a vida adulta. 

"[...] seria muito fácil pensar que dá para se proteger de se magoar simplesmente não amando ninguém. Meio como dá pra evitar ser atropelado por um ônibus se você nunca sair de casa. Mas isso não é jeito de viver. É melhor amar as pessoas e se magoar."

Sessão da meia-noite com Rayne e Delilah 
Jeff Zentner 
Tradução: Guilherme Miranda 
408 páginas 
Seguinte 
Ano de publicação: 2019 


0 Comentários