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Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha


Por algum motivo, posterguei a leitura desse livro. Claramente, essa não foi a decisão mais sensata que já tomei na minha vida de leitora, pois esse é um livro diferente no melhor sentido da palavra. Liudmila Petruchévskaia é uma autora diferente. Meu primeiro livro dela até agora, Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha é mistura de contos de fadas com anedotas de terror folclórico. Gostei de tudo que li de literatura russa até hoje, mas nunca havia lido um livro de contos daquele país, apenas romances. Mas ler os contos macabros dessa autora reavivou meu interesse por literatura russa - e por contos, já que tenho alguns livros de contos na estante que estão só esperando o momento para serem lidos. 


Liudmila Petruchévskaia pertence ao grupo de escritores que não encontram equivalente em nenhum outro autor, tradição ou país. Considerada por alguns herdeira de Allan Poe e Gogol, a maior autora russa viva combina o contexto soviético em que produziu grande parte de sua obra com uma realidade povoada por assombrações, pesadelos, acontecimentos macabros e personagens sinistras.

O resultado são histórias sobrenaturais que retomam a tradição dos contos folclóricos, porém dotadas de um humor contemporâneo e de uma carga política que não precisa se expressar diretamente para existir, pois, assim como não é à toa que a autora teve sua obra banida da União Soviética até o final dos anos 1990, tampouco é por acaso que ela recebeu em 2002 o prêmio de maior prestígio na Rússia pelo conjunto de sua obra.


A voz narrativa de Liudmila é esquisita. Tudo o que ela escreveu nos 21 contos que compõem o livro é esquisito. Não digo isso para afastar alguém de uma possível leitura, pelo contrário: é na esquisitice que reside a força das histórias da autora. Na Flip 2018, Liudmila esteve no Brasil e, em meio a muitas declarações, disse: "Você tem que ouvir as pessoas - elas vão lhe contar histórias tão assustadoras que é impossível você as inventar". Esse é o cerne de sua escrita: histórias que ela ouviu de pessoas e, a partir da mente literária, transformou em contos. 

Liudmila Petruchévskaia na Flip 2018

Os contos em Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha estão divididos em quatro partes: Canções dos eslavos do leste (em geral, contos que falam sobre a guerra, o mundo dos soldados e flertam com o realismo fantástico); Alegorias (histórias sobre limites e o horror que pode situar-se neles); Réquiens (contos de fantasmas, assombrações e descobertas - são os mais tradicionalmente de terror do livro) e Contos de fadas (nessa parte, o caráter folclórico da escrita de Liudmila fica mais evidente, mesclando as histórias que ouviu de pessoas comuns com características típicas do folclore russo).

Com seus oitenta e poucos anos e vestes excêntricas, a autora é uma excelente contadora de histórias. Percebe-se claramente que, se ela consegue nos passar uma gama de emoções em seus contos, é porque é, em primeiro lugar, uma boa ouvinte. Com apenas uma palavra, ela muda o sentido de uma frase e flerta com o conceito freudiano de uncanny - o familiar, agradável que, por um detalhe ou mais, torna-se repulsivo e estranho. É assim que nos sentimos ao ler os contos publicados nesse livro. Quando a autora refere-se ao medo de não se estar sozinha em casa, ao medo causado pelo vazio vivo, é possível sentir o que ela quer dizer pois esse, apesar de estar em um contexto da Rússia moderna, é um sentimento universal. E dar nomes a tais sentimentos de horror e estranhamento é o que ela faz em seus contos. Neles, as fronteiras entre o normal e o assustador não existem e nos deparamos com histórias de pessoas comuns que enfrentam situações aceitáveis em suas realidades, ainda que sejam estranhas e causem questionamentos ao leitor. 

"Existe um lado da vida secreto, animal, que floresce teimosamente, e é nele que se concentram as coisas detestáveis e hediondas." 


Esse livro foi recebido em parceria com a editora

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