na cabeceira

literatura & diarices

Pensando pensamentos com Patti Smith



Eu nunca tinha lido nada da Patti Smith. Parece absurdo falar isso, especialmente porque toda a minha bolha da internet ama essa mulher, mas é isto: eu nunca havia lido nada dela. Tenho, entretanto, todos os livros dela lá em casa, na minha estante, me encarando. Porém, acredito firmemente que cada livro possui uma hora certa para ser lido e não forço leituras apenas pelo hype. Contudo, quando ela veio para cá, no mês passado, e lançou seu mais recente livro, O Ano do Macaco, que eu a recém havia recebido da Companhia das Letras, achei que seria uma boa hora para lê-la. Não estava enganada. 


Em O ano do Macaco acompanhamos uma Patti Smith prestes a completar setenta anos e precisando lidar com a perda de dois amigos queridos – seu mentor, o músico Sandy Pearlman, e seu referencial artístico da vida toda, o escritor e dramaturgo Sam Shepard. O ano é 2016. Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos e Patti, na estrada, atravessa o país fazendo shows, deixando-se levar por sonhos e delírios, adentrando a bruma de uma espécie de mundo das maravilhas muito particular, onde a lógica do tempo não existe e os mortos podem falar. Nessas memórias, a autora do aclamado Só garotos nos leva por uma delicada e surreal jornada ao coração de um dos períodos mais turbulentos de sua trajetória.

O livro é envolto em névoa. Tudo começa na virada de 2016 quando Patti, atordoada da festa, recebe a notícia de que seu amigo e companheiro de estrada, Sandy, está internado em um hospital, em coma. A partir daí, Patti divaga sobre a vida, a morte e o que significa envelhecer. Nada faz muito sentido, mas a verdade é que não precisa fazer. Os textos de Patti são para ser sentidos, não compreendidos de fato. Entretanto, pude pensar pensamentos com ela, enquanto lia suas palavras nebulosas.

Com Sandy no hospital, Patti se hospeda no Dream Motel, o que pode ou não ser verdade, mas é dessa maneira que ela se lembra. A placa do local parece persegui-la em sonhos, e logo não sabemos mais distinguir o sono da realidade. Ela também não sabe, e esse não-saber a leva a um não-lugar: transitando entre mortos e vivos, à espera do despertar de seu amigo, ela se refugia dentro de sua mente. Lá, passa a ficar obcecada com a história de algumas crianças que sumiram. Ninguém pediu resgate por elas e, estranhamente, algumas surgiram dias depois, intactas. Mas o mistério das crianças perdidas assombra Patti por algum tempo, mesmo que ela fuja de si mesma - e da história. Ao encontrar um homem aleatório e meio místico, lá está o assunto. Ao pegar carona com uma mulher desconhecida, as crianças surgem de novo.

Me percebi pensando que talvez a obsessão pelas crianças perdidas, sempre narrada como uma jornada onírica ou de conto-de-fadas, fosse uma metáfora para as perdas da própria Patti. Talvez não houvesse criança alguma ou talvez elas até existissem, mas o assunto apenas tornou-se obsessão. Parece mais fácil suportar um período de pré-luto quando nos refugiamos em assuntos de terceiros que, por mais dolorosos e difíceis que sejam, não estão acontecendo conosco. Entretanto, nossa atenção só é fixada naquilo que conversa com nossas dores, traumas e cicatrizes. Se aquilo lhe chamou a atenção é porque existe algo interno que ressoou nela ao ouvir sobre aquelas crianças misteriosamente e subitamente perdidas.

O Ano do Macaco é lento e fala sobre velhice, perda e morte. Tudo de forma bonita e poética mas, ainda assim, é possível sentir uma bela tristeza ao ler Patti e pensar que a geração da qual ela foi uma das vozes mais altas está desaparecendo, virando memória.  Ela terminou de escrevê-lo aos setenta anos. Setenta. Alguns de seus amores se foram mais cedo, pessoas que admirava desapareceram muito antes disso. Ela também irá, e a consciência dessa partida é o fio narrativo que nos conduz durante o livro todo. Assim como as crianças perdidas, Patti também desaparecerá, mas suas palavras continuarão conosco, ainda que não entendamos o que é realidade e o que é sonho.

E pensei, quando ele esticou a mão para tirar o cabelo dos meus olhos, o problema dos sonhos é que no fim a gente acorda.



Esse livro foi recebido em parceria com a editora

1 Comentários

  1. Oi Mia,
    Menina que livro complexo kkkkk eu nem conhecia a autora a minha bolha de internet não é tão intensa quanto a sua pelo jeito haha, não sei bem se essa seria uma leitura que se encaixaria bem para mim, como disse a achei complexa, mas fico feliz que tenha gostado e que a cima de tudo tenha finalmente iniciado a ler as obras da autora que pelo que entendi você admira mas ainda não tinha lido.

    Beijos!
    Eita Já Li

    ResponderExcluir

Postar um comentário