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Fetch the Bolt Cutters, um álbum sobre raiva e libertação

Fiona Apple é uma artista completa. Dizer isso resume muitas coisas e pode, até mesmo, parecer um certo exagero mas, neste caso, é a pura realidade. Após oito anos sem lançar nenhum álbum, a cantora resolveu colocar no mundo Fetch the Bolt Cutters, um filho musical nascido das experiências vivenciadas e sentimentos com os quais lidou durante quase uma década. Além de cantora e compositora, ela literalmente fez quase tudo no álbum, participando ativamente desde os arranjos até a gravação. Foram anos de trabalho que certamente compensaram: o disco é uma bela mistura de tudo o que faz Fiona ser única e tudo o que queríamos ouvir. 


Estamos vivendo um evento de forma global e não são poucas as pessoas que se auto-isolam como forma de salvar suas vidas. Fiona Apple é uma delas. Mas seu isolamento não vem de agora. Ela vive em seu próprio ritmo, dentro de uma bolha de isolamento há alguns anos. Fiona nunca foi uma dessas artistas que se mostram o tempo todo. Ela mostra quem é, mostra sua alma, seus sentimentos, seus pensamentos mais aleatórios e profundos, mas não seu rosto. Mal sai de casa, apenas passeando com seus cachorros e logo voltando a seu lar, onde possui um estúdio de gravação improvisado e compõe suas músicas. 

Um dos principais assuntos em minhas rodas de conversa virtuais é que, neste mundo pós-Coronavírus, talvez finalmente aprendamos a ouvir o nosso próprio tempo. Parece que, de certa forma, o tempo nos foi tirado — seja o tempo de vida ou o tempo tão corrido, aquele que mal enxergávamos tamanho o burburinho de nossas atividades cotidianas. O tempo agora é maciço, é um bloco concreto com o qual nos deparamos e do qual não há escapatória. Seja como for, teremos de enfrentá-lo e não fazemos ideia de qual será sua extensão. Dada essa nova situação, muitos de nós têm se visto ansiosos e com dificuldade em desacelerar. As demandas continuam e temos de manter o ritmo, mas como manter o ritmo quando a vida nos pede para parar? Essas pausas são importantes não somente porque, com elas, não vamos ir até um show, uma festa, não veremos nossos amigos e parceiros, mas porque estamos salvando vidas — as nossas e as dos outros. 

A ideia de salvar uma vida ficando em casa não é desconhecida. Praticar o auto-isolamento para, de certa forma, salvar a minha vida: ficar em casa, longe de pessoas e de situações-gatilho, pode nos fazer viver pelo menos por mais um dia. Como diz a narradora de Meu Ano de Descanso e Relaxamento: “Minha hibernação era uma medida de autopreservação. Eu achava que aquilo salvaria minha vida”. Poucos de nós podem estar em casa agora, ainda que isso seja necessário, e para menos pessoas ainda este é um ano de descanso e relaxamento. Na verdade, ele está sendo bem o oposto. Mas, seja lá como for, estamos coletivamente tendo de lidar com uma realidade que nos assusta e tudo o que podemos fazer é ficar em casa. Algumas pessoas vivem realidades assustadoras não somente num mundo em pandemia, mas em suas próprias mentes, em seus trabalhos, em suas funções. Para elas, tudo é muito. E ficar em casa pode ser uma verdadeira salvação. Fiona é uma dessas pessoas; ela tem se salvado pelo isolamento há muitos anos. O resultado disso é uma artista que respeita seu tempo, conhece a si mesma e suas fronteiras, sabendo até onde pode ir e os limites que não deve cruzar em sua vida pessoal para não cair em um caminho destrutivo. É difícil falar sobre Fiona Apple sem mencionar o auto-isolamento que ela pratica há anos, ou mesmo sem pensar que ela decidiu mostrar o resultado de cinco anos isolada agora, quando o mundo todo parou. Talvez agora estejamos mais acessíveis para ouvir o que ela tem a dizer sobre tempo pessoal e limites emocionais. 

Ela nunca foi uma cantora tradicional, tampouco fácil de ser ouvida. Embora sua voz grave seja melodiosa e suas músicas tenham elementos de jazz suficientes para embalar qualquer noite romântica, Fiona decidiu seguir por outro caminho e apostou em cantar sobre o que sente e sobre a forma como vivencia o mundo, mas sem enveredar para o pop chiclete ou para algo mais formatado comercialmente. Sua carreira não tem sido fácil. Desde 1996, foram mais de duas décadas como cantora profissional mas, quando paramos para avaliar os períodos de atividade real dela nos palcos, percebemos uma lacuna considerável que soma mais de dez anos entre idas e vindas. Mas Fiona é assim, uma pessoa complicada e movida por seus sentimentos e seu interior. E não somos todos? Talvez, mas ela é um pouco mais, ela é o que se pode chamar de Artista — com “a” maiúsculo. Suas músicas, muitas vezes classificadas como pop barroco, nos fazem sentir coisas que nem sabíamos que estavam lá ou, por vezes, dão voz a sentimentos e ansiedades que não conseguimos nomear. Ouvir Fiona Apple é sentir-se em casa. 


Ao ler suas raras entrevistas e prestar atenção nas letras de suas músicas, é possível perceber que essa é justamente uma das sensações que ela quer transmitir. Embora muitas músicas de Fetch The Bolt Cutters sejam até mesmo desconfortáveis por seu teor cru de violência sexual e psicológica, ouvir uma mulher de quarenta e dois anos cantando abertamente sobre estupro e sobrevivência é um abraço emocional e raivoso em mulheres que passaram por situações semelhantes. Enquanto muitas cantoras decidem mascarar seus traumas para entregar músicas alegres, que ajudem seus ouvintes a se curar através da dança, da alegria e da abstração, Fiona prefere enfiar o dedo na ferida e tirar de lá tudo o que há de podre para conseguir continuar — melhor, mais segura de si e atenta a qualquer sinal de perda de controle.

Fetch The Bolt Cutters está longe de ser um álbum fácil. A primeira impressão ao colocá-lo para tocar é a de que não se sabe o que esperar. Existe uma força bruta e tangível nele, em suas letras, nos vocais de Fiona e nos latidos de seus cachorros, que são creditados como backing vocals. Diferentemente de Extraordinary Machine, que é um álbum coeso, ainda que, sendo algo de Fiona Apple, seja difícil falar em coesão, este é diferente em todos os aspectos que poderíamos listar. Mesclando jazz com hip-hop e até mesmo canto de coral com uma balada dos anos 50, o que encontramos é uma ode ao amor próprio e a deixar os ressentimentos para trás — sejam eles por amizades, desavenças ou por causa de um cara qualquer que colocou duas mulheres uma contra a outra. 

A maior diferença entre os quatro álbuns anteriores e este, para além da musicalidade, é a forma como a artista se posiciona, através de suas músicas, sobre seus relacionamentos amorosos. Aqui, eles não protagonizam a cena. Existem músicas de coração partido e até mesmo uma balada romântica leve e perfeita, “Cosmonauts”, que parece ter saído de um disco da Regina Spektor, mas o que realmente impulsiona o álbum é o sentimento de necessitar ir adiante e deixar o passado e as convenções sociais para trás. 

Fiona sempre procurou fazer isso, à sua maneira. Ela tem seu próprio tempo, o tempo mágico de uma artista que procura verdadeiramente experienciar cada acontecimento de sua vida com o máximo de emoções e sensibilidade para, através disso, fazer sua arte ter sentido e ser catártica. Fetch The Bolt Cutters demorou cinco anos para ficar pronto e Fiona não tinha pressa: ele sairia quando saísse, não se pode apressar um sentimento. Ouvir suas músicas neste momento é perceber o quão conectado a Fiona o ritmo do mundo está agora. Ainda que não queiramos, precisamos parar e sentir as coisas, sejam elas horríveis ou não, para podermos sobreviver. 

Desde sua primeira aparição na cena musical, Fiona não escondeu de ninguém seus problemas psicológicos e os traumas com os quais lidava. Ter sido sexualmente abusada aos doze anos lhe deixou cicatrizes e agravou severamente seu Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Hoje ela se trata, abandonou o álcool e a maior parte das drogas e tenta viver uma vida saudável, mas é difícil lidar com a própria cabeça quando você tem TOC, ansiedade e depressão diagnosticados. Mesmo os momentos bonitos e românticos podem facilmente ser transformados em um dia nublado quando se luta contra seus próprios demônios. Ela faz seu melhor, assim como todos nós — e precisa seguir seu próprio ritmo, seu próprio tempo, se quiser sobreviver a si mesma. 

O álbum foi inteiramente gravado no estúdio improvisado em sua casa. Antigamente um quarto, agora o local foi transformado com alguns instrumentos musicais, percussão e objetos variados que trazem uma sonoridade experimental a Fetch The Bolt Cutters. Mas o estúdio não possui isolamento acústico, então é possível ouvir pequenos sons de Winifred, a sobrinha de Fiona, engatinhando pelo local enquanto ela e sua irmã, Maude Maggart, faziam os backing vocals. A falta de isolamento acústico também proporcionou um dos melhores momentos do álbum: no encerramento da faixa-título, podemos ouvir os cachorros de Fiona e de Cara Delevingne, sua amiga que participou dos backing vocals, latindo. Fiona declarou que eles ficaram calados durante o tempo todo da gravação mas, ao final, começaram a latir juntos, de uma forma meio mágica. 

A primeira música é “I Want You to Love Me”, que é uma balada ao piano, com alguns elementos experimentais, mas que se enquadra bem com outras músicas de Fiona. Nela, há uma declaração de amor mas, mais do que isso, há um reconhecimento importante sobre a natureza do ser, sobre a matéria que nos constitui. Em entrevista, Fiona afirmou que muito da letra dessa música veio a partir de algumas meditações que ela fez e da conexão que teve com a essência do que somos no universo:

“I move with the trees in the breeze
I know that time is elastic
And I know when I go
All my particles disband and disperse
And I’ll be back in the pulse
And I know none of this will matter in the long run
But I know a sound is still a sound around no one”

O estilo de composição de Fiona sempre foi mesclado entre pensamentos sobre a vida e sentimentos sobre relacionamentos, mas nesse álbum vemos menos a parte de sentimentos amorosos e mais a de reflexões sobre a vida em si e as injustiças de gênero.“Shameika”, a segunda faixa, relembra os anos escolares de Fiona, quando ela sofria bullying e tinha baixa autoestima. A música tem uma história quase literal de um episódio que aconteceu quando estava na escola em que uma menina, após ver ela sofrer bullying, lhe disse que ela tinha potencial. Isso parece ter mudado sua vida: “Minha experiência na escola ainda é importante para mim. Principalmente porque foi lá que meu relacionamento com mulheres começou a dar errado. É horrível como tantas memórias que eu tenho de estar com uma amiga [envolvem] ela estar comigo e então uma garota mais popular chegar e dizer para essa amiga, ‘Okay, você pode ser amiga da Fiona ou pode ser minha amiga. Escolha.’ E eu nunca era escolhida”. Sonoramente, a faixa mistura elementos de rock alternativo e hip-hop, um prenúncio do que virá nas faixas seguintes. 

Uma das músicas mais experimentais do disco é a que dá nome a ele, “Fetch The Bolt Cutters”. Fiona já tinha o álbum completo quando a escreveu, e o nome do álbum seria esse de qualquer maneira, fazendo alusão a uma cena de “The Fall”, quando Stella Gibson (personagem de Gillian Anderson) diz a frase ao encontrar uma porta trancada de um quarto onde está uma garota que havia passado por abuso. Isso não é à toa: as músicas de Fiona sempre fizeram referência ao amor, mas também ao abuso, físico e psicológico. A referência é forte, pesada e longe de ser romântica, mas a mensagem é clara: vamos arrebentar a porta se for preciso, mas vamos sair dessa situação. Quando ela canta: 

“I grew up in the shoes they told me I could fill
When they came around, I would stand real still
A girl can roll her eyes at me and kill
I got the idea I wasn’t real” 

parece estar fazendo alusão a “I Want You to Love Me”, especificamente sobre o verso de um som ainda existir mesmo que não haja ninguém por perto. Mas é difícil saber o que, de fato, Fiona tinha em mente ao compor o verso. No entanto, é possível perceber uma narrativa que perpassa o álbum inteiro: a da mulher que nunca se sentiu uma pessoa real, uma pessoa válida, mas que consegue quebrar suas correntes e encontrar sua voz conforme os anos passam. É a história da vida de Fiona, afinal de contas. Embora ela seja conhecida por fazer o que quer e não se dobrar à indústria musical, não é bem dessa forma que as coisas aconteceram e nem sempre ela teve a palavra final sobre sua vida ou sua música. A faixa “Please, Please, Please”, de Extraordinary Machine, por exemplo, é uma que ela não queria compor, mas foi forçada pela gravadora. Contudo, a mensagem está clara na própria letra: “Please, please, please, no more melodies. / They lack impact, they’re petty, / They’ve been made up already” (“Por favor, por favor, por favor, chega de melodias. / Elas não têm impacto, são mesquinhas, / Já foram feitas antes.”). 


Talvez a melhor música do álbum, a quarta faixa, “Under The Table”, é agressiva, irônica e um grito por liberdade dentro de um relacionamento. Remetendo a um jazz que combina perfeitamente com a voz grave e melodiosa de Fiona, nela temos um recorte de um jantar pelo qual quase todas nós já passamos: com o namorado, para ver os amigos dele e, ao ficarmos irritadas com algo, nossa atenção foi chamada pelo parceiro, como se tivéssemos de nos calar para não constrangê-lo. A isso, Fiona canta um de seus melhores versos: 

“I told you I didn’t wanna go to this dinner
You know I don’t go for those ones that you bother about
So when they say something that makes me start to simmer
That fancy wine won’t put this fire out, oh
Kick me under the table all you want
I won’t shut up, I won’t shut up
Kick me under the table all you want
I won’t shut up, I won’t shut up
And if I don’t wanna go, leave me alone
Don’t push me, cookie, don’t push me, don’t you push me
If you get me to go and I open my mouth
To the fucking mutton that they’re talking about
You can pout, but don’t you, don’t you
Don’t you, don’t you, don’t you shush me”


A respeito disso, Fiona disse: “Eu tenho um temperamento forte. Tenho montes de raiva por dentro. Tenho montes de tristeza dentro de mim. E, de verdade, não consigo suportar babacas. Se eu estou na frente de um e acontece de estar em um lugar público e eu me irritar — o que é uma possibilidade —, isso não me fará bem, mas eu não serei capaz de me conter, porque eu vou querer me defender”. Ela está, obviamente, certa, mas fazer isso tem um custo no convívio social e no emocional — por isso mesmo, pode levar tempo até que uma mulher consiga se colocar para fora e falar o que pensa, colocando sua raiva na mesa. Infelizmente, tendemos a nos sentir culpadas pela raiva e pelos sentimentos ruins, especialmente quando estamos em relacionamentos com homens que tentam nos silenciar. Fetch The Bolt Cutters é sua forma de dizer: “eu sou uma mulher, eu tenho raiva, eu tenho tristeza, tenho o direito de sentir o que sinto e esta sou eu dizendo o que penso”. Levou quarenta e dois anos, mas Fiona não sente-se mais culpada por falar o que pensa e sente — e canta abertamente sobre isso. 

Relay” talvez seja a música mais diferente do álbum, feita basicamente em percussão e repetição de estrofes, mas também é uma das melhores. A sonoridade, ainda que não lembre outros álbuns da cantora, traz uma mensagem muito importante sobre ódio e como ele nos consome quando entramos no jogo de odiar um ao outro. No entanto, ao mesmo tempo, Fiona alfineta o quanto odeia algumas pessoas, especialmente aquelas que fingem ter vidas perfeitas: “Eu fico tão irritada com a ideia de influencers porque eles acabam sendo exatamente as pessoas que não deveriam estar influenciando ninguém. Eu sei que se eu estivesse nas redes sociais, totalmente seria presa dessas comparações entre mim e todo o resto das pessoas. O motivo por que eu não entro nas redes é porque posso perceber o que está acontecendo: todo mundo está se comparando com os outros. Essa é uma forma horrível de viver. As pessoas estão simplesmente tentando ferrar com outras pessoas na internet”.

As faixas seguintes são melhores por suas letras do que por sua sonoridade. “Rack of His” é uma música sombria sobre estar em um relacionamento e sentir-se usada. “Newspaper” tem um ritmo perfeito para ser cantada no chuveiro, mas também uma letra pesada, falando sobre traição e como homens separam mulheres que poderiam ser amigas. “Ladies” é uma música-síntese do álbum, que pode ser dividido entre uma libertação pessoal e uma libertação das estruturas misóginas que colocam uma mulher contra a outra na sociedade. Nessa música, temos Fiona falando novamente sobre como homens se esforçam para incentivar mulheres a ficarem umas contra as outras por meio de traições e ciúme e como isso prejudica amizades e nos enfraquece enquanto gênero. Nas palavras de Fiona, “Este álbum é muito sobre não deixar homens nos colocarem umas contra as outras ou nos manter separadas somente para que eles possam controlar a mensagem”. 

Heavy Balloon” é uma música extremamente delicada sobre depressão. Fiona, que possui o transtorno, conseguiu colocar em palavras uma bela e verdadeira metáfora sobre o que é ser uma pessoa que convive com a depressão diariamente: 

“People like us, we play with a heavy balloon
We keep it up to keep the devil at bay, but it always falls way too soon
[…]
People like us get so heavy and so lost sometimes
So lost and so heavy that the bottom is the only place we can find
You get dragged down, down to the same spot enough times in a row
The bottom begins to feel like the only safe place that you know”

É interessante como o álbum facilmente desliza entre um assunto difícil e outro sem ser, necessariamente, pesado. De certa forma, ele é mais irônico e agressivo do que triste ou melancólico. A maneira como Fiona Apple constrói suas músicas reflete sua forma de pensar e de encarar a vida. Gosto especialmente de como ela é cuidadosa em dar melodias mais suaves ou divertidas para letras cuja temática é séria, como acontece com “Heavy Balloon”. Como ela disse, “É quase como você ter Síndrome de Estocolmo com a sua depressão — como se você tivesse sido sequestrada por ela”. Mas isso não precisa soar tão horrível porque é algo com o qual você precisa conviver, como um balão pesado que te empurra para baixo às vezes. A faixa seguinte a essa é a suave e romântica “Cosmonauts”, que é bonita e irônica porque é assim que as músicas românticas de Fiona são: não tão românticas assim. Mas a balada é certamente bem-vinda, especialmente porque a próxima é um verdadeiro soco no estômago. 

For Her” é uma música pesada cantada de uma forma leve. Fiona afirmou que a única maneira de cantá-la seria com vozes de outras mulheres junto da dela. É fácil entender o porquê disso quando vamos além da melodia alegre e divertida e olhamos para a letra, uma letra que fala literalmente “Você me estuprou na mesma cama em que sua filha nasceu”. Fiona, embora tenha sido vítima de abuso sexual, não fala sobre si mesma nessa música, mas sobre uma mulher que conheceu que lhe contou o que havia sofrido, ainda que não tivesse palavras para nomear o estupro como estupro. “Embora seja uma coisa estranha de dizer em uma música — ‘Você me estuprou’ —, algumas pessoas precisam dizer isso em voz alta para entender o que aconteceu com elas. E a minha esperança é que, talvez, algumas mulheres e homens serão capazes de cantar essa frase junto com a música e se permitir contar a verdade para si mesmos”, disse em entrevista à Vulture. 

Embora as duas últimas músicas do álbum, “Drumset” e “On I Go” mantenham a qualidade das anteriores, é difícil sentir-se conectada a elas após ouvir “For Her”. Mas elas são tão experimentais e sentimentais quanto as outras, seguindo a linha de auto-aceitação em meio a desilusões amorosas e de outros tipos. O interessante em Fetch The Bolt Cutters é como esse é um álbum que se concentra menos nos relacionamentos românticos de Fiona e mais nas experiências compartilhadas com mulheres — especialmente aquelas que sofreram abuso físico e psicológico. Existe uma história a ser contada aqui e, apesar de não ser linear, ela é palpável, sendo algo com o qual todas nós podemos facilmente nos identificar. Em meio a versos sobre traição, amizade feminina, autoestima, estupro e relacionamentos, encontramos uma Fiona Apple mais madura e estável do que em seus outros álbuns. 

A mensagem de Fetch The Bolt Cutters é clara e sonora: pegue os alicates, se livre das suas correntes e saia da situação em que você está, seja ela qual for. Ouça seu tempo, ouça sua voz e assuma a sua vida. Me parece a mensagem certa para este ano — e todos os outros. 


Este texto foi originalmente publicado no Valkirias. 

2 Comentários

  1. Não entendo de música suficiente pra dizer se esse é o melhor álbum dela. Mas acredito que seja, porque consegue ir muito além do que os outros foram, e não falo sobre repercussão, mas sobre o próprio sentimento incutido no álbum, que todas nós mulheres reconhecemos, mais ainda se você sofre de algum transtorno mental. Ouço Fiona desde 2014. Até então o meu álbum favorito era the idler wheel, embora minha música favorita dela fosse shadowboxer, do primeiro álbum dela. Hoje, minha música favorita dela é ladies. Mas definitivamente, under the table é a melhor do novo álbum mesmo. Penso um pouco parecido com Fiona a respeito de influencers e toda essa coisa que a internet se transformou. Gostei muito do seu texto sobre a Fiona, Mia. Que todas nós peguemos os alicates e nos livremos das correntes.
    Abraço.

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    1. Oi, Leticia!
      Eu amo basicamente tudo o que a Fiona faz porque ela é tão original e consegue verdadeiramente colocar em letras e melodias aquilo que está sentindo, sabe? Mas esse álbum é especial. Meu favorito, até então, era o Extraordinary Machine, mas agora o Fetch The Bolt Cutters tomou o lugar dele - ou passou a dividi-lo haha - porque, como tu disse, não é tanto pela repercussão que ela foi além, mas pelos sentimentos incutidos no disco. Muito maravilhosa ela. <3

      Bjo!

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