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Os Testamentos, de Margaret Atwood

Em 1985, a escritora canadense Margaret Atwood lançou um dos livros mais assustadores e memoráveis da literatura do século XX, O Conto da Aia. Cerca de trinta e cinco anos depois, ela escreveu a continuação daquela terrível história. O livro em questão, publicado no final de 2019, trata-se de Os Testamentos. Cerca de quinze anos se passaram desde os acontecimentos narrados em O Conto da Aia. Não sabemos de Offred nem de mais detalhes de seu destino pós-Gilead, mas sabemos que os horrores continuam acontecendo, cada vez mais fortemente, por pessoas fanáticas que usam o nome de Deus para estuprar, torturar e matar.


O livro inicia com a inauguração de uma estátua no Ardua Hall, espaço que, logo ficamos sabendo, é destinado às Tias, mulheres com certa autonomia em Gilead. A estátua erguida homenageia uma das fundadoras, que ajudou a criar as leis da teocracia e, desde então, comanda a educação das mulheres e lida diretamente com os Comandantes, aplicando punições a mulheres desobedientes ou arranjando esposas para homens que, geralmente, assassinam suas cônjuges para casarem-se com meninas que mal saíram da infância. Conforme o avançar dos capítulos, descobrimos mais sobre aquela mulher cujos anos de trabalho dentro de Gilead lhe fizeram ser vista como exemplo de retidão — o que certamente nos faz temer o mal que ela já causou, pois boas pessoas não permanecem vivas lá dentro. Não demora muito para que descubramos que ela é uma das narradoras do livro. Escrevendo secretamente suas memórias, passamos a saber que ela é a temida Tia Lydia, que tanto atormentou a vida de Offred, em O Conto da Aia, e conhecemos a história de como ela chegou à Gilead. 

“Por que achei que apesar de tudo as coisas correriam normalmente? Acho que porque já estávamos ouvindo notícias como aquelas há muito tempo. Você não acredita que o céu está caindo até que um pedaço dele caia em cima de você.” 

Quando o golpe de Estado aconteceu, Tia Lydia era uma juíza de cinquenta e seis anos cuja carreira havia sido dedicada a defender mulheres que sofreram algum tipo de violência. É irônico que a autora tenha escolhido justamente essa profissão, com tal ênfase, para a mais cruel vilã de Gilead. No entanto, a partir da memória de Tia Lydia e de seus anos pré-Gilead, passamos a compreender melhor o que a fez escolher aquele caminho. Existem muitos pontos que podem ser levantados a respeito da problemática de se humanizar vilões, mas gosto quando escritores decidem criar personagens complexos, que não são apenas uma coisa ou outra, e cuja bússola moral, por mais quebrada que seja, aponta para a sobrevivência. Tia Lydia fez de tudo para sobreviver, mas arquitetou um plano de vingança para derrubar Gilead. Ser Tia, afinal de contas, lhe dá acesso aos segredos de todos dentro daquela teocracia. 

Tia Lydia é uma narradora convincente. Ela conta sobre a vida pregressa dela, sobre como o golpe aconteceu na perspectiva de mulheres que tinham algum grau de estudo e autoridade na sociedade e também conta sobre o que está acontecendo naquele momento dentro da maquinação política de Gilead. Podemos nos perguntar do motivo para tal registro, mas é muito simples: ela sabe que um dia aquele regime teocrático cairá e torce para que seja pelo plano que construiu ao longo dos anos. Sendo assim, a ideia dela é fazer de seu relato um documento histórico para o porvir, para que as pessoas de fora saibam o que aconteceu naqueles dias e quem eram os culpados. Nem por isso devemos pensar nela como uma boa pessoa, mas ela cumpre seu papel numa mescla de espiã e carrasca. 

Assim que descobrimos que uma das narradoras é Tia Lydia, uma das mulheres mais cruéis de Gilead e responsável por muitos sofrimentos de Offred em O Conto da Aia, a sensação é de que Atwood estava brincando com seu leitor. Ela nos leva a sentir uma espécie de compaixão pelo relato difícil da vida pré-Gilead de Tia Lydia e a compreender os motivos que a levaram até aquele extremo terrível, onde ela detém poder suficiente para determinar quais mulheres serão castigadas ou mortas. É difícil humanizar um vilão e Atwood o fez bem. Não pude deixar de finalizar a leitura pensando um pouco melhor de Tia Lydia, coisa que havia achado impossível quando li seu livro anterior. 

“A memória era uma coisa tão cruel. Não conseguimos lembrar do que foi que esquecemos. Do que nos obrigaram a esquecer. Do que tivemos que esquecer, para poder fingir que vivemos aqui com alguma normalidade.” 

Embora possa ser difícil lidar com a ambígua sensação de ter empatia por um vilão, gosto de como a autora conseguiu trabalhar com as nuances presentes na dicotomia de bem/ mal. Sempre existem motivos por trás do que fazemos e é importante lembrarmos de quem é o inimigo. De certa forma, é semelhante ao que Suzanne Collins fez na trilogia Jogos Vorazes. No entanto, enquanto Collins escreveu uma distopia para o público jovem, aqui nos deparamos com um universo distópico, porém nem tanto, cujo público é mais velho. Embora adolescentes possam ler tanto O Conto da Aia quanto Os Testamentos, sendo o último mais próxima a um YA por seu núcleo adolescente, os temas abordados, com a franqueza com que são descritos, podem ser pesados demais para um adolescente, dependendo de sua idade e experiência de vida. 

Os capítulos são divididos em grandes seções, cada uma com uma pequena imagem que sinaliza a alternância de narrador. Logo nos damos conta de que o livro divide-se entre três narradoras, cada uma desempenhando um papel na intrincada trama que destruirá a República de Gilead. Contudo, até percebemos que é isso o que está acontecendo, a narrativa pode tornar-se, por vezes, confusa porque, a princípio, não parece haver nada muito em comum com nenhuma daquelas mulheres. É possível pensar que tratam-se de três histórias distintas. No entanto, ainda que assim o fosse, o livro não perderia em nada: cada uma das narradoras possui traços distintos, histórias diversas e voz própria. Seus relatos são interessantes por si só — mas tornam-se incríveis conforme avançamos na leitura e vemos os fios de suas vidas entrelaçarem-se. 

Uma das vantagens de Os Testamentos possuir três narradoras é que cada uma delas nos mostra como é a vida para além dos horrores de uma aia. Em O Conto da Aia, é Offred quem nos conta sua história, o que certamente não torna o livro mais ágil. Embora a história de Offred seja terrível e cause grande ansiedade no leitor, apesar de bem escrita e completa por si só, a narrativa é densa e pesada a ponto de tornar-se lenta. Isso não é demérito, já que justamente essa era a sensação que Atwood quis causar a escrevê-la de tal maneira, mas é um alívio perceber que Os Testamentos possui um ritmo fluído e uma visão do que acontece com as mulheres em Gilead para além da restrita vida das aias. A organização social naquela teocracia é explorada com habilidade em Os Testamentos e muitas perguntas são respondidas nessa história. 

Uma das narradoras é Agnes, uma menina que inicia sua história ainda criança. Ela nasceu em Gilead, o que nos dá uma visão completamente diferente da que havíamos tido até então porque, apesar de todas as limitações e crueldade do regime, para ela aquilo é o normal, é tudo que ela conhece. Particularmente, embora a voz narrativa de Tia Lydia seja adulta e interessante, as partes de Agnes são as minhas favoritas pois nos fazem perceber como a mente de uma pessoa nascida em Gilead tenta ajustar-se a tudo de errado que há lá e justificar aquilo como normal — já que é toda a realidade a que foram expostas. Agnes é uma criança de mais ou menos nove anos quando sua mãe, Tabitha, morre. Seu pai, o Comandante Kyle, logo se casa com uma outra mulher, Paula, e ambos levam uma aia para dentro da casa. A partir desses eventos, a vida de Agnes muda drasticamente: ela já não é mais tratada como filha do Comandante Kyle, que lhe ignora sumariamente, sua madrasta lhe maltrata, as colegas de escola não lhe respeitam mais e ela sente que o chão sumiu de seus pés. O mundo de proteção que sua mãe havia criado a seu redor desapareceu em instantes e agora tudo o que ela tem é uma realidade crua e terrível. 

“Ela falou que eles supostamente deveriam estar se dedicando a vidas virtuosas em Deus, mas era possível a pessoa acreditar que estava vivendo de forma virtuosa e cometer assassinatos caso fosse fanática. O fanático acredita que matar gente é virtuoso, ou pelo menos matar determinadas pessoas.” 

Assim que tem sua menarca, aos treze anos, Agnes é obrigada a se casar. Tanto o Comandante Kyle quanto Paula, sua madrasta, queriam livrar-se logo dela e, então, mandam chamar Tia Lydia para que ela verifique as genealogias e os Comandantes disponíveis para um casamento bem-sucedido. O noivo escolhido é o Comandante Judd, um dos arquitetos de Gilead, que auxiliou a derrubar o Congresso dos antigos Estados Unidos para aplicar o golpe de Estado. O Comandante Judd é um senhor velho que já teve cinco esposas — todas jovens a ponto de serem quase crianças e todas mortas sob condições suspeitas. No entanto, ele é intocável dentro de Gilead, já que é quase a própria lei do local. Assim sendo, Agnes parece não ter escapatória, já que tal casamento traria benefícios sociais para seu pai e sua madrasta, que não se importavam com ela para além do status que ela poderia trazer a eles por meio do casamento. Mas, em um plano arriscado, Tia Lydia ajuda Agnes a se livrar do casamento, cooptando-a para viver no Ardua Hall e tornar-se uma Tia Postulante, uma aprendiz a Tia. Dessa maneira, Agnes agora é Tia Victoria e passa os próximos nove anos desempenhando funções dentro do Ardua Hall até estar pronta para tornar-se uma Pérola — uma espécie de missionária de Gilead, que viaja para outros países na intenção de angariar moças para o regime. 

Ansiosa para se tornar uma Tia completa, Agnes passa seus anos preparando-se para vestir a túnica de Pérola e cumprir seu dever como Tia Postulante. Ela e sua amiga Becka, com quem havia estudado, moram juntas num dos dormitórios locais durante o período de aprendizado. Ambas, além de se conhecerem desde a infância, sofreram abuso sexual de um homem renomado na comunidade gileadeana — o pai de Becka. O capítulo que descreve o abuso sofrido por Agnes é o mais forte do livro e é incrível como a forma com que isso lhe acontece é algo comum em relatos de vítimas de abuso sexual. Isso nos faz lembrar, mais uma vez, que, ainda que O Conto da Aia e Os Testamentos sejam obras ficcionais, nada do que existe nos livros foi puramente inventado por Margaret Atwood. Sua inspiração máxima é a realidade e, por mais atroz que pareça o regime de Gilead, os crimes lá praticados em nome da fé ocorreram diversas vezes ao longo da história da humanidade — e alguns ocorrem até hoje, sem grandes consequências para quem os pratica. 

“Precisamos nos recordar incessantemente dos descaminhos tomados no passado para não voltarmos a repetir os mesmos erros.” 

A terceira narradora é Daisy, uma jovem canadense de dezesseis anos recém-completos. Aparentemente, ela é uma adolescente normal: reclama dos pais, sente-se muito vigiada, fala palavrões e vai a um protesto contra Gilead, no centro da cidade, escondida. Mas ela não deveria ter ido, ela não deveria ter se exposto, e por um bom motivo. Os capítulos de Daisy se aproximam mais de um YA do que qualquer outra parte do livro, o que realmente dá uma outra atmosfera à história tão sombria de Atwood, mas eles nos fazem entender outro núcleo até então desconhecido: o da vida daqueles que conseguem fugir do regime ditatorial de Gilead. Não demora muito para que seus pais sejam assassinados e Daisy descubra que, na verdade, eles não tinham vínculos de sangue, apenas a criaram para resgatar uma criança que havia sido salva da loucura teocrática. 

Agentes ativos do Mayday, uma operação secreta de resgate de vítimas de Gilead, os pais de Daisy criaram novas identidades, tanto para eles quanto para ela, e viviam uma vida relativamente tranquila, apesar de toda a vigilância constante e superproteção, já que Gilead nunca havia desistido de recuperar sua mais famosa fugitiva: a Bebê Nicole. Não é preciso prestar muita atenção na história para descobrir que Daisy e a Bebê Nicole são a mesma pessoa, ainda que ela mesma não o saiba. Após a morte de seus pais, Ada, uma agente do Mayday, encarrega-se de proteger Daisy das agentes de Gilead, as Pérolas. Além de missionárias, elas também possuem instruções específicas para procurar por uma adolescente com uma certa tatuagem no braço. O que as próprias Pérolas não sabem é que tudo isso não passa de um plano de Tia Lydia para acabar com Gilead: trazendo a Bebê Nicole de volta, ela pode fazer com que a própria menina transporte um arquivo com centenas de provas recolhidas ao longo dos anos, provas que incriminam membros da alta patente daquele governo — o suficiente para a derrocada da teocracia. 

A partir daí, a trama torna-se uma verdadeira história de espionagem, com as vidas de Tia Lydia, Agnes e Daisy entrelaçadas em um objetivo comum: a queda de Gilead. Atwood acertou ao criar uma história que vai além daquela contada em O Conto da Aia, com personagens novas (ainda que haja uma relação intrigante entre elas, revelada no final do livro), uma trama tanto política quanto de espionagem e sensibilidade para compreender lados diferentes das vidas de mulheres naquele lugar. É indubitável a capacidade da autora em escrever distopias que nos causam horror e medo pela proximidade com o real, mas aqui temos algo a mais: Os Testamentos é, antes de tudo, uma história sobre esperança. 

Os Testamentos possui um tom diferente daquele usado em O Conto da Aia, o que é excelente. Embora não seja um livro perfeito, seu tom esperançoso é adequado para este momento. A alternância entre narradores auxilia para que a história torne-se mais dinâmica, mas existe um ponto fundamental para que esse seja um livro bem diferente do anterior: há mistério, ação e uma missão especial que destruirá Gilead. Há esperança. Ler O Conto da Aia não é tarefa fácil para os nervos. Embora classificado como distopia, consigo enquadrá-lo facilmente como terror. Sabemos bem que não é preciso haver elementos sobrenaturais para que uma história seja considerada parte do gênero, e a narrativa de Offred é simplesmente assustadora. É praticamente impossível ler sua vida como aia e não tremer por dentro ao pensar no quão frágil é a nossa liberdade. Temi que Os Testamentos seguisse nessa mesma linha mas, felizmente, Atwood escreveu uma história sobre luta e esperança — com planos intrincados, mulheres ajudando mulheres e alguns sacrifícios terríveis. Mas, às vezes, tudo de que precisamos é de esperança. Precisamos acreditar que governos totalitários não vencerão. Especialmente agora. 

“Naquela hora pensei, Chorar pra quê, vocês tinham que estar felizes, conseguiram fugir. Mas depois de tudo que me aconteceu desde aquele dia, entendi por quê. Você fica prendendo tudo dentro de si, seja o que for, até ter ultrapassado o pior. Aí, quando está segura, pode se dar ao luxo de chorar todas as lágrimas que antes teriam sido perda de tempo.” 


Se interessou pelo livro? Você pode encontrá-lo aqui.



Este texto foi originalmente publicado no Valkirias

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