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Emma, a obra-prima de Jane Austen

Jane Austen não é a minha autora preferida, mas é uma delas. Suas histórias sempre me comovem por terem, aparentemente, um enredo romântico, mas serem muito mais sobre questões econômicas relativas a vida das mulheres da época do que qualquer outra coisa. Em Emma, entretanto, isso é diferente: embora exista uma crítica social sobre o papel destinado à mulher naquele local do século XIX, somos apresentados a uma heroína rica, arrogante e que está longe de precisar preocupar-se com finanças. 



Emma
Jane Austen 
544 páginas 
L&PM 
Ano de publicação: 1815
Ano da edição: 2015  

Emma Woodhouse, jovem, bonita, rica e pretensiosa, é a primeira protagonista da obra de Jane Austen cujo futuro não depende da conquista de um bom marido. Faz questão de deixar claro que será solteira para sempre. Só se preocupa em cuidar do pai e demonstrar habilidade como casamenteira, escolhendo parceiros ideais para suas amigas. Quando seu dom para decifrar as intenções íntimas dos outros se revela defeituoso, ela terá de reconsiderar a soberba com que sempre avaliou seus próprios méritos.
Com Emma (1816), sua última obra publicada em vida, a inglesa Jane Austen (1775-1817) chegou ao ápice criativo. Neste que é o romance austeniano por excelência, temos a mais independente das heroínas da autora, além das qualidades magistrais que transformariam seus livros em grandes clássicos da literatura universal: a leveza perspicaz da comédia de costumes, a voz narrativa única, a engrenagem primorosa do enredo, a comicidade dos diálogos e a observação arguta sobre o espaço da mulher num mundo masculino.

Quando iniciamos a leitura de Emma, estamos preparados para mais uma história sagaz sobre o amor e a vida da mulher na estreita sociedade inglesa do século XIX. Entretanto, o que encontramos é uma comédia onde o amor desempenha papel coadjuvante, já que todo o protagonismo está no caráter dominador de Emma Woodhouse. Órfã de mãe ainda muito criança, Emma foi educada por um pai hipocondríaco que a enche de mimos, o sr. Woodhouse, e sua preceptora, a srta. Taylor. O romance começa com o casamento da srta. Taylor, que torna-se sra. Weston, abandonando a propriedade de Hartfield e os cuidados para com Emma e o sr. Woodhouse para dedicar-se à sua própria casa.

Emma, sem alguém lhe cuidando de perto pela primeira vez, sente-se estimulada a cumprir sua imaginária função de casamenteira, já que considera-se a responsável pela união dos Weston, e começa a tentar aproximar pessoas para formar casais. No entanto, ela mesma está decidida a não deixar-se apaixonar por ninguém, pois, com a condição que possui, casar-se poderia ser um rebaixamento de sua posição.

"Não tenho os estímulos habituais que as mulheres têm para casar. Se por acaso me apaixonasse, de fato, a coisa seria diferente! Mas nunca estive apaixonada; não é o meu costume ou a minha natureza; e creio que jamais estarei. Sendo assim, sem amor, tenho certeza de que seria uma tola em mudar uma situação como a minha.
De fortuna não preciso; de ocupação não preciso; de relevância não preciso: acredito que poucas mulheres casadas cheguem perto de ser tão soberanas das casas de seus maridos quanto eu sou de Hartfield." 


Isso parece mudar com a expectativa da chegada do sr. Frank Churchill, um jovem, filho do Sr. Weston, criado por seus tios a algumas milhas de Highbury, que desperta a atenção de Emma de imediato. Em sua imaginação, ela o visualizava como alguém tão elegante quanto ela, digno de sua amizade. O sr. Knightley, vizinho de Emma e amigo da família, entretanto, não concorda com isso, e enxerga no jovem - que ambos nem conhecem - características frívolas e tolas demais para que ele possa ser, de fato, considerado adequado.

Emma parece ser um daqueles livros em que nada acontece, e, de certa maneira, é o caso. A história de Emma Woodhouse é sobre uma jovem repleta de privilégios que vive numa bolha e considera-se mais importante do que realmente o é. Em muitos aspectos, é difícil gostar de Emma. A própria Jane Austen, ao escrever a personagem, declarou que Emma seria uma heroína de quem apenas ela gostaria, uma heroína imperfeita. Claro que ela não contava com o fato de que, além de as pessoas apreciarem sua escrita precisa e divertida, alguns anos após a publicação, personagens femininas um tanto detestáveis entrarem para o gosto do público por mostrar mulheres mais próximas do real do que aquelas idealizadas, encontradas em grande parte da literatura clássica.

O quarto e último romance publicado em vida pela autora, Emma foi escrito entre 21 de janeiro de 1814 e 29 de março de 1815, enquanto Jane Austen morava com a mãe, a irmã e uma amiga. Embora já tivesse escrito alguns livros e contos, foi com esse que atingiu seu ápice literário, pois estava em pleno domínio narrativo. Emma não é somente uma história de amor, apesar de existir algumas delas na trama. É também uma história de mistério: quem presenteou Jane Fairfax com um piano de cauda? As pistas são deixadas ao longo do livro, mas é somente no final que descobrimos o admirador secreto da srta. Fairfax, uma jovem da idade de Emma por quem ela sente aversão. Como bem observado pelo sr. Knightley, tal aversão provavelmente advém do fato de que Jane Fairfax é talentosa em tudo o que faz e, ainda, é querida, sendo educada e delicada com as pessoas, ao contrário de Emma, cuja delicadeza é um verniz do que considera elegante e que, além disso, nunca se dedicou suficientemente a algo a ponto de tornar-se boa para que alguém possa chamar-lhe de "talentosa".

Quando Frank Churchill finalmente chega a Highbury, demonstra sentimentos de afeição por Emma e, embora ela esteja determinada a jamais casar, o jogo de flertes entre ambos ocorre de forma descarada para os padrões sociais da época. Emma, seja por maldade ou por inveja, não deixa de lado sua aversão por Jane Fairfax, que também está no local, e informa Frank de tudo o que considera errado em sua vizinha. No fundo, Emma não é má, apenas privilegiada, mimada e tola. Mas, aos poucos, se dá conta de que sua conduta, especialmente com Jane e sua tia, pode não ser a melhor de todas.

"Ela hesitava sobre ter transgredido ou não o seu dever de mulher para mulher ao trair suas suspeitas quanto aos sentimentos de Jane Fairfax para Frank Churchill." 


Por mais que a história não tenha tal foco - e, realmente, não é correto chamarmos Jane Austen de feminista, haja vista que o conceito de feminismo como o conhecemos surgiu depois -, existem muitos diálogos e defesas da própria narradora que dissertam acerca da condição da mulher naquela sociedade. Como Emma era altamente privilegiada, possuía uma posição que mais ninguém ali tinha, o que a dava liberdade para agir como bem entendesse, dentro da moral conservadora da época. Em suma, ela é atrevida e maliciosa em muitos momentos. Mas, ainda que não ocorram muitas coisas no romance, a mudança interna de Emma é fascinante, pois é possível perceber os pequenos detalhes que a fazem sair de sua concha metafórica de dona e soberana de Hartfield para realmente enxergar as outras pessoas como seres humanos tão dignos de respeito quanto ela.

Estou longe de ser uma fã de histórias de amor. Na verdade, acho que colocar o amor romântico como foco narrativo é o que estraga diversas histórias (vide a terceira temporada de Dark, por exemplo), mas Jane Austen sabia escrever uma história de amor de forma a não ser exageradamente melosa ou dramática. Sua ironia, sarcasmo e cuidado na construção de personagens se faz presente em todas as suas obras e em todos os seus casais, mas especialmente aqui, em Emma. No papel imaginário de casamenteira, Emma tenta juntar Harriet, sua amiga, com o Sr. Elton, um jovem pároco amigo da família. Os detalhes desse plano estão dentre as coisas  mais divertidas que já li, assim como o desenrolar atrapalhado da tentativa de correção que Emma faz, ao procurar sentimentos românticos em diversas pessoas a fim de ajudar a amiga. O que ela não esperava era perceber-se enredada na teia que tecia, ela própria com sentimentos conflitantes a respeito de um certo homem da história... Em determinado momento, quando todos estão reunidos em um baile, Emma chama o certo homem para dançar, ainda sem consciência de seus próprios sentimentos, e a resposta dele me fez dar um grito durante a leitura, pois é possível, no contido e conservador universo Austeniano, perceber os sentimentos dele ali:

"– O senhor demonstrou que sabe dançar, e, bem, na verdade não somos irmão e irmã tanto assim a ponto de fazer disso algo minimamente impróprio. 

– Irmão e irmã! Não, não mesmo." 


Eles não são irmão e irmã, e eu jamais torci tanto por um casal quanto o fiz por eles. Emma não estava procurando por um amor ou por casamento, mas o encontrou mesmo assim. Nem sei dizer o quanto isso me deixou feliz - eu, que detesto histórias de amor, risos. Isso porque Jane Austen não escreveu uma heroína frágil, delicada e que deseja ser amada, mas uma criaturinha insolente que possui mil defeitos, mas é adorável à sua própria maneira e encontra seu final feliz de forma cômica. Como disse alguém no Tumblr:

"Olha, nós todos amamos Elizabeth Bennet, mas Emma Woodhouse não presta e eu respeito isso." (em tradução livre)

Faço dessas as minhas palavras.
Para além da história de amor completamente adorável e divertida, também amo como existem diversos capítulos que mostram o verdadeiro horror de uma jovem privilegiada: passar vergonha por ter de conviver com alguém melhor do que você, muito mais talentosa, e sentir-se completamente ridícula em comparação. Isso para não mencionar o piquenique, quando Emma acha que um comentário espirituoso será bem vindo, mas acaba sendo apenas maldosa e causando um verdadeiro climão entre as pessoas. Emma Woodhouse não presta e eu realmente respeito isso.

Emma, filme de 2020
Emma é um livro absolutamente perfeito em todos os sentidos e eu não canso de recomendá-lo às pessoas. Não sou a maior fã da autora, tampouco de romances, mas Emma é uma história que facilmente poderia não ser nada demais, porém se destaca por sua heroína imperfeita, seu pai hipocondríaco, seu vizinho, que tenta meter-se em sua vida e acaba levando voadora emocional, uma vizinha que é a personificação da mocinha perfeita de acordo com os padrões da época, o que leva Emma a um estado constante de inveja, uma amiga pobre a quem ela quer ajudar e para quem acaba sendo a verdadeira definição de amizade tóxica, um pároco cuja ambição é sem limites e uma senhora que não cala a boca por um instante, mas que é uma pessoa adorável, apesar da tagarelice insuportável. Tanto o livro quanto o filme, deste ano, são maravilhosos, e recomendo-os fortemente.

"Emma Woodhouse, bonita, astuta e rica, com um lar confortável e um temperamento feliz, parecia unir algumas das melhores bênçãos da existência; e tinha vivido quase 21 anos no mundo com bem poucas coisas que a perturbassem ou aborrecessem." 




Se interessou pelo livro? Você pode encontrá-lo aqui.

2 Comentários

  1. Fiquei pensando sobre o que você disse sobre a Jane Austen não ser declaradamente feminista... Outro dia minha mãe estava me contando histórias sobre a minha avó e eu tive a mesma impressão. Mesmo tendo uma mentalidade mais fechada, ela já tinha posicionamentos feministas em alguns aspectos, só não se interessava pelo movimento (ou não teve contato o suficiente para se interessar).
    Enfim, Emma é um daqueles livros que eu sempre estou louca para ler, mas nunca leio de fato. Amo a Jane Austen e a escrita dela e tenho a impressão de que vou gostar de Emma justamente pela personagem principal ser tão desaforada. O livro continua na minha lista, mas vou tentar dar prioridade a ele.

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    1. Oi, Natalia!
      A gente tende a ler as pessoas e suas obras de acordo com a nossa mentalidade atual, com os nossos recortes. Mas acho sempre importante lembrar que as coisas eram diferentes em outras épocas - para melhor ou para pior. Acho possível encontrar traços feministas em diversas mulheres ao longo da história, mas muitas nem sabiam o que era feminismo. Para algumas, isso tinha outro nome. "Se dar o valor" e coisas do tipo (o que é um termo problemático por si próprio, mas funcionava).

      Emma é realmente um livro perfeito, te recomendo demais, demais.

      Bjo!

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