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O Morro dos Ventos Uivantes: um romance sobre obsessão, classe social e vingança


Em 1848, a Graham's Lady's Magazine resenhou o então polêmico lançamento, "Wuthering Heights", escrito por um jovem anônimo chamado Ellis Bell. Entre diversas opiniões fortes, a revista chegou ao ponto de se perguntar como alguém conseguiu escrever aquele livro sem comprometer sua própria sanidade.  

"Como um ser humano pode ter se atrevido a escrever um livro como este sem cometer suicídio antes de terminar uma dúzia de capítulos, é um mistério. O livro é um composto de depravação vulgar e horrores não naturais." 

De fato, "Wuthering Heights" ou, como o conhecemos, O Morro dos Ventos Uivantes, não é um livro fácil. Repleto se sentimentos horríveis e de personagens cruéis, o leitor desavisado pode sentir-se incomodado com as descrições vívidas e verossímeis de pessoas longe da perfeição, vivendo vidas traumáticas. No entanto, aquele que insistir na leitura encontrará nela uma das maiores criações literárias, uma história de obsessão e vingança tão assustadora quanto bonita, que tem inspirado gerações de artistas desde sua publicação, em 1847. 

Emily Brontë era uma jovem reclusa, que não gostava de pessoas (há quem afirme que a autora encontrava-se no espectro autista, sendo asperger, mas, obviamente, não há como comprovar ou descartar a suspeita) e preferia estar na presença de animais e de livros a socializar. Sua irmã, Charlotte Brontë, no prólogo para a edição de O Morro dos Ventos Uivantes de 1850, após a morte de Emily, a descreveu da seguinte forma: "Embora seus sentimentos pelos que a cercavam fossem benevolentes, relações com eles ela nunca procurou, nem, com poucas exceções, as experimentou. E mesmo assim ela os conhecia: sabia seus costumes, sua linguagem, a história de suas famílias; podia ouvir sobre eles com interesse, e falar deles com detalhes (...); porém, com eles, raramente trocou uma palavra".

Introvertida de carteirinha, Emily passou boa parte da vida observando o ambiente que a cercava e tentando compreender as pessoas e as relações humanas, tão estranhas para ela. É bem provável que seu caráter introspectivo e analítico tenha contribuído fortemente para que O Morro dos Ventos Uivantes existisse, já que somente uma escritora sensível e atenta às diferentes tonalidades da alma humana poderia escrever personagens tão verossímeis, que saltam do livro, como os que encontramos em sua terrível história. 

A família de Emily tornou-se famosa na literatura por produzir três artistas talentosas que escreveram livros que perduram até hoje. Emily era irmã de Charlotte e Anne Brontë, ambas também escritoras (suas obras mais conhecidas são Jane Eyre e A Inquilina de Wildfell Hall, respectivamente). Apesar de mulheres sempre terem escrito, poucas foram as publicadas e, dentre elas, ainda menor é o número daquelas que foram consagradas pelos literatos, cujas obras tiveram a oportunidade de chegar até nós. Ser mulher ainda é um fardo em muitos aspectos mas, no século XIX, a possibilidade de ser aceita no meio artístico era quase nula. Foi por isso que as irmãs Brontë adotaram pseudônimos masculinos para publicarem seus livros. Funcionou. Todas as três foram publicadas e, somente alguns anos mais tarde, Charlotte revelou a autoria verdadeira dos romances. Mas, naquele ponto, os livros já tinha sido lidos por toda a Inglaterra e resenhas deles haviam saído em diversos jornais. Elas já haviam entrado para a história. 

Não há como falar em O Morro dos Ventos Uivantes sem falar sobre Emily Brontë. Sua visão perpassa toda a história. Os personagens são tão cruéis quanto bondosos, tão divertidos quanto soturnos. Eles existem num espaço de sentimentos que, a princípio, podem parecer opostos demais para serem reais, no entanto, há veracidade na construção de personagens. Pessoas são criaturas complexas e estranhas, que vivem entre o amor e o ódio, que são queridas com quem gostam e detestáveis com aqueles a quem desprezam. 

Alice Hoffman, em entrevista para o New York Times, disse: "Leia O Morro dos Ventos Uivantes aos 18, e você verá Heathcliff como um herói romântico; leia aos 30, e ele é um monstro; aos 50, você percebe que ele é apenas um ser humano". É exatamente esse o sentimento que a história nos passa. Como Italo Calvino disse, um clássico é um livro para ser relido, e a releitura da obra de Emily Brontë tem me proporcionado diversas reflexões ao longo dos anos. Da adolescência deslumbrada pelo amor violento de Heathcliff por Cathy, até a chegada da idade adulta, minha visão foi alterada pelas experiências adquiridas, que me mostraram o anti-herói mais famoso da literatura como uma pessoa perturbada pelo mal causado a ele, um belo exemplo de como a sociedade cria seus próprios monstros - e como eles mesmos se atormentam por suas angústias e maldades. 

É incrível que uma jovem mulher de vinte e oito anos, que passava seus dias reclusa em casa, detestando pessoas, sem grandes contatos com o que acontecia no mundo, tenha escrito uma obra tão sensível e repleta de realidade, uma realidade tão forte que ecoa até hoje. Tal feito foi motivo para que muitas pessoas, desde a época da revelação da verdadeira autoria do livro, contestassem a veracidade da informação, recusando-se a acreditar que uma mulher do século XIX possa ter escrito obra tão dramática, profunda e visceral. 

Cathy é a encarnação das jovens frívolas nascidas no privilégio que, apesar de serem boas pessoas em essência, não possuem a dureza da vida para compreenderem que suas ações terão consequências. Se apaixonando por Heathcliff, seu irmão adotivo, e abandonando-o por pura vaidade e expectativa de ascensão social, Cathy inflige a ele uma dor de que ele não pode escapar, já que seu único consolo na vida era ela. No entanto, graças à narrativa de uma pessoa próxima a ela, Nelly Dean, a governanta da casa onde Cathy cresceu, podemos vê-la para além do estereótipo de menina mimada e egoísta, e percebemos que ela também possui qualidades e defeitos, como todos nós, e que não deve ser julgada por uma única atitude tomada ainda na adolescência. 

Seria muito fácil tornar o livro um lamento de Heathcliff e fazer de Cathy uma vilã insensível, o que poderia ter acontecido caso o autor fosse homem. Mas, como Emily era mulher, e uma mulher talentosa e observadora, temos aqui não uma obra que demoniza as atitudes frívolas de uma menina rica, mas sim uma história que nos mostra que todos possuímos defeitos e qualidades, todos somos terríveis e adoráveis, dependendo da perspectiva. O verdadeiro vilão, se há um, é o sistema social que permite que pessoas como Heathcliff sejam abandonadas e se tornem párias na sociedade, ainda que acolhidas em uma casa rica. Mas privilégios de berço sempre serão jogados na cara daqueles que conseguiram seu lugar por caridade. O que Emily Brontë fez, portanto, não foi uma discussão sobre como a mulher amarga um homem apaixonado (coisa que, infelizmente, podemos ver em tantos livros), tampouco entrou em filosofias sobre o amor, a vingança, a dor, o ódio ou a morte. Ela simplesmente mostrou a forma como enxergava o mundo e as relações sociais, tão baseadas em status social a ponto de transformar sentimentos bons em coisas repulsivas e assustadoras pelo bem das aparências.

O Morro dos Ventos Uivantes
Emily Brontë
Tradução: Adriana Lisboa
376 páginas
Editora Zahar 
Publicado originalmente em 1847
Ano da edição: 2016

Sobre o que é: Caro leitor, você está prestes a adentrar o inferno. Mas não hesite: a viagem valerá cada segundo. Essa é uma história de obsessão. E de purgação, crueza, devastação. No centro dos acontecimentos estão a voluntariosa e irascível Catherine Earnshaw e seu irmão adotivo Heathcliff. Rude nos modos e afetos, humilhado e rejeitado, ele aprende a odiar; mas com Catherine desenvolve uma relação de simbiose, paixão e também perversidade.


Se interessou pelo livro? Você pode encontrá-lo aqui.

Recentemente, gravei um episódio especial para o podcast do Querido Clássico falando sobre a obra e a vida de Emily Brontë. Se quiser ouvi-lo, basta clicar aqui.

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