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Por lugares incríveis, de Jennifer Niven

Por Lugares Incríveis foi o último livro que li antes da pandemia começar por aqui de fato. Foi uma experiência estranha. Era começo de março, estava um calor quase insuportável e eu andava nas correrias de documentação para o último semestre da faculdade. Em meio a uma fila e outra, pegava o Kindle e lia a cativante e difícil história escrita por Jennifer Niven. Assim que finalizei a leitura, ainda abalada pelo desfecho, fiquei sabendo que a vida teria de mudar drasticamente e todos os meus planos iriam por água abaixo. Certamente, esse foi um dos motivos por que eu demorei tanto para conseguir escrever a respeito desse livro. Isso e o fato de que essa não é uma história fácil. 


Dificilmente leio sinopses. Gosto de ser surpreendida pelas ficções nas quais me aventuro, sejam elas literárias ou audiovisuais. Qual não foi a minha surpresa, então, quando percebi que Por Lugares Incríveis não é um romance adolescente - o que ele também é -, mas uma história sensível sobre questões psicológicas e suicídio. Eu não estava preparada para isso, porém foi uma bela viagem.

Nele, somos apresentados a Finch, um rapaz meio desprezado na escola por ser considerado esquisito. Logo, ele conhece Violet, uma menina popular que recentemente sofreu uma perda na família e que, agora, passa por um momento de estranheza também, ainda que seja socialmente aceita. Poderia facilmente ser uma história de amor e, de certa forma, é. Mas não há amor que baste para acabar com o sofrimento psicológico de quem possui algum transtorno. A autora foi bem incisiva nesse ponto e, embora a trama realmente seja pesada, o que pode chocar alguns leitores, por tratar-se de uma obra com personagens adolescentes, é importante que seja dito que a depressão, a bipolaridade e tantos outros transtornos psicológicos podem levar a resultados desastrosos caso não recebam tratamento adequado. Transtornos de humor também são doenças, não podemos esquecer disso.

Por Lugares Incríveis
Jennifer Niven
Tradução: Alexandra Esteche
Editora Seguinte
336 páginas
Ano de publicação: 2015 

Sobre o que é: Violet Markey tinha uma vida perfeita, mas todos os seus planos deixam de fazer sentido quando ela e a irmã sofrem um acidente de carro e apenas Violet sobrevive. Sentindo-se culpada pelo que aconteceu, Violet se afasta de todos e tenta descobrir como seguir em frente. Theodore Finch é o esquisito da escola, perseguido pelos valentões e obrigado a lidar com longos períodos de depressão, o pai violento e a apatia do resto da família.
Enquanto Violet conta os dias para o fim das aulas, quando poderá ir embora da cidadezinha onde mora, Finch pesquisa diferentes métodos de suicídio e imagina se conseguiria levar algum deles adiante. Em uma dessas tentativas, ele vai parar no alto da torre da escola e, para sua surpresa, encontra Violet, também prestes a pular. Um ajuda o outro a sair dali, e essa dupla improvável se une para fazer um trabalho de geografia: visitar os lugares incríveis do estado onde moram. Nessas andanças, Finch encontra em Violet alguém com quem finalmente pode ser ele mesmo, e a garota para de contar os dias e passa a vivê-los.

Um projeto de aula acaba sendo a chance perfeita para uni-los, o que acontece por um certo período de tempo. Eles parecem inseparáveis. Vão a lugares comuns, porém incríveis nos pequenos significados e particularidades de cada um. Nisso, assemelham-se a O escolhido foi você, de Miranda July, encontrando pequenos tesouros em pessoas que muitas vezes passam despercebidas no dia a dia. É tudo muito bonito e inspirador. Há trechos que destaquei e reli algumas vezes antes de prosseguir a leitura. A jornada de Violet e Finch é repleta de contratempos, mas eles conseguem extrair o melhor do ordinário - porém, isso não os exime da dor, não os permite fugir de si mesmos.

Finch é bipolar. Violet está em depressão. Embora sejam transtornos diferentes, talvez a real diferença entre ambos é que Violet vem de uma família acolhedora, possui uma rede de amigos, tem com quem conversar, se quiser. Finch não. Sua mãe mal fala com ele, o pai é um agressor, as irmãs são distantes... Ele se tranca no quarto e quase ninguém nota sua ausência. Ninguém mais presta atenção às "esquisitices" de Finch e o reduzem a "maluco" ou a "weirdo".

"De acordo com a minha experiência, as pessoas são muito mais compreensivas se conseguem ver a sua doença, e mela milionésima vez na vida eu desejei ter sarampo ou varíola ou alguma outra coisa facilmente verificável só pra ficar mais fácil pra mim e pra todo mundo."

Por Lugares Incríveis é um livro muito triste e delicado. Mexeu comigo de diversas formas, talvez pelo momento que eu estava vivendo, com um encerramento de ciclo e início de uma grande incerteza, semelhante a Violet, de certa forma; talvez por todo o clima de chegada da pandemia e da leitura ser repleta de reflexões sobre vida e morte, sobre saúde mental e cuidados emocionais que precisamos ter para sobreviver. Embora ele tenha suas falhas - e, honestamente, não sei se o recomendaria a todos, por ser realmente um livro repleto de gatilhos sobre suicídio, bipolaridade e depressão -, possui acertos necessários, especialmente para o público mais jovem. São temas que precisam ser discutidos.

Atenção: spoilers a seguir

O final é devastador. A vontade era de entrar no livro, segurar a mão do Finch e não largá-la mais. No fim, há sempre muitos questionamentos e culpa - teria feito a diferença se ela tivesse estado com ele? Ninguém sabe, porque assim é a vida. É um sentimento horrível que a autora escolheu eternizar na narrativa justamente por ter passado por algo semelhante quando tinha a idade dos personagens. Mas saber disso não torna a leitura mais fácil, muito pelo contrário.

O suicídio mostrado no livro é brutal. Nunca é bonito ler ou assistir a um personagem suicidando-se, mas quando se trata de adolescentes, tudo fica ainda mais difícil. Não considero esse um livro com uma lição de moral, embora seja possível extrair uma dele: transtornos mentais são coisa séria, não banalize aquilo pelo qual as pessoas à sua volta estão passando. Contudo, apesar de essa ser uma mensagem audível no livro, parece que Jennifer Niven o escreveu para aliviar algo que a atormentou durante muito tempo. Ela, assim como Violet, sobreviveu. E sobreviver a uma situação dessas é traumático.

Violet e Finch são adolescentes que se conhecem durante uma tentativa de suicídio. Eles passam tempo juntos, saem e apaixonam-se. Mas o amor não salva ninguém de um transtorno psicológico. Não sozinho, não sem ajuda. E isso dói demais.

“Não preciso me preocupar com o fato de Finch e eu não termos filmado nossas andanças. Tudo bem não termos recolhido lembranças nem tido tempo de organizar tudo de um jeito que fizesse sentido pra outra pessoa.
O que percebo agora é que o que importa não é o que a gente leva, mas o que a gente deixa.


Se interessou pelo livro? Você pode encontrá-lo aqui. 

1 Comentários

  1. A resenha me fez querer lê-lo, Mia. Parece, mesmo, uma história interessante.
    Estou numa fase de ler livros densos, pesados... Acabei, pela quarta vez, "A redoma de vidro", e creio que minha próxima leitura será este "Por lugares incríveis".
    Obrigado por partilhar suas impressões conosco.

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