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Minha coisa favorita é monstro, de Emil Ferris


Premiada em três categorias no Prêmio Eisner — uma espécie de Oscar dos quadrinhos —, Minha Coisa Favorita é Monstro é muito mais do que apenas uma graphic novel aclamada no meio artístico. Aos 57 anos, Emil Ferris criou algo complexo, repleto de camadas, que demorou cinco anos para ser finalizado mesmo com a autora trabalhando durante doze horas diariamente em cima das detalhistas 416 páginas que compõem essa obra-prima. A história, contada por meio de ilustrações da autora, como se não fosse interessante o suficiente, assume contornos ainda mais incríveis quando paramos para entender o processo que levou Ferris a colocá-la no mundo.

Aos 40 anos, a então desenhista e designer contraiu Febre do Nilo Ocidental, doença que não costuma causar nada muito grave nas pessoas. Contudo, em seu caso, ela teve, em consequência da doença, paralisia nas pernas e na mão direita. Para uma ilustradora freelancer e mãe-solo, isso não foi nada fácil, pois se viu impossibilitada de trabalhar — trabalho esse que não é apenas seu meio de sustento, como também sua forma de expressão criativa. Entretanto, Ferris não desistiu e, após anos de fisioterapia e tratamentos, conseguiu adquirir uma nova técnica para desenhar. Foi assim que nasceu Minha Coisa Favorita é Monstro, uma história riquíssima cujos traços, feitos inteiramente com canetas esferográficas, revelam também um pouco da trajetória de sua autora.

Não é tarefa fácil resumir a história contada na graphic novel, mas, em linhas gerais, se pode dizer que essa é uma história de crescimento. Karen Reyes, a protagonista, é uma menina de 10 anos que vive na cidade de Chicago em meados da década de 1960. Quando sua vizinha, Anka, uma judia sobrevivente do holocausto, é assassinada, Karen resolve investigar o mistério que cerca essa morte. A partir disso, somos apresentados ao mundo de Karen, um mundo em que ela fantasia ser uma lobismoça, desenhando nas páginas de seu diário o que lhe acontece e como ela reagiria às situações à sua volta se seu maior desejo fosse transformado em realidade e ela se tornasse um monstro. No entanto, os únicos monstros reais da história são homens que adquirem um aspecto monstruoso não por suas feições, mas sim por suas atitudes terríveis que causam mal aos outros. Assassinos, nazistas, pedófilos, estupradores, xenófobos e homens emocionalmente abusivos, todos eles compõem o quadro monstruoso que atormenta a vida de Karen e das pessoas que ela conhece. Conforme o tempo passa, Karen descobre que sua coisa favorita é monstro, mas somente aqueles dos filmes antigos e das revistas de terror que ela tanto ama.

A Chicago de Emil Ferris é uma cidade de sombras, onde todos tentam ser algo além do que são. É uma cidade de abusos, de tristezas e de magia, em que as pessoas disfarçam seus problemas com narrativas inventadas para si mesmas, sempre no limiar entre enredos mirabolantes que de fato aconteceram e a autoficção. As personagens de Minha Coisa Favorita é Monstro são muitas, e Chicago é uma delas, respirando um ar cíclico onde tudo passa, mas tudo é o mesmo. Suas ruas, repletas de fumaça, escondem segredos tão abertos que só não são percebidos com muito esforço ou muita inocência. Karen, apesar de seu gosto por filmes e revistas sobre monstros, é muito inocente e não percebe as coisas reais até que seja tarde demais. No entanto, apesar de seu olhar infantil e de certamente correr perigo por conta dele, a cidade parece proteger a menina, que passa quase incólume durante aqueles terríveis anos para se ser mulher e imigrante em um local como Chicago.


Em diversas entrevistas, Emil Ferris declarou ter baseado a história da graphic novel em suas próprias memórias da infância. Ela, assim como Karen, também descendente de imigrantes mexicanos, veio de uma família muito pobre e sua única escapatória da realidade opressora que a cercava era seu diário, onde desenhava com canetas esferográficas o que lhe acontecia e o que desejava que lhe acontecesse. Ao começar a desenhar a história de Karen, Ferris não sabia que canetas esferográficas não são comumente usadas no mundo dos quadrinhos por serem mais difíceis de obter um traço perfeito e bem preenchido. Ela queria deixar sua história o mais parecida possível com seus cadernos de infância, onde registrava o tempo e abria a imaginação. Para isso, desenhou tudo em cadernos com canetas de verdade. Apesar de impressões em gráficas nunca serem a mesma coisa do desenho original feito a mão, a editora preservou as linhas das páginas para que parecessem folhas de um caderno de fato, o que dá um tom ainda mais autoral à obra.

Além de sua origem mexicana e da xenofobia que sofreu por conta disso, Ferris também incorporou à obra um delicado retrato de uma menina se descobrindo lésbica. A autora, que é bissexual, decidiu construir Karen como uma criança se percebendo homoafetiva em um momento particularmente tocante da história em que ela se assume para seu irmão, DeZê, que lhe acolhe em sua decisão, mas pede para que ela não a revele aos outros, pois isso poderia causar-lhe dor. Seu irmão é uma das personagens que habitam o universo da menina e sua maior referência para arte. É ele quem a leva a museus, foi ele quem lhe ensinou a desenhar e também é ele quem cuida dela, para que as coisas ruins daquela cidade não lhe atinjam. No entanto, DeZê possui um lado sombrio muito aguçado, representado por Karen, em seu diário, como um monstro real que se esconde em uma caverna na maior parte do tempo. Karen não tem total conhecimento de quem é seu irmão e, por isso, lhe admira incondicionalmente. Todavia, é deixado explícito na obra o quão perigoso e abusivo ele é, ameaçando mulheres, fazendo uso de seus corpos quando em situação de prostituição e sendo agressivo a quase todo instante.

É interessante a construção de personagem que Emil Ferris fez na narrativa de DeZê. Como o mundo que conhecemos na história nos é apresentado através dos olhos de uma criança, há muitas coisas que não são mostradas abertamente. Porém, é possível perceber que, mesmo sendo querido e protetor com Karen, DeZê ainda é um homem péssimo. A intenção da autora com isso parece ter sido mostrar que tudo possui nuances e não é porque alguém nos trata com gentileza que aquela seja uma boa pessoa. Um abusador pode tratar bem a irmã, e ainda assim ter sangue nas mãos no final do dia. A monstruosidade nem sempre está na cara.

DeZê abusa de mulheres prostituídas e tudo parece bem para ele a esse respeito, pois esse era um costume da sociedade da época bem difundido entre os homens. Contudo, a autora consegue problematizar a prostituição de forma delicada, abordando o tema com muitas personagens prostituídas na história. Boa parte do livro é formada pelo relato da vida de Anka, a mulher assassinada ainda nas páginas iniciais. Embora Karen seja protegida do mundo doloroso que a cerca, ela sabe que seu irmão anda com muitas mulheres e que elas são destruídas após passarem pela vida dele. Mas é através do relato de Anka, gravado em uma fita cassete, que Karen descobre de fato o que é a prostituição e o quão errada é a desumanização por que essas mulheres passam.

Anka, uma menina judia vivendo na Alemanha nazista, é vendida para ser prostituída em uma “farmácia”, termo usado para designar casas de prostituição particulares, onde crianças eram servidas como remédios para homens pedófilos. Quando finalmente conseguiu fugir dos nazistas e pedófilos, Anka foi para os Estados Unidos viver sua vida em paz, mas nem assim conseguiu, pois as pessoas — homens e mulheres — não a respeitavam por conta de seu passado. Mulheres são culpadas por tudo, inclusive por aquilo que elas não podem controlar, e o corpo de Anka, controlado por pedófilos e nazistas, estava estigmatizado para sempre por algo que ela não escolheu. É doloroso ler o relato de Anka, pois ele não é diferente do relato de diversas mulheres que passaram por situações semelhantes e ainda são desprezadas por causa disso.

Em entrevista, a autora disse que “Ser mulher é uma das encarnações mais perigosas pelas quais a alma humana pode se aventurar”. Sua obra, repleta de histórias de mulheres marginalizadas pela sociedade, violentadas e oprimidas de várias maneiras, mostra bem isso. Ela ainda disse que escreveu esse livro para as pessoas solitárias, para que elas encontrassem espelhos e não se sentissem tão sozinhas. Sempre haverá garotas que gostam de terror, afinal, e que precisam enfrentar o mundo e seus preconceitos sozinhas por serem rejeitadas pela sociedade por não seguirem um padrão pré-estabelecido de feminilidade.

O terror é sempre social. Ele nos mostra, de forma onírica ou invocando elementos sobrenaturais, aspectos da sociedade que muitas vezes não percebemos. Por mais que Minha Coisa Favorita é Monstro não seja uma história necessariamente de terror, se pode dizer que ela se encaixa no gênero pela descoberta do mundo monstruoso, mas real, por uma criança que, desde cedo, tem de aprender a lidar com o ódio às mulheres, às pessoas homoafetivas e estrangeiros. Nenhuma história de terror nasce alheia à sua época, e essa não é diferente. Apesar de se passar no final da década de 1960, os temas nela abordados são atuais e relevantes. Emil Ferris conseguiu discuti-los com profundidade, sem tirar a leveza infantil da narrativa, que perpassa por abusos, assassinatos, segredos e violência.

Os temas do ódio ao estrangeiro, ódio às mulheres e a pessoas LGBTQ+ estão em voga com a ascensão da nova extrema-direita em todo o mundo. As pessoas parecem ter perdido o medo de serem repreendidas por seus preconceitos ou de sofrerem consequências por seus atos maldosos. Na era da pós-verdade, tudo possui mil interpretações, e quem sai perdendo são as minorias, como sempre. A obra de Emil Ferris é atual e nela podem ser encontradas muitas coisas que vemos no dia-a-dia, ainda que os anos 1960 estejam décadas para trás.

1 Comentários

  1. Mas menina, essa HQ já me apareceu 3 vezes nos últimos dias. vou ter que ler. ahshahsa
    Esses desenhos feitos com caneta são a coisa mais linda! *-* Fora que esse contexto em que a autora criou a história, nossa, baita superação.
    Beijos!

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