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literatura & diarices

Cara de poucos amigos

Helen of Troy, de Frederick Sandys (1867) 
Eu me arrependo das mensagens que envio assim que aperto o enter. Tweeto coisas e logo penso que são ridículas. Meus impulsos gritam para apagar tudo o que posto, mas insisto em não dar ouvidos porque a vida seria insustentável caso me permitisse ser julgada por um público inexistente a cada pequena frase escrita. O que é ridículo porque primeiro "que público, querida, as vozes da tua cabeça?", e segundo: quem se importa? 

Não é que realmente importe, ao menos para ninguém além de mim. Mas cá estamos, com um diploma em jornalismo, trabalhando em comunicação, há mais de uma década escrevendo na internet e ainda me sentindo ridícula até mesmo por postar uma foto. Por que eu insisto em algo que me faz sentir ridícula é uma questão diária cuja resposta provavelmente é algo entre "para não falar sozinha com os meus divertidamente" e "porque sim". 

Recentemente, descobri que meu ascendente está em sagitário. Foi uma surpresa porque isso não faz muito sentido com a forma como me entendo no mundo. Mas o ponto é que isso me forçou a encarar um aspecto de mim do qual eu fujo tal qual o diabo da cruz: a minha completa inadequação social. Quer dizer, eu tenho um diploma em comunicação, sabe? Eu fiz quatro anos e meio de um curso que teoricamente me ensinou a falar com as pessoas, a transmitir notícias e informações importantes. Foram anos de faculdade que deveriam ter me ensinado a abordar um assunto da melhor maneira possível. Mas cá estamos, falhando miseravelmente no processo e me sentindo ridícula toda vez que preciso mandar mensagem para alguém. 

Eu não sei falar com as pessoas. Tenho amigos com quem não falo há muito tempo porque simplesmente não sei como chegar e mandar uma mensagem. Enrolo tarefas simples, como mandar um e-mail, por meses porque tenho horror a conversar com quem quer que seja - sim, isso se aplica a pessoas próximas também. Eu sempre acho que estou incomodando, que estou sendo um fardo, que a pessoa do outro lado está lendo a minha mensagem e rindo de mim ou revirando os olhos ou tirando print para mostrar o quão ridícula eu sou. 

Há alguns anos, quando eu era uma pessoa que saía de casa para socializar (quem lembra desses tempos, hein), acompanhei uma amiga a um centro de estudos astrológicos barra coven barra ateliê espiritual. Lá, depois que ela fez uma sessão de alguma coisa para realinhar os chakras ou algo assim, tivemos uma bela conversa com uma das mulheres que trabalhava/morava no local. Ela era uma astróloga que tinha uns métodos interessantes na hora de ler pessoas e ajudá-las a encontrar seu propósito. Conversa vai, conversa vem, ela me diz que as pessoas interpretam mal toda a ideia de mapa astral, concentrando-se no posicionamento solar como algo definidor quando, na verdade, o sol é o seu desafio pessoal, aquilo que você deve alcançar, e seu ascendente e sua lua são mais quem você é em essência. Se isso é verdade não faço ideia, mas poderia fazer algum sentido que meu desafio fosse o da comunicação (sol em aquário) e meu eu real fosse representado pelo ascendente em escorpião e a lua em câncer, ou seja, o tormento da introversão em pessoa. Mas e esse ascendente em sagitário, como a gente encaixa? E essa suposta extroversão que eu deveria ter, a gente explica como? 

O personare diz que "Pessoas que nascem com o ascendente no signo de Sagitário tendem a ser consideradas a 'alma da festa' onde quer que estejam, pois inspiram os outros com sua energia e postura amigável". E assim, sem querer ofender, mas a única festa da qual eu poderia ser a alma seria a de uma séance entre Emily Brontë, Álvares de Azevedo e Mary Shelley, sabe? Não é como se eu estivesse esbanjando energia, felicidade e empolgação por aí. 

Se o ascendente é como nos apresentamos para o mundo, eu devo ter vindo com defeito, porque um diploma em comunicação, anos de trabalho na área e ser obrigada a falar com pessoas todos os dias não me fizeram ser nem um pouquinho mais desenvolta. Cada vez que vou falar com alguém, faço questão de ser o mais gentil possível. Se puder usar emojis, usarei, porque caso contrário a outra pessoa sempre, sempre, sempre achará que eu estou sendo sarcástica ou irônica ou que eu estou inexplicavelmente irritada com ela. Sendo que, na maior parte do tempo, eu estou tranquilíssima. Mas a impressão que eu passo é a de quem está prestes a quebrar a cara de alguém. 

Astrologia, eu quero acreditar em você, me ajuda aí. 



A Gabi e a Aline criaram a Estação Blogagem, uma iniciativa para agitar a blogosfera. Este texto é parte da segunda semana do projeto. 
 

tema de 8 a 14.11: espadas
O naipe de espadas diz sobre algo que acontece no plano mental: a racionalidade, a ideologia, a verdade. Mas também fala sobre os problemas que só existem na nossa cabeça, que tanto nos pressionam e criam grandes conflitos internos. Que tal falarmos mais sobre isso? Publique no seu blog e participe da blogagem coletiva: #estacaoblogagem.

3 Comentários

  1. mia, ri muito com o final do texto, hahahahah! às vezes penso também que nós nos colocamos em uns lugares que achamos que servem pra gente, mas impedimos, por conta disso, que possamos também nos ver de diferentes formas. acho que esse susto com o mapa astral de repente pode ser uma boa de analisar como vem e pra onde vai esse sentimento de ser ridícula com as outras pessoas -- ainda mais porque te acho 0 ridícula e 100% pertinente nas suas colocações. talvez o mundo precise mesmo ver mais mia por aí! <3

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  2. o fantasma da síndrome do impostor sempre rondando nossas vidas.

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  3. Acompanho o seu blog, e a alguns outros, a vários anos e quase nunca comento pelos mesmos medos que você narrou. Estou tentando enfrentar esses grilos, postar no meu blog, falar com pessoas... Não sei se um dia esse sentimento vai passar de todo, mas espero poder conviver com ele.

    Sobre a faculdade de comunicação. Acredito que, algumas vezes, a gente escolhe uma graduação não porque se ache bom naquilo (de início) mas porque quer ser. Então o esforço "vale a pena". Ao menos é isso que estou dizendo para mim em todas as crises de "não sou boa o suficiente para esse curso".

    E para terminar, admiro bastante os seus textos. Sempre saio uma pessoa melhor depois de ler seu blog. :)

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