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Meu ano de descanso e relaxamento, de Ottessa Moshfegh


O sono é o seu superpoder — ao menos é isso o que o cientista do sono Matt Walker afirmou em uma palestra para o TED Talk. A palestra, que dura cerca de vinte minutos, afirma categoricamente que o sono não serve apenas para o descanso, mas literalmente pode significar a diferença entre a vida e a morte. Quando dormimos as oito horas recomendadas por noite, o corpo age naturalmente e as defesas do organismo trabalham bem. Sete horas de sono já são um risco à saúde. Seis, nem se fala. Conforme vamos perdendo o sono para compensar o trabalho acumulado, por exemplo, também vamos jogando fora a nossa saúde mental e anos de vida. Dormir é o superpoder que o ser humano possui, mas não usa corretamente. No entanto, a narradora de Meu Ano de Descanso e Relaxamento sabe muito bem disso e abusa: seu plano é dormir por um ano inteiro, hibernar para curar feridas dentro de si. 

A premissa do lançamento da autora norte-americana Ottessa Moshfegh pode parecer chocante, mas faz sentido. Dormir, de fato, ajuda em muita coisa. Contudo, o que a protagonista desse livro tão contemporâneo faz não é simplesmente dormir, mas se entregar a uma série de remédios controlados com o objetivo de permanecer dopada a ponto de não sentir mais nada. A narradora é uma jovem de vinte e seis anos que aparentemente possui tudo para ser feliz: é o padrão de beleza em pessoa, loira, alta, olhos claros e magérrima, herdou uma fortuna tão grande dos pais que não precisa trabalhar para se sustentar e é formada em História da Arte, área na qual possui contatos suficientes para se fazer conhecida. Porém, isso não vale de nada para ela. A depressão que a acompanha faz com que tudo pareça sem graça. 

Não conseguindo lidar com o mundo que a cerca e achando tudo sem sentido, a narradora sem nome começa a usar seu horário de almoço no trabalho em uma galeria de arte de Nova York para se enfiar em um armário e dormir. Quando finalmente perde o emprego simplesmente por não se importar com o trabalho e por mal conseguir se manter acordada, ela resolve tirar um ano para descansar. Para tal, procura por uma psiquiatra nas páginas amarelas da lista telefônica, com quem passa a ter consultas mensais que se resumem a perguntas de praxe, de cujas respostas a psiquiatra nunca lembra, e receitas de medicamentos controlados indicados para insônia, depressão, ansiedade e outros problemas psicológicos, todos destinados a fazer a narradora dormir constantemente. Algumas drogas são inventadas, como o Infermiterol, que a faz apagar por três dias em um estado de não-consciência ativa, andando pela cidade e fazendo coisas das quais não lembra, mas cujas marcas a assombram ao despertar. Outras existem e são muito comuns: lítio, Lorax, Stilnox, Gardenal, Donaren. Não são poucas as pessoas que as tomam, especialmente quando paramos para olhar os dados: de acordo com a OMS, a depressão afeta 322 milhões de pessoas no mundo. Se essa é a nossa realidade de agora, no entanto, a história do livro se passa no ano 2000, quando o que sabíamos sobre depressão ainda não era tão estruturado e havia uma verdadeira epidemia nos EUA de remédios antidepressivos para curar tudo. 

É difícil gostar da narradora. Ela tem tudo: dinheiro, padrão de beleza e liberdade, mas não consegue transformar nada em algo positivo. Além disso, possui uma verdadeira aversão por pessoas, é irresponsável, não consegue retribuir sentimentos e não conserva laços com ninguém, nem com Reva, sua melhor amiga e a única pessoa que realmente se preocupa com ela. Porém, Reva também é detestável. Extremamente fútil e gordofóbica, ela gosta da amiga, mas ao mesmo tempo não consegue lidar com o sentimento de que ela deveria estar no lugar da outra, já que saberia valorizar as facilidades que a narradora possui. 

De certa forma, Otessa Moshfegh segue a tradição iniciada por Emily Brontë na literatura ocidental com seu O Morro dos Ventos Uivantes ao escrever personagens horríveis como protagonistas, especialmente mulheres. Assim como o filho único da irmã Brontë mais famosa, o que torna o livro de Moshfegh tão atrativo é o fato de todos os personagens ali descritos, desde a narradora e protagonista até Ping Xi, o artista underground que a ajuda a se manter em um estado de sono quase ininterrupto, são pessoas horríveis. E, portanto, factíveis. Ninguém é bonzinho na vida real. Podemos ser legais com as pessoas de quem gostamos e até nos esforçarmos para não fazer mal aos outros, mas todos possuímos um lado sombrio do qual não nos orgulhamos. Ler Meu Ano de Descanso e Relaxamento é também uma experiência de autodescoberta. São tantas as nuances problemáticas de personalidade ali descritas que é quase impossível para o leitor não se identificar com alguma delas. 

Otessa Moshfegh gosta de escrever mulheres difíceis, até mesmo repulsivas. Como já deixou bem claro em seus outros livros, ela não quer escrever mulheres queridas, educadas e exemplares. Emily Brontë já fazia isso no século XIX, mas personagens carismáticas e com dotes de mocinha transbordam na literatura, o que pode ser interessante, mas certamente não corresponde à realidade. Mulheres reais também podem ser repulsivas em certos aspectos. E escrever personagens que não correspondem a um padrão de feminilidade imposto durante séculos é uma forma de rebelião. Assim como é rebelde a narradora, que simplesmente larga tudo e vai dormir. 


Claro que aí entra o fator econômico. Ela dorme durante um ano porque pode fazer isso. Rica, herdeira, sem necessidade de trabalhar para se sustentar. Sob tais condições, é fácil simplesmente se dedicar à cura interna através do sono. Quase nenhuma de nós pode se dar a esse luxo, e é aí que entra Reva, a melhor amiga da narradora riquíssima e sonolenta. Reva é de família pobre, se esforçou muito para estar adequada ao padrão de beleza exigido naquele meio cultural da Nova York do ano 2000, mas sente certa raiva da amiga por vê-la desperdiçando tudo o que tem, se afundando em drogas para dormir e não cuidando de sua saúde, mental ou física. Reva também possui transtornos psicológicos, mas não tem tempo ou dinheiro para lidar com isso, já que precisa trabalhar para sobreviver e pagar o aluguel do apartamento minúsculo em que mora, tudo isso tendo de se esforçar arduamente para manter-se na moda, pois as pessoas de seu círculo certamente são do tipo que julgam outras apenas pela aparência. Ninguém é perfeito, nem mesmo as personagens com as quais mais podemos nos identificar. 

Ao contrário do que acontece em outras obras que tratam sobre a depressão feminina, como As Virgens Suicidas, o livro de Otessa Moshfegh não romantiza a tristeza feminina. Não há nada de bonito ou poético em estar triste e querer dormir o dia inteiro. Também ao contrário das narrativas clássicas de depressão feminina na literatura, como A Redoma de Vidro, a narradora do livro não pretende se suicidar. Por vezes assombrada pelo suicídio da mãe, que sofria de depressão e vivia dopada por todos os tipos de remédios que pudesse encontrar — caminho também percorrido pela filha —, há uma aproximação entre elas no pós-morte quando a filha se dá conta do porquê a mãe passava o dia inteiro sob a influência de remédios que a deixavam desligada. Desligar-se pode ser a única solução que se tem às vezes para sobreviver em um mundo que não parece lhe acolher. No entanto, a narradora quer sobreviver. O suicídio, apesar de presente na história, não é o objetivo da personagem. Há uma mudança de narrativa sobre como encaramos a depressão atualmente aqui. Existem alternativas — ao menos quando você tem condições financeiras para isso, como é o caso da narradora. Infelizmente, nem todas temos as condições para lidar com nossa tristeza de forma a renascer melhor quando o processo estiver no fim. O autocuidado também é uma questão de classe. 

“’Nasci no privilégio’, eu disse. ‘Não vou jogar isso fora, não sou idiota.’”


Se o objetivo da psicoterapia é fazer com que a pessoa consiga lidar com seu sofrimento e se compreender melhor, não é essa a prática presente no livro. A narradora vai direto para uma psiquiatra, encontrada aleatoriamente nas páginas amarelas da lista telefônica, que descuidadamente lhe entope com remédios para dormir. Não há uma verificação, uma conversa real, nem um esboço de psicoterapia. A narradora simplesmente vai lá, explica que não consegue dormir e ganha diversas receitas de remédios que lhe provocarão o sono. É absurdo, e certamente não é a forma correta de elaborar um problema como a depressão. Apesar de parecer tentador, especialmente nos tempos em que estamos vivendo, quando cada olhadela nas notícias pode nos fazer querer morrer por angústia, desespero e medo do que está acontecendo com o país, se entupir de remédios e dormir indefinidamente não é a solução. Mas, para a narradora, é uma ferramenta de sobrevivência. 

“Não que eu estivesse me suicidando. Na verdade era o oposto de um suicídio. Minha hibernação era uma medida de autopreservação. Eu achava que aquilo salvaria minha vida.” 


Tomar remédios para dormir por um ano inteiro é uma forma de se alienar do mundo e de si mesma. Mas usar as redes sociais constantemente, muitas vezes passando horas e horas assistindo a vídeos de filhotes de animais, também não pode ser considerada uma forma de alienação? Para Moshfegh, a alienação hoje em dia não está tanto no abuso de remédios para transtornos psiquiátricos, mas na forma como lidamos com a internet. Em entrevista, a autora disse que: “Acho que nos últimos 18 anos a tecnologia mudou as maneiras em que nos relacionamos com a realidade. Acho que é fácil olhar o atual presidente e culpá-lo dessa espécie de piada que sentimos que vivemos a nível cultural. Mas nós também temos certa parte de responsabilidade do ponto em que chegamos. Todo mundo passa o dia na internet. Essa foi a mudança mais profunda e a maior alienação que vivemos”. Contudo, apesar de haver verdade na fala de Moshfegh, não podemos abraçar uma perspectiva fatalista e deixar de lado o fato de que terapia é algo dispendioso e muitas vezes só o que temos é o que a internet pode nos oferecer para nos distrairmos de um mundo que parece desabar sobre nossas cabeças. Ainda bem que existem paliativos. 

“Enfim fazia algo que importava. O sono parecia produtivo. Algo estava sendo resolvido. No fundo do coração, eu sabia — talvez essa fosse a única coisa que meu coração sabia naquela época — que assim que eu tivesse dormido o suficiente ficaria bem. Eu me renovaria, renasceria. Seria uma pessoa totalmente nova, cada uma das minhas células se regeneraria a tal ponto que as antigas pareceriam memórias distantes encobertas pela névoa. Minha vida passada seria apenas um sonho, e eu poderia começar de novo sem arrependimentos, amparada pela felicidade e pela serenidade que teria acumulado em meu ano de descanso e relaxamento.” 


Um romance sobre uma mulher de vinte e poucos anos que se dopa até chegar ao ponto da hibernação fazer sucesso num mercado editorial que passa por um momento difícil não é algo que podemos deixar passar. É, antes de tudo, um alerta. O que nos chama atenção em um livro desses? Toda a arte é produto de seu tempo, e apesar do livro se passar no ano 2000, há um diálogo intenso a respeito de como lidamos com nossas depressões. Muitas vezes substituímos os antidepressivos por horas na internet ou fazendo maratona na Netflix, mas embora a forma de alívio possa variar, o desejo é o mesmo: afundar em um esquecimento momentâneo para não pensar no presente, para não sentir o passado. 

O escritor italiano Italo Calvino encerra um de seus mais célebres livro, As Cidades Invisíveis, com a seguinte citação: “O inferno dos vivos não é algo que será, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço”. A primeira maneira de não sofrer, de acordo com o autor, é se misturar ao inferno. A segunda é se alienando. A forma escolhida para a alienação difere. Pode ser através de música, literatura, cinema, jogos, redes sociais ou mesmo o sono, mas o objetivo é o mesmo: escapar do inferno, seja ele psicológico ou político. Sem uma dose de alienação é quase impossível sobreviver.

Embora ela se aliene a ponto de conseguir escapar do que a cerca, em um ato desesperado na crença de uma cura psicológica, não há redenção para a protagonista. Ela passa por esse ano de hibernação razoavelmente incólume, mas apesar de sentir que houve uma mudança em sua personalidade, tal transformação não é real, já que nada mais a comove, nem mesmo a morte de uma amiga. Ela embotou os sentidos e agora vive para ignorar a vida e emoldurar a arte. Não é o que estamos fazendo, afinal de contas? 


1 Comentários

  1. Eu amei essa reflexão, fiquei até com vontade de ler o livro. Quando você disse que as netflix p relaxar, e realmente funciona, é incrível.,

    beijossss
    Carol Justo | Justo Eu?!

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