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O instituto, de Stephen King

Na adolescência, tentei ler Stephen King algumas vezes, todas sem sucesso. Achava que suas histórias eram muito enroladas, demoravam para chegar ao desenvolvimento, passando muito tempo em descrições e apresentações para finalmente adentrar na trama. Essa ideia desvaneceu quando peguei emprestado da biblioteca da faculdade um exemplar de Sobre a Escrita, livro de King sobre seu processo de escrita. A partir do momento em que entendi como ele funciona enquanto escritor, assim como a estrutura de suas histórias, fiz as pazes com seus livros. 

Embora já tenha lido vários desde então, sempre me surpreendo com sua capacidade criativa, assim como com a maneira com que ele consegue fazer com que um livro torne-se difícil de largar. Há muitos livros de que gosto, mas cujas leituras foram demoradas pela prosa ser mais truncada. Isso não acontece com os livros de Stephen King, que leio com voracidade. (Claro que os profissionais do texto, tradutores, revisores e quem faz o copidesque, também possuem seu quinhão nisso.) 

Comecei a ler O Instituto num momento em que outras leituras não estavam fluindo por questões de ansiedade e/ou porque algumas escritas são mais difíceis do que outras. A ideia era me ater ao tema "terror", já que era outubro, então dei uma pausa nos outros livros e o escolhi. Foi uma excelente decisão. A leitura mostrou-se fluída desde o início, e embora eu a tenha deixado de lado por um tempinho, logo a retomei, finalizando-a em menos de dois dias. 

Stephen King fala muito sobre o destino, forças que não conhecemos, e faz muitas críticas sociais, especialmente dirigidas ao governo Trump. Aliás, a ideia por trás do livro, de que há pessoas que fazem de suas convicções pessoais políticas e que transformam-nas num culto coletivo e perigoso é genial e dialoga perfeitamente com o momento que estamos vivendo. 

O livro começa com a história de Tim, um ex-policial que perdeu seu emprego após um incidente polêmico. Embora seja fácil olhá-lo com desconfiança, ele parece um homem regido por uma força maior, um destino, talvez, que faz com que todas aquelas pequenas coisas o levem até uma cidadezinha de interior onde ele arranja trabalho como guarda noturno. Não era sua intenção inicial, mas é um local onde ele pode passar o tempo até decidir o que fazer de forma mais concreta. Sem vínculos com o mundo externo, a vida pacata daquela cidade torna-se também parte dele, e rapidamente ele conquista a confiança do pessoal da delegacia de polícia, já que se mostra verdadeiramente interessado e gentil. 

"Grandes eventos se apoiam em pequenos suportes."

Enquanto ele se aclimata ao local, o livro muda de foco e conhecemos Luke, um menino de doze anos que é um gênio precoce. Ele estuda numa escola especial para gênios e está se preparando para entrar em duas universidades no ano seguinte, pois os conhecimentos da escola, ainda que avançados, são limitadores para a capacidade intelectual de Luke. 

Conhecemos o menino e seus pais, que possuem uma rotina normal, na medida do possível, e têm um bom relacionamento com o filho. Prestes a realizarem uma grande mudança para acompanhá-lo na faculdade, uma equipe de pessoas altamente treinadas invade a casa de Luke, mata seus pais e o sequestra, levando-o para um local conhecido apenas como o Instituto. 

É pelos olhos de Luke que descobrimos que o Instituto é um local, possivelmente permitido pelo governo, que sequestra crianças e lá as mantêm fazendo diversos testes diários, tanto físicos quanto psicológicos. Seu objetivo é explorar a capacidade telecinética e telepática daquelas crianças. Mas elas não sabem nada além disso - tampouco nós, que somos informados à medida que Luke vai juntando as peças. 

Gosto de como Stephen King elaborou uma trama política e tão atual. Espero que não exista algo como o Instituto por aí, mas as motivações - e a estrutura - por trás dele é muito tangível. Pessoas que tomaram uma crença pessoal como algo a ser implementado na sociedade, ainda que prejudique a milhares de pessoas... É um discurso conhecido. 

O Instituto não é tão surpreendente para aqueles que assistiram a Stranger Things, mas é envolvente de uma forma que somente os livros do Stephen King conseguem ser. 


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2 Comentários

  1. Que história triste dessa criança. Estava lendo sua resenha e não consegui não me colocar no lugar dele. O mundo virou do avesso e ele ainda precisa achar forças para sair disso passando pelo luto.
    A muito tempo vi um filme do Stephen King, sede de vingança o nome em português, fiquei mega curiosa para ler o conto. Mas ainda não tive oportunidade de ler nenhuma história dele. :/

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    1. É realmente muito triste. O livro mascara a tristeza com toda a questão da aventura, do mistério, mas é bem triste mesmo. Porém, em várias passagens o luto é abordado, ainda que não de maneira adequada, mas aquela não era uma situação normal para que ele pudesse ser vivenciado como deveria, então ficou bem escrito.

      Nunca vi esse filme! Mas já li alguns contos dele e gostei bastante.

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