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Por que eu odiei a 5ª temporada de Outlander


Dentre as séries de ficção histórica ainda em exibição, Outlander é possivelmente a maior delas. Com cinco temporadas completas, a trama de viagem no tempo e amor de Claire (Caitriona Balfe) e Jamie (Sam Heughan) sofreu seus altos e baixos, mas prossegue com a mesma qualidade técnica do início — embora o mesmo não possa ser dito a respeito da qualidade narrativa. A 5ª temporada, que teve sua polêmica season finale em meados de maio, resgatou o que Outlander possui de melhor, mas também superou os limites daquilo que existe de pior em sua concepção. 

A temporada começa com um contexto mais político, nos lembrando de que a 4ª temporada terminou não somente com o encontro de Brianna (Sophie Skelton) e Roger (Richard Rankin), mas também com a convocação de Jamie para fazer parte do grupo de casacas vermelhos do exército britânico, à caça dos reguladores, escoceses em terras norte-americanas que tentaram fazer uma revolução contra o corrupto sistema de impostos da Coroa. Desde a temporada anterior, somos avisados que aquele período é o que imediatamente antecede a Revolução Americana. E, obviamente, os Frasers estão envolvidos em mais um acontecimento histórico importante, como sempre. Jamie, mesmo tentando manter sua integridade pessoal e não trair seu próprio povo, precisa escolher entre a vida que conquistou no Fraser’s Ridge e aquela que deixou para trás. Assim, ele torna-se um dos homens do governador Tryon (Tim Downie), alguém que tanto dá quanto tira daqueles a quem manipula. Ele sabe que ter o favor de Jamie é importante naquela região, mas certamente não sabe o peso do que pediu: a caça aos reguladores concentra-se na figura de Murtagh (Duncan Lacroix), padrinho de Jamie e chefe dos rebeldes escoceses. A lealdade de Jamie fica comprometida na talvez mais política temporada de Outlander

Mas nem só de política vive a série. Seu cerne ainda encontra-se nos relacionamentos pessoais, especialmente nos romances, e o primeiro episódio da quinta temporada nos mostra, a princípio, uma interação entre Jamie e Roger, que estão se preparando para o casamento deste com Brianna. O clima de tensão entre eles cresce logo nas primeiras cenas, enquanto Jamie ajuda Roger a fazer a barba com uma navalha. É impossível não lembrar, ao assistir um Jamie ameaçador, segurando a navalha contra o pescoço do futuro genro, do quanto Roger foi péssimo na temporada passada com Brianna e com toda a situação da paternidade do bebê. É perceptível o quanto Jamie ainda sente um certo temor e raiva dele e, por isso mesmo, torna-se interessante ver a dinâmica entre eles em momentos que exigem confiança mútua. Apesar de Jamie ser um homem gentil, na medida do possível, conseguimos ver que ele está, de certa forma, se segurando para manter a calma e não expulsar aquele insolente e inconfiável homem de sua casa. Ele faz questão de que Roger saiba onde ele está e quem tem a verdadeira autoridade. 

Contudo, apesar da falta de aprovação de Jamie, o casal vai em frente com a cerimônia de casamento, um dos únicos momentos tranquilos da temporada — talvez da série inteira. Ainda que Jamie esteja incomodado pelo caráter de Roger e também pela cerimônia ser presbiteriana, não católica, é interessante ver como ele e Claire relembram de seu próprio casamento, enquanto sua filha está no altar. Claro, sendo Outlander a série que é, a tranquilidade não dura muito, já que ninguém pode ser feliz por muito tempo na trama. O governador Tryon logo chega com uma milícia, exigindo de Jamie que ele cace até a morte seu padrinho, Murtagh. Além disso, numa conversa com Lorde John (David Berry), Jamie fica sabendo que Stephen Bonnet (Ed Speelers), o homem que estuprou sua filha na 4ª temporada, está vivo. Como desgraça pouca é bobagem, Brianna, acidentalmente, ouve essa conversa entre os dois, e toda a bagagem de seu trauma volta à tona nos episódios seguintes. 


“The Fiery Cross”, o primeiro episódio, poderia facilmente se chamar Take a Vow (“Faça um Voto”, em tradução livre), pois ele marca exatamente as dinâmicas entre personagens e lealdades que ocorrem nesse início de temporada e dão o tom para o que virá a seguir. O voto mais óbvio é o de casamento, entre Brianna e Roger, mas há também o voto entre Murtagh e Jamie, que é mostrado num flashback, com um Jamie ainda criança, que havia perdido a mãe, e passou a ser protegido por seu padrinho, que jurou nunca deixá-lo. Mas tal aliança, embora permanente no espírito de ambos, tem de ser fisicamente quebrada, pois não há como Jamie manter sua família e as pessoas que ali vivem colocando-se contra Tryon e sua sentença de morte a Murtagh. 

Embora o primeiro episódio nos dê o tom que se estenderá por toda a temporada, é no segundo que as coisas realmente começam a acontecer. Enquanto Jamie parte numa missão de caça contra os reguladores e em busca de Murtagh, com uma milícia comandada por um surpreendentemente justo Knox, Claire fica em Fraser’s Ridge, praticando sua medicina e ajudando as pessoas em seus afazeres. Mas tal prática não salva um dos homens do Ridge, que morre após sua mulher lhe aplicar mercúrio como cura para dores estomacais. Claire fica desesperada ao perceber o quão pouco aquelas pessoas sabem sobre medicina e resolve, com a ajuda de Roger, encher o caixão do pobre homem com pedras enquanto preserva seu corpo numa sala fechada para realizar a autópsia e ensinar Marsali (Lauren Lyle) a curar pessoas. A ligação entre Marsali e Claire é muito especial e é bonito ver como a dinâmica entre elas mudou com o passar dos episódios. Lembremos que Marsali é filha de Laoghaire (Nell Hudson), a mulher que mandou Claire para a fogueira por bruxaria num plano maquiavélico para ficar com Jamie. Mas toda a tensão inicial entre elas, apresentada na terceira temporada, acaba conforme elas vão convivendo — de perto, já que Marsali é casada com Fergus (César Domboy), filho adotivo do casal principal. Marsali passa a enxergar Claire como uma mãe e, ainda que ache muito estranhas as práticas de abrir cadáveres e estudar seus corpos, ela aceita ajudá-la e acaba se tornando uma excelente aprendiz. 

Mas Claire não se dá por satisfeita e decide que precisa fazer algo para ajudar as pessoas em Ridge, que ouvem conselhos médicos absurdos e morrem por simples infecções, que facilmente poderiam ser curadas. Ela escreve recomendações ousadas, vindas diretamente do século XX, para os moradores, sob o pseudônimo de Dr. Rawlings. E mais: ela também decide que viajar no tempo é inútil quando possui conhecimentos médicos comprovados e não pode utilizá-los por não possuir os medicamentos corretos. É nesse momento que Claire inventa a penicilina, dois séculos antes de ela ser descoberta. Cultivando mofo em pão, com o auxílio de Marsali, Claire consegue isolar o elemento principal da penicilina e passa a tratar seus pacientes dessa maneira. Decidida a não perder mais nenhuma vida por causas facilmente resolvíveis, ela arrisca a própria. Mas ela não seria Claire se não o fizesse — contra todos os conselhos de Brianna, que preocupa-se mais a cada dia com sua descuidada mãe. Brianna até mesmo chega a mencionar a Claire que inventar a penicilina dois séculos antes pode causar algum efeito no espaço-tempo, já que ambas, por mais assentadas que estejam no século XVIII, são viajantes do tempo. Mas Claire apenas profere um espirituoso “tempo, espaço, a história que se dane!” e segue com seus experimentos. É interessante observar que, para uma série cujo ponto central é a viagem no tempo, Outlander não possui nenhuma regra para tal além do fato de que os viajantes precisam estar carregando pedras preciosas para atravessar as barreiras de tempo e espaço através de pedras mágicas. A veracidade histórica — ou, ao menos, um esforço para tal — manda lembranças.

Enquanto isso acontece, o drama da volta de Stephen Bonnet, agora decidido a fazer parte da vida do filho de Brianna, começa a tomar corpo. Bree, cada vez com mais medo, passa a desenhar o rosto de Bonnet e o enxerga em todo lugar, coisa que Roger não é capaz de compreender — já que segue sendo o mesmo babaca da temporada anterior. Roger força Brianna a conversar a respeito do trauma, quando ela claramente não consegue fazê-lo. Ele também insiste que ambos precisam atravessar as pedras novamente e voltar para casa, levando Jemmy (Andrew e Matthew Adair), seu filho, junto. Claro, o século XX — nos anos 1970 — é bem mais seguro para criar um filho do que a Carolina do Norte nos anos imediatamente anteriores à Revolução Americana. Mas, ainda assim, toda a família de Bree encontra-se em Fraser’s Ridge. Não faz o menor sentido voltar somente por voltar. No entanto, Roger, como sempre, pensa somente em si e quer ser o “homem da casa”, comandando a vontade dela. É um desgosto ver esse homem na série, especialmente porque Bree é uma das melhores personagens de Outlander. Certamente, ela merecia coisa melhor.

É claro que precisamos sempre fazer o recorte e perceber que, além de todos os homens em Outlander serem problemáticos (sim, Jamie, eu estou olhando para você), Roger é um professor universitário dos anos 1960 e possui zero habilidades naquele rústico mundo do século XVIII. Ele quer voltar para casa, e quem não iria querer no lugar dele? Mas ele precisa aprender a respeitar as vontades de Bree. Ser um casal não se trata de fazer valer suas vontades ou de ganhar um argumento, mas sim de compreensão e cooperação. Roger e Bree podem se amar, mas ele não faz o mínimo esforço para agradá-la em nada. 


Outlander parece sempre nos reservar surpresas desagradáveis em seus quartos episódios, e isso não é diferente nessa temporada. Em “The Company We Keep”, somos apresentados a Brownsville, uma espécie de Fraser’s Ridge, mas, dessa vez, pertencente a Lionel Brown (Ned Dennehy) e sua família. Enquanto Jamie e Claire estavam longe, lidando com um verdadeiro episódio de filme de horror, em “Free Will”, Roger teve oportunidade de mostrar sua autoridade pela primeira vez dentro do núcleo familiar — e, também, militar — dos Frasers. Mas ele falha ao achar que embebedar homens enraivecidos vai solucionar todos os problemas. Lionel Brown é um homem terrível e abusivo que pretende matar um dos membros do Ridge, Isaiah Morton (Jon Tarcy), por ter tido um envolvimento com sua filha — relação que custou a ela um casamento com um homem rico. Agora desonrada, Ali (Anna Burnett), a filha de Brown, não seria aceita em casamento por ninguém. As regras patriarcais daquela sociedade são esfregadas na nossa cara durante esse episódio — assim como um dos grandes vilões de todos os tempos, a misoginia. 

Eventualmente, o conflito é resolvido, mas em nossa memória permanece a lembrança de que Lionel Brown e seus homens são agressivos, abusivos e que não medem consequências em nome do que eles chamam de honra. Obviamente, isso não acabaria bem. Mas tenho minhas ressalvas quanto ao desenvolvimento dado pela série nos episódios posteriores. 

Durante os dramas políticos da temporada, temos alguns momentos entre Roger e Bree que nos reafirmam o quão errado ele é. Quando encontra uma das joias que Bonnet deu para Brianna ao descobrir que ela estava grávida do, possivelmente, filho dele, Roger enlouquece de raiva e começa a gritar com ela, exigindo que ela lhe diga quem é o pai verdadeiro de Jemmy, como se ela pudesse saber. Como se já não fosse o suficiente ter de conviver diariamente com a lembrança do estupro que sofreu, agora seu marido, depois de fazê-la esperar por muito tempo por uma decisão, não consegue lidar com o fato de que ela sofreu um abuso sexual no mesmo dia em que transou com ele pela primeira vez e não há possibilidade de saber quem é o pai da criança. Mas a questão é que isso nem deveria importar, já que ele cria Jemmy com ela desde que o bebê tinha seus dois meses de idade. Porém, Roger precisa reafirmar sua insegurança masculina, assim como sua mente patriarcal, para que nós lembremos que por mais que seus grandes olhos azuis sejam bonitos e que sua voz seja melodiosa ao cantar belas canções para Brianna e Jemmy, ele não passa de um homem mesquinho e egoísta que ainda enxerga a esposa como propriedade dele.

As coisas melhoram entre Roger e Brianna no episódio seis, “Better to Marry Than Burn”: eles enfrentam apenas uma praga de gafanhotos e precisam salvar a plantação de Fraser’s Ridge. Mas, ao menos, Roger desculpou-se com Brianna e tenta não ser tão babaca assim. Contudo, esse episódio possui uma das cenas que mais me incomodaram em toda a temporada: a briga de Claire e Jamie. 

Ambos estão no casamento de Jocasta (Maria Doyle Kennedy) quando encontram Philip Wylie (Chris Donald), um homem pomposo que já havia aparecido anteriormente e possui, dentre seus muitos interesses, uma queda por Claire. De forma engenhosa, ele a leva até os estábulos e lá tenta transar com ela. As coisas não acontecem da forma como ele planejava e ele acaba sentado em cima de uma pilha de cocô de cavalo, empurrado por Claire, e com uma faca em seu pescoço, já que Jamie chega logo em seguida e percebe a situação. Mas é claro que não ficaria por isso mesmo, pois estamos falando de Outlander e ninguém pode ter paz nessa série. Tanto Claire quanto Jamie descobrem que Wylie possui ligações com Bonnet e tentam valer-se disso para caçá-lo e matá-lo antes que ele faça algum mal a Bree. Porém, a forma de fazê-lo, de acordo com Jamie, é desafiar Wylie em um jogo com uma aposta que envolve o anel de casamento de Claire com Frank Randall (Tobias Menzies, que faz uma falta absurda na série). Magoada e ofendida por Jamie ter oferecido algo tão precioso para ela em um jogo, ela tira também o anel de casamento dos dois e manda ele para o inferno. Dessa Claire senti saudade, já que ela não aparecia desde a 2ª temporada. 

Jamie vai lá, ganha a aposta, consegue o contato com Bonnet e arma a arapuca para pegá-lo. Aproveita, se embebeda até suas barreiras de bom moço caírem e encontra Claire, ainda nos estábulos, completamente irritada. O que ele faz? Diz coisas extremamente misóginas, fala sobre seu “lugar de mulher” e, em seguida, transa agressivamente com ela. Não chega a ser um estupro, mas é o mais próximo disso, com consentimento, que poderia ser. Esse Jamie, estúpido, agressivo e misógino ressoa o Jamie dos livros, que é extremamente abrandado na série. Mas não precisamos mais dele aparecendo por aí. Os produtores já modificaram tantas coisas dos livros, certamente poderiam modificar isso também — assim como tantas outras construções narrativas problemáticas. Outlander possui um fraco pela violência gratuita e pelo desmerecimento de mulheres, no entanto. 


E, então, chegamos ao sétimo episódio, “The Ballad of Roger Mac”, quando finalmente temos a batalha final entre os reguladores e a milícia de Tryon. Como já sabemos, a temporada possui todo um tom de lealdade e de “até onde você iria para proteger os seus?”. Jamie certamente não quer ver seu padrinho, Murtagh, morto, mas ele é o líder dos rebeldes reguladores e Jamie, obrigado a vestir a casaca vermelha, precisa combatê-lo. Mas em seus termos. 

Brianna, que brevemente estudou História Americana na faculdade, quando ainda desejava seguir os passos de seu pai, Frank, lembrou-se de que a Batalha de Alamance é considerada por muitos historiadores como o estopim da Revolução Americana. E mais: nela, os reguladores perdem. Alguém precisa avisar Murtagh das consequências dessa batalha e esse alguém precisa ser do futuro, para que ele saiba que o aviso é real. Então, Roger, que estava tentando ganhar a confiança do sogro, voluntaria-se para a missão. Obviamente, essa foi uma péssima ideia. Como bem sabemos pela Batalha de Culloden, os Frasers não conseguem mudar os acontecimentos fixos no tempo; eles podem apenas tentar salvar uma vida ou outra. Mas, nos livros, Murtagh não sobrevive a Culloden. Sua incursão nas temporadas seguintes é um desvio daquilo que Diana Gabaldon escreveu para seu personagem — mostrando, mais uma vez, como Outlander possui a capacidade de ir além dos livros, só não a utiliza porque não quer. Mas, seguindo em frente: sabemos que Murtagh não duraria muito. E é ainda mais devastador ver sua morte porque, apesar de todo o esforço de Roger para avisá-lo e do quanto Jamie tenta protegê-lo, ele morre em seus braços por alguém que seguiu um conselho de Jamie, que havia dito para não hesitar ao atirar. Murtagh morre no dia do aniversário de cinquenta anos de Jamie e é simplesmente horrível assistir tal cena pois, certamente, ele era um dos melhores personagens da série e seu vínculo com Jamie era bonito e tocante. Dizer adeus a Murtagh não é fácil, mas mal há tempo para isso, já que logo ficamos sabendo que Roger não voltou de sua missão. E é aí que começa um dos arcos mais dramáticos da série. 

Após avisar Murtagh de que aquela batalha estava perdida, Roger deveria ter voltado diretamente para o local onde Jamie e sua família estavam. Porém, sendo Roger quem é, ele precisa comportar-se de maneira inadequada para o local e a época e, ao encontrar Morag MacKenzie (Elysia Welch), sua ancestral e a mulher a quem salvou a vida do filho quando ambos eram passageiros do navio comandado por Bonnet, na quarta temporada, ele não resiste ao impulso de conversar com ela e abraçá-la. Claro, Roger só estava sendo afetuoso e ficou realmente emocionado com a presença daquela mulher, mas ele não deveria ter feito isso. Além de estar usando a peça que distingue os homens de Tryon dos reguladores, Roger abraçou uma mulher casada, na frente de todo mundo e, especialmente, do marido dela — no século XVIII. Logo, ele é capturado e pouco ficamos sabendo dele até que, após todo o drama da morte de Murtagh e da consciência de que Roger não voltou para o acampamento de Tryon, os Frasers vão procurá-lo entre os feridos da batalha.

Nesse momento, eles se deparam com alguns homens de Tryon, os casacas vermelhas, seguindo ordens do governador para enforcar os prisioneiros que os reguladores estavam mantendo (curiosidade: isso realmente aconteceu; o governador Tryon, que é uma figura histórica, de fato mandou enforcar alguns homens após a Batalha de Alamance, o que torna a cena muito mais interessante, pois existe um pedaço de história real ali). Os homens já estão nas árvores, com as cordas nos pescoços e os pés balançando ao vento, quando Jamie reconhece um detalhe da roupa de Roger e percebe que seu genro foi enforcado. Eles baixam o corpo de Roger e a cena corta, culminando no final do episódio. E, embora eu não goste de Roger, gosto ainda menos de ver Bree sofrer. Brianna merece ser feliz.

Felizmente, Roger não morreu. No oitavo episódio, “Famous Last Words”, ficamos sabendo que ele está vivo — por pouco, mas está. Três meses se passaram desde a Batalha de Alamance e Roger ainda tenta superar o trauma de ter sido enforcado e quase morto pelas mãos da Coroa. Roger nunca foi um personagem muito feliz, mas aqui o encontramos no auge de sua infelicidade. Tudo parece um filme mudo para ele — literalmente, já que ele perdeu a habilidade da fala após os eventos de Alamance. Claire afirma que isso é mais psicológico do que físico — claro, a voz dele estaria rouca, já que faz muito tempo que ele não fala e ele foi machucado, mas logo ele se recuperaria se tentasse. Contudo, ele está péssimo e não vê sentido em nada. Gosto particularmente da forma como a série decidiu abordar o trauma de Roger. Seus flashbacks acontecem como em um filme mudo, em preto e branco, com cenas que mostram ele sendo levado à forca e, em seguida, toda a agonia de não conseguir fugir dali, de saber que aqueles eram seus últimos momentos e de estar com um saco na cabeça, sem poder fazer nada além de esperar pela morte. É horrível e, de fato, traumático. Durante todo o episódio, tais cenas são mostradas quando Roger rememora aquilo por que passou. 


Bree e Claire não sabem mais o que fazer com Roger pois, durante três meses, ele não apenas não falou uma palavra como viveu completamente sem motivação. Elas conversam entre si sobre como o que ele está sofrendo é semelhante ao que ex-soldados experienciam ao voltar da guerra — o que nós conhecemos como estresse pós-traumático, mas que ainda não tinha esse nome na época de que originalmente vieram. Mas todo o comportamento de Roger cansa Bree porque ela também passou por um trauma. E ele simplesmente não tenta lutar, não tenta se recuperar, não dá uma brecha. No entanto, quando ela precisava de tempo para lidar com o abuso sexual que havia sofrido, ele não deu trégua alguma a ela, atormentando-a por episódios a fio. Agora, ela precisa ser paciente com um marido que nunca a apoiou. Brianna joga isso na cara dele, delicadamente, mas continua ali, tentando ajudá-lo porque, afinal, ela não é uma babaca. 

Paralelamente, o governador Tryon, querendo ficar em bons lençóis com Jamie, envia por intermédio de Lorde John uma carta onde concede uma porção grande de terras para Roger e Brianna. É claro que nenhum dos dois está interessado na proposta, não naquele momento, mas não se joga fora um pedaço de terra simplesmente porque você está triste. É providencial, portanto, que o Jovem Ian (John Bell) retorne. Um dia, enquanto brincavam com Jemmy, Claire e Jamie encontram Ian no meio da floresta, e o levam até Fraser’s Ridge. Mas Ian está diferente: ele está isolado, taciturno e arisco. Claro, ter passado alguns anos com os Mohawks certamente teve seu efeito, mas parece ser mais do que isso. Ian não quer conversar sobre o que aconteceu e simplesmente tenta ajudar em uma tarefa e outra enquanto parece profundamente atormentado. 

As terras concedidas por Tryon precisam ser demarcadas e Ian acompanha Roger nessa missão. Ambos estão completamente diferentes do que eram na temporada anterior e, embora Roger não pronuncie uma palavra sequer, eles possuem momentos intensos de conversa. Na imensidão da floresta, sozinhos, ambos enfrentam o dilema do suicídio. Não sabemos o que aconteceu com Ian, mas conhecemos a história de Roger e é difícil vê-lo pensando em pular de um precipício para acabar com a dor e o trauma. Não é menos difícil ver o doce e gentil Ian preparar um veneno mortal para ingerir e, assim, acabar com sua vida. Ambos estão deprimidos e traumatizados, mas se ajudam mutuamente e sobrevivem a si mesmos. É delicado, é bonito e doloroso ao mesmo tempo. É Outlander em sua melhor forma.


Roger redescobre sua voz ao tentar salvar Ian do suicídio. Ao retornarem para casa, eles ainda estão emocionalmente machucados, mas decidem dar outra chance à vida, e é isso o que importa. Roger, então, tem a primeira conversa com Bree desde os acontecimentos de Alamance. Ele lhe fala que uma parte dele morreu naquele dia, mas que ele ainda vai continuar — por ela.

Embora, com isso, a temporada corrija, de certa maneira, o comportamento indesculpável de Roger ao não entender Brianna após ela ter sido estuprada e ter parado para pensar se ainda poderia amá-la sabendo do que havia ocorrido com ela e também tendo a consciência de que o filho que ela carregava poderia não ser dele, é interessante ver como elaboraram um trauma também para ele que, a partir do momento em que passa por uma situação limite, começa a compreender melhor o que é estar traumatizado e não conseguir seguir em frente. Mas, ainda que essa tenha sido uma boa construção de personagem, é difícil realmente gostar da estrutura e do porquê isso é feito. O episódio é delicado, sensível e, honestamente, um dos melhores de toda a série. Mas suas motivações são erradas. Sim, é factível que Roger, ao encontrar-se secretamente com o exército dos reguladores, acabe enforcado. Mas ele não precisava de todo esse drama para entender que Brianna merece respeito. Ao fazer isso, Outlander basicamente diz que a única forma de um homem entender o trauma do estupro cometido contra uma mulher é ele também sofrer alguma violência extrema. 

Além disso ser completamente errado, também me incomoda outro ponto: todos ali, naquela família, foram estuprados, menos, felizmente, Roger (até então; com Outlander nunca se sabe quem será a próxima vítima no bingo do estupro), mas claramente os roteiristas e produtores sabem que existe mais de uma forma de causar um momento de trauma em seus personagens. Roger foi enforcado e não morreu por pouco, passando por um longo episódio de silêncio, pois perdeu a voz em consequência de questões psicológicas daquele momento. E, se retomarmos a 1ª temporada, poderemos lembrar que um dos melhores episódios de Outlander concentra-se no julgamento de bruxas, quando Claire e Geillis (Lotte Verbeek) são acusadas de bruxaria. Ali, também, nenhuma delas teve de sofrer abuso sexual para ser castigada ou passar por algum momento limite — apesar de que, se falarmos em rigor histórico, os julgamentos por bruxaria já estavam proibidos naquela época, então aquilo não teria acontecido. Às vezes, as pessoas esquecem que aconteciam muito mais violências no século XVIII do que somente o estupro. Utilizá-lo como o único recurso narrativo, além de preguiçoso, ofensivo e problemático, também é privar Outlander do que ela faz melhor: desenvolver episódios sensíveis sobre pessoas que encontram-se no limite. Não é necessário o uso de violência sexual para isso. Na verdade, não é necessário o uso de violência alguma, mas esse é o modus operandi da série. O maior problema, no entanto, é que Outlander se recusa a sair da narrativa do estupro como motivador para personagens, sendo que sabe trabalhar tão bem outros tipos de trauma. Existe mais uma maneira de sofrimento e, já que ninguém pode ser feliz na série, seria pelo menos melhor que eles explorassem mais os aspectos psicológicos de outras maneiras, como o momento entre Roger e Ian, do que insistindo na fórmula “estupro” como resposta para tudo. 


Insisto nesse tema porque infelizmente ele é presente em cada curva da série. Aparentemente, não há como se livrar de estupradores em Outlander. Mas, felizmente, temos um episódio que finalmente nos dá o que queremos: a cabeça de Stephen Bonnet. E, melhor ainda, pelas mãos de Brianna. Stephen Bonnet, aquele estuprador horroroso, que atormentou Brianna durante anos, finalmente está morto. Ao menos uma alegria tínhamos de ter nessa temporada. Mas, como Outlander é Outlander, as coisas não acontecem assim tão facilmente.

O plano para matar Bonnet falha e, quando Roger e Jamie percebem que foram ludibriados, já é tarde: Brianna fora raptada por Bonnet. Aqui, devo dar todos os créditos à atuação de Ed Speelers. Embora Bonnet seja um dos personagens mais detestáveis do mundo televisivo, Speelers realmente levou camadas psicológicas para ele que nos fazem compreender melhor como ele pensa e por que comete tantas atrocidades. Não que nós tenhamos que humanizar vilões. Mas é realmente surpreendente o quanto conseguimos enxergar da psique de Stephen Bonnet no décimo episódio, “Mercy Shall Follow Me”

Bonnet é claramente uma pessoa atormentada. Não há desculpas para os atos desse homem, mas seu grande plano na temporada é sequestrar Bree para que ela lhe ensine como ser um cavalheiro e, possivelmente, para que ela se apaixone por ele, pois ele acredita que o destino os uniu e lhes deu um filho para que ele mudasse de vida. Bonnet é aterrorizado pelo mar e detesta a vida que leva. Ele pretende ser um homem respeitável com Bree, Jemmy e a herança que Jocasta deixou para o filho de Brianna, sua mansão. Embora possamos pensar que as motivações reais de Bonnet sejam somente financeiras, existe muito mais ali do que isso. É terrível ver Brianna tentando escapar dele ao agradá-lo, contando-lhe a história de Moby Dick e ensinando-lhe maneiras à mesa. Mas também é fascinante perceber a dinâmica com que Bonnet justifica todas as crueldades que comete em nome da memória do menino que um dia fora, maltratado, que teve de aprender a se virar da maneira mais vantajosa possível. Novamente, não há como sentir pena de Stephen Bonnet, não após tudo o que ele fez na temporada passada, mas Brianna se compadece suficientemente para, quando todo aquele horror já estava terminado, não permitir que a justiça fosse feita da maneira como deveria. De acordo com as leis locais da época, Bonnet deveria morrer afogado. Amarrado a um mastro, enquanto a maré subia, ele era torturado lentamente pela visão da água que logo levaria sua vida. Brianna sabia que esse era o maior medo dele, pois ele lhe contara isso durante a leitura de Moby Dick. Então, ela o mata com um tiro na cabeça — antes que a água o alcance. Após Brianna matá-lo, Roger lhe pergunta se aquilo havia sido por misericórdia ou para ter certeza de que ele estava morto. Brianna não responde. Ela não quer responder, mas é visível como a resposta é: ambos. É claro que ela está mais aliviada do que ninguém agora que sabe que Bonnet definitivamente nunca mais aparecerá em sua vida, mas a verdade é que Brianna é uma pessoa melhor do que qualquer outra em Outlander e, por mais que ela odiasse aquele homem, não queria condená-lo a seu pior pesadelo. 

O penúltimo episódio da temporada, “Journeycake”, mostra Bree e Roger descobrindo que Jemmy, agora um menino que já anda e fala, possui a habilidade de viajar no tempo. Assim, eles decidem voltar para 1970 o mais rápido possível. O episódio todo é repleto de despedidas e, como deveria ser, é bem triste. Porém, é claro que isso não dá certo e ambos permanecem no século XVIII por mais um tempo já que — numa licença poética que lembra a Dorothy, de O Mágico de Oz —, ambos desejaram estar em “casa” quando atravessaram pelas pedras. Mas “casa”, para eles, agora possui outro significado, então eles estão de volta a Fraser’s Ridge a tempo de uma nova tragédia: Claire foi raptada, Marsali está inconsciente e ninguém sabe o que fazer. Nesse momento, passamos ao pior episódio que Outlander já produziu.


Outlander nunca foi uma série sutil. Quando ela é triste, ela é de fazer chorar por um bom tempo. Quando ela mostra romance, ela nos mostra momentos que poderiam definir o significado de amor verdadeiro. Mas, quando ela quer ser horrível, ela é simplesmente a pior coisa que já vi. E “Never My Love”, o último episódio da 5ª temporada, é o pior episódio da série. Não digo isso a respeito da qualidade porque, tecnicamente falando, Outlander nunca foi ruim. Mas o roteiro desse episódio é simplesmente horroroso. 

Dirigido por Jamie Payne e escrito por Matthew B. Roberts e Toni Graphia (baseados nos livros de Gabaldon), nele vemos que Lionel Brown não perdoou os Frasers pela ofensa de episódios anteriores e, assim que descobriu que Claire era o Dr. Rawlings, que andava aconselhando mulheres a como evitar uma gravidez indesejada, ele decidiu reunir um grupo com cerca de vinte homens e raptá-la. Conforme o episódio avançava, eu me percebia incrédula frente à tela, pensando que não, eles não poderiam fazer isso. Mas fizeram: Claire é vítima de um estupro coletivo no episódio. 

Já discorri muito sobre o quanto Outlander faz uso de estupro como recurso narrativo e o quão errado isso é, então não vou me ater muito a essa questão. Mas é preciso reforçar que o fato de a série enquadrar-se na categoria de ficção histórica não justifica o uso de estupro como ferramenta narrativa, não da forma como o fazem. Em primeiro lugar, porque não há dados suficientes que corroboram a ideia de que na América do Norte do século XVIII ocorriam mais estupros do que hoje — pelo contrário, as leis contra o ato eram bem mais severas do que as que temos atualmente. Talvez existissem mais estupros maritais, coisa de que não duvido, mas não podemos simplesmente passar pano para as péssimas escolhas de roteiro da série por ela se passar há duzentos anos. Isso não justifica nada. E, em segundo lugar, a própria Diana Gabaldon, assim como os produtores da série, Caitriona Balfe inclusa, disseram que o estupro de Claire possui sentido enquanto ferramenta para fortalecê-la. De acordo com eles, mostrar vinte homens estuprando Claire é dizer que uma pessoa pode passar por todo aquele horror e, ainda assim, sobreviver, pois o ser humano é resiliente — nas palavras de Gabaldon. 


Para os defensores ferrenhos da série que utilizam o argumento de que ela é baseada em livros, tal linha de pensamento é simplesmente falha já que, em diversos momentos, Outlander foge aos livros — inclusive na própria cena de estupro coletivo. Nos livros, Claire é estuprada por um homem, somente um, e sem toda a violência mostrada na série. Contudo, o que ocorre nos livros é que, após o estupro, ela é novamente estuprada por Jamie que a embebeda e a força a fazer sexo com ele para superar o trauma. Na série, vemos, de fato, ambos na cama após o sexo, que não é tratado como estupro marital, mas sim como uma forma de conexão entre eles. Embora eu tenha minhas ressalvas quanto a isso — afinal, ela havia sido estuprada por cerca de vinte homens há apenas dois dias, certamente não estava em condições, físicas ou psicológicas, de voltar a qualquer tipo de atividade sexual tão cedo —, certamente foi melhor que a série tenha modificado essa cena do que simplesmente consentir num estupro marital como forma de superação de trauma. 

Ainda assim, isso mais uma vez mostra como Outlander é conivente com a violência sexual. Eles modificam coisas importantes dos livros a todo momento, mas não são capazes de fazer com que suas personagens passem uma temporada sequer sem serem estupradas. Talvez as únicas coisas boas desse episódio são os momentos dissociativos de Claire, que passa a viver uma realidade alternativa, num jantar situado nos anos 1960, em sua mente, para não lidar com o doloroso presente. Isso foi delicado e a montagem é bonita, mas, novamente, não precisaria ter sido feito caso não tivessem ido adiante com a péssima ideia do estupro coletivo. Outro momento é quando os homens de Fraser’s Ridge encontram-na, amarrada e completamente sem forças, e matam a todos os homens que a estupraram. Quase nunca vemos estupradores pagando por seus crimes, então esse foi um acerto. No entanto, esse é o mínimo que poderiam ter feito naquele episódio. Existe, todavia, uma cena que realmente destaca-se em meio a todo aquele horror: Jamie decide, por motivos incompreensíveis, manter Lionel Brown vivo para um suposto interrogatório que, honestamente, nem precisaria ser feito. Mas Marsali não concorda com aquilo e, na primeira oportunidade, o mata por ter ferido sua mãe. Marsali é uma personagem tão mal-aproveitada em Outlander, e esse momento foi incrível. Espero que deem mais tempo de tela para ela e para Fergus na próxima temporada. 

É preciso cavar um pouco para encontrar algo de bom na season finale da 5ª temporada de Outlander. É uma pena porque, até então, a temporada estava realmente bem construída e sensível, com episódios que figuram dentre os melhores já feitos. Porém, as pessoas por trás da série não se contentam em fazer uma boa temporada, eles precisam sempre ter algum personagem passando pela humilhação horrorosa de um estupro para — nas palavras dos próprios produtores e da autora — fortalecer-se. É algo simplesmente horrível que me faz considerar profundamente se seguirei acompanhando a série ou não. Nem toda a beleza do Fraser’s Ridge ou das regiões montanhosas da Escócia compensam ver uma mulher ser brutalmente estuprada em tela. 

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  1. Eu acabei de passar pelas cenas de estupro de Bree e como me incomodou o fato de todos na série serem violentados o tempo todo, vim ler spoilers. Concordei com cada opinião e critica sobre essa narrativa violenta. Costumo ver filmes e series de época e com tantas opções pra incluir na história (eu não li os livros, mas como vc disse, qdo querem eles alteram...) ficar 5 temporadas violentando o elenco todo, tá mais do que pesado e repetitivo.

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