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Que sejamos esquecidos

Esses dias, fazendo uma colagem para um texto do Querido Clássico, me deparei com uma imagem que me deixou muito pensativa. O texto é uma resenha de Este Lado do Paraíso, romance de estreia de F. Scott Fitzgerald que foi publicado há cem anos, em 1920. O quão atual ele consegue ser é algo que me espanta, mas esse assunto fica por lá. O caso é que estava eu procurando imagens que pudesse usar para ilustrar a resenha quando encontrei a foto de um rapaz e uma moça, ambos bem informais, supostamente tirada em 1920. Eles não estão identificados, então é provável que eu nunca venha a saber quem são. O rapaz usa um terno, como era moda na época, mas isso não restringe seus movimentos de forma alguma, aparentemente. A moça usa um maiô bem moderno para os anos vinte e está na mesma pose do rapaz, que parece ser uma dança charleston, talvez ensaiada para causar graça na foto. Se eles a pensaram como forma de lembrança de uma época, jamais saberei, mas cá estamos cem anos depois e eu, uma jovem brasileira trancada em casa no meio de uma pandemia, a encontrei por acaso ao procurar por imagens que retratassem a juventude universitária estadunidense de 1920. 

Foi muito chocante pensar, enquanto eu recortava a imagem com cuidado, que ali estão duas pessoas que jamais conhecerei. Não são modelos, não são pessoas famosas, não possuem nem nome registrado em local algum da internet. São apenas dois jovens, com no máximo vinte anos, que estavam se divertindo em 1920. A foto obviamente é em preto-e-branco. Eles encaram a câmera com um ar de desafio que se mistura a uma infantilidade bonita, uma coisa meio "olha o que eu faço". São dois jovens da Geração Perdida que eu jamais conheci, jamais conhecerei e que provavelmente estão mortos há anos. Deles só devem restar os ossos. E eles jamais devem ter imaginado que um dia uma outra jovem - talvez um pouco mais velha do que eles naquela época - usaria algo tão complexo quanto a internet para encontrar aquela foto e utilizá-la para ilustrar a imagem de destaque de um texto que fala sobre um livro que estava sendo publicado naquele mesmo ano em que a foto foi tirada, de um autor que só viria a fazer sucesso mais tarde. 

Todos somos esquecidos. O tempo é implacável nesse sentido. Até mesmo as pessoas mais conhecidas da história serão engolidas por ele, seja daqui a alguns anos, seja quando o nosso planeta chegar ao seu fim. Mas a maioria de nós é esquecida em duas, três ou mais gerações. Quem contará as nossas histórias? Quem dirá que gostávamos de mais leite do que café no café-com-leite? Quem poderá descrever nossa paixão pelo livro de autor x ou a forma como aquele filme nos fez chorar durante horas após a sessão do cinema? E, sobretudo: para quem isso importa? 

É difícil aceitar que as nossas vidas são apenas o que são: vidas privadas, íntimas. A gente se expõe tanto na internet que esquece do quão finitos somos. Não temos controle sobre o quê entrará para a história. Será que uma foto nossa será usada, daqui a um século, para ilustrar a vida dos jovens de uma época? E se for uma foto ruim? Ou será que um texto bobo que escrevemos na internet - um tweet reclamando sobre o figurino de uma série - vai servir de ilustração num texto escolar das crianças do futuro? A gente simplesmente não tem como saber. Ninguém sabe se será relevante num sentido maior, se será lembrado para além de seus familiares e amigos. E tá tudo bem não saber. Assim como tá tudo bem ser esquecido. Esse é o destino de todo mundo, afinal de contas. 

A questão do tempo sem tempo vem me assombrando há alguns anos. Este é o meu tempo, mas isso não significa nada para ninguém além de mim. Há uma solidão nisso, uma beleza e uma liberdade tremendas. E também melancolia. Meu tempo é o momento de agora, mas todos temos essa noção do tempo individual dentro de acontecimentos coletivos que nos apagarão da memória, pois o que importa é o todo, não o indivíduo, salvo raras exceções. Lembro que no início do ano passei por um desprendimento tal do tempo que simplesmente não sentia mais os dias passarem. Talvez fosse pela repetição que a vida virou - acorda, levanta, come, trabalha, estuda, dorme, acorda, levanta, ad infinitum -, talvez porque parece não haver escapatória entre quem sou e quem desejo ser. O tempo, enquanto isso, simplesmente segue em frente, alheio às minhas inquietações e pouco se importando se meu ontem será idêntico ao meu amanhã. 

Escrever é um processo de não esquecimento. É uma recusa ao papel do tempo sobre a memória. Eu escrevo hoje e minhas palavras permanecem aqui para que pessoas que nem conheço as leiam e pensem sobre o que escrevi e formem uma ideia sobre quem eu sou. Ainda que eu escreva mais para mim do que para o Outro, existe quem leia e isso é uma forma de combater a morte - tanto a do corpo quanto a da memória. 

Talvez eu seja apenas uma moça numa foto daqui a um século, mas hoje eu tenho nome e url na internet. E isso me faz bem, mesmo que eu não tenha controle sobre o que vai permanecer. 



A Gabi e a Aline criaram a Estação Blogagem, uma iniciativa para agitar a blogosfera. Eu já estava escrevendo este texto quando a Gabi anunciou a ideia no twitter, e achei que ele se encaixaria perfeitamente ao tema da primeira semana do desafio. 


tema de 1º a 07.11: paus
O naipe de paus está ligado diretamente à energia do fogo e basta pensar no significado desse elemento para a humanidade — nós não vivemos sem ele. É um naipe impulsionador, dinâmico e que fala da nossa criatividade. O que te sustenta? O que te estimula? O que te dá paixão? Publique no seu blog e participe da blogagem coletiva: #estacaoblogagem. 

6 Comentários

  1. E que bonito é não saber! Duro aprender deixar ir e perder o controle, mas é isso que permite a mágica de fotos de pessoas que nunca vão nos conhecer possam nos tocar tanto e reverberar essa bagunça boa décadas depois. Lindo texto!

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    1. Aline, é realmente algo mágico, sabe? E bonito também. Acho que olhar pra o todo e perceber a beleza das coisas que não permanecem é algo importante, né?

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  2. a caixa de surpresas que é a vida né? mesmo com suposições do futuro, baseado em padrões, estatísticas, etc etc etc, da mesma forma que em algum momento achamos que estaríamos usando apenas roupas metálicas e andando em carros voadores HAHAHAHA a gente nunca sabe o tanto que pode mudar e o tanto que pode parecer relevante para um grupo de pessoas em algum momento. a gente não sabe. e que bom né? o nosso combo de expectativas já anda bem agitado com o que sabemos. acrescentar mais as possibilidades do futuro talvez seria demais :)

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    1. roupas metálicas e carros voadores POXA VIDA ME PROMETERAM TANTO haha a gente nunca sabe e isso é ótimo, honestamente.

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  3. Eita Mia. Vou começar de trás pra frente: meu arcano menor do dia de hoje foi o valete de paus. Achei engraçado já por aí. Mas não só isso, tirei um oráculo da cobra que fala que ela representa transmutação, assim como o fogo. E hoje foi o dia que meti o pé no acelerador do texto do cordel pro QC, e falei na terapia sobre tempo! Que também é um dos meus temas da vida, porque amo Saturno e tudo que rodeia esse arquétipo. O tempo pra mim veio como ensinamento de respeitar os processos, e ser ativa, sim, mas sabendo que não preciso "comer o mundo todo de uma vez". Por escrever sobre cordel e narrativa, acabei chegando nesse parágrafo de escrever para não esquecer, que você comentou. É muito incrível. A liberdade que você sente em saber que não é pra sempre, eu tenho com o saber que o universo é infinito. Tem gente que enxerga o "ser poeira das estrelas" como algo atemorizante; eu enxergo com uma paz inominável, assim como o vazio da noite. Sei dos perigos reais que a noite na cidade ou na estrada me proporciona, mas amo aquele vazio, aquele sem ninguém, aquela coisa misteriosa e calma, avessa à bagunça do cotidiano barulhento. Enfim, fiz um mix de relações, mas é porque amei esse texto e a foto. Adoro quando um objeto conversa com a gente dessa forma. Era só a captura de um instante, mas virou uma reflexão da vida, que desembocou em outras, e mais outras...

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    1. já animada pra teu texto do cordel, bah. SATURNO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! isso de comer o mundo todo de uma só vez é algo que preciso sempre aprender porque total esqueço, vou lá e tento de novo. saturno é uma grande questão pra mim. não sei se tu conhece, mas tem aquela música a saturno que um compositor clássico criou - ele fez música para todos os planetas, na real. não lembro do nome dele, mas nossa, é incrível.

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