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Visitando a Casa da Colina

Thirteen Towers, capa, artista desconhecido, 1974

Na primeira vez que visitei a Casa da Colina fazia calor dentro do ônibus e eu estava preocupada com a faculdade, o trabalho e o prazo de resenha da parceria com a editora que me enviara o livro. Alguns anos se passaram e hoje já não ando de ônibus há quase um ano, formei na faculdade e nem saio de casa por causa da pandemia. Mas continua calor. Após muitos dias de frio, o calor deu as caras, me deixando, como sempre, desconfortável. Entretanto, não me preocupo mais com prazos de parceria, pois o tempo parece transcorrer diferente agora, aqui. As coisas serão feitas quando forem feitas e os textos serão publicados quando forem escritos. É um processo que não pretendo apressar. 

Em determinado momento de A Assombração da Casa da Colina, o grupo discute o caráter do tempo no local. Embora, objetivamente, eles estejam ali há poucos dias, a noção temporal normal foi substituída pela sensação de que sempre estiveram ali, como se não houvesse um mundo lá fora. Tal sensação é algo em parte pela própria casa, que possui seu ritmo, em parte pelo isolamento, que leva aquele grupo a sentir-se parte de algo próprio e aquém do mundo e de seu ritmo normal. 

Talvez esse seja um dos motivos por que gostei tanto mais do livro agora do que na primeira leitura. Estar isolada há meses em casa certamente me fez compreender melhor o terror presente na narrativa de Shirley Jackson. Mais cedo neste ano, li Sempre Vivemos no Castelo, obra que também lida com a temática do isolamento e da loucura. É possível dizer que, em geral, o grande tema da ficção de Shirley Jackson é o isolamento - que pode tanto ser físico quanto psicológico. Ele está presente em diversas de suas obras e possui muitas camadas, algumas apenas perceptíveis após um segundo olhar. 

Ler Shirley Jackson durante a pandemia é uma experiência única. Quando li A Assombração da Casa da Colina pela primeira vez, fiquei fascinada com a escalada de loucura de Eleanor, a personagem principal, enquanto ela tentava encaixar-se com o estranhamente homogêneo grupo da casa. Gostei do livro, o recomendei para as pessoas, mas sinto que só agora consegui adentrar na camada do terror presente nele. 

É realmente horrível sentir que não há lugar no mundo em que se caiba. A Casa da Colina, toda torta e perturbadora, parecia abrigá-la melhor do que sua própria casa, talvez por ser tão desajustada quanto ela - ou essa é a impressão que a narração nos transmite. Parece existir algo de sobrenatural na Casa, como percebemos pelas passagens onde ocorrem as batidas incessantes - e aterrorizantes - no meio da noite. Mas é possível que tenha sido apenas fruto do forte poder de sugestão que induziu os visitantes do local a adentrarem num estado de histeria coletiva. Nesse caso, o Mal presente na Casa da Colina seria o de despertar os temores internos das pessoas, tema bastante presente no gótico. 

De qualquer forma, existindo ou não uma assombração de fato, há passagens inteiras que basicamente descrevem um ataque de ansiedade. Pude me ver refletida na Eleanor em diversos momentos do livro, especialmente naqueles em que ela, perdida em pensamentos, começa a se questionar se realmente deveria estar ali e tenta explicar para as pessoas o que ela pensa e o que está acontecendo, mas todos a olham como se fosse louca. A loucura é um dos temas de Shirley Jackson, mas talvez esse seja o livro no qual ela melhor o trabalhou. 

"Olha. Só existe uma de mim, e é só isso o que eu tenho. Odeio me ver dissolvendo e perdendo e dispersando a ponto de viver só com a metade, a da minha mente, e ver a outra metade de mim indefesa e desvairada e compulsiva e não consigo parar, mas sei que não vou me machucar de verdade e no entanto o tempo é tão longo e até um segundo se prolonga e prolonga e eu seria capaz de aguentar isso tudo se ao menos pudesse me entregar..."

Visitar a Casa da Colina é ter uma conversa com aquilo que nos assombra. E é uma que devemos fazer sozinhos. 



Esse livro foi lido durante a leitura coletiva do mês de outubro, realizada pelo Querido Clássico com a Jess, a Michelle e mais algumas pessoas que toparam embarcar nessa conosco. 

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