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Sempre vivemos no castelo, de Shirley Jackson

Este foi o ano em que mais li Shirley Jackson. Reli A Assombração da Casa da Colina, li pela primeira vez A Loteria e Sempre vivemos no castelo. Enquanto já havia lido o primeiro, não conhecia o último, apenas por nome. Como não sou uma pessoa que costuma ler sinopses, apenas embarquei na leitura sem saber nada a respeito da história - e essa foi uma ótima decisão. Fui verdadeiramente surpreendida pelas personagens e fiquei durante meses pensando a respeito do livro. 

Merricat tem dezoito anos, mas pensa e fala como uma pré-adolescente de doze. E é através de seus olhos que vamos embarcar na história. É ela quem narra o livro, é ela quem nos informa, já no primeiro parágrafo, que seus pais morreram, que ela vive sozinha com sua irmã e um gato. Posteriormente, ficamos sabendo também da existência de um tio, que ficou com sequelas após o que aconteceu com a família de Merricat, e apenas a ignora, como se ela tivesse morrido também. A cidade a odeia, a irmã dela, embora mais velha e sendo legalmente a responsável pela casa, não sai. Quem faz as compras é Merricat, que semanalmente cumpre uma série de rituais para ir até o mercado e passar na biblioteca. Elas vivem isoladas, mas não menos felizes por isso. Merricat e Constance são felizes em seu mundinho. A mansão Blackwood as abriga e também as protege do mundo. Mas a presença inesperada de um primo ameaça ruir a tranquilidade das irmãs. 

Já escrevi sobre a loucura feminina presente em Sempre vivemos no castelo lá no Querido Clássico. É um estereótipo de loucura sutilmente subvertido por Shirley Jackson, que nos apresenta Merricat e Constance mais como sobreviventes ativas do que como mulheres loucas e más. Tal imagem só é aceita pelos membros daquela cidade, que não as suportam. Mas existem tantas camadas nesse livro que é impossível fazer apenas uma leitura. 

Sempre vivemos no castelo também fala sobre libertar-se do poder patriarcal - e como essa libertação, especialmente financeira, pode causar desconfiança e revolta nas pessoas. Duas jovens mulheres que não necessitam de homens para viver, que cuidam uma da outra, que não dependem financeiramente de ninguém... Parece algo perigoso, ao menos para os habitantes daquela cidadezinha. As irmãs Blackwood soam como uma ameaça aos status quo. 

Esther Muñoz González aponta algumas relações entre a forma como Merricat e Constance lidam com a comida e como os cidadãos as enxergam. Ela também fala, num artigo muito interessante chamado Food symbolism and traumatic confinement in We had always lived in the castle, que há algo de bruxaria no livro. Isso não deixa de ser verdade uma vez que os rituais de Merricat parecem uma espécie de magia, assim como a estranha tradição dos alimentos guardados como oferendas ou relíquias. E é verdade que a cidade atribui a elas o mistério temível que ronda a figura da bruxa. 

“O porão da casa estava cheio de comida. Todas as mulheres da família Blackwood haviam preparado comida e se orgulhado de fazer contribuições à grande provisão do nosso porão. Havia potes de geleia feita por bisavós, com rótulos em letras fracas desbotadas, já quase ilegíveis, e conservas feitas por tias-avós e verduras colhidas por nossa avó, e até nossa mãe havia deixado para trás seis potes de geleia de maçã. […] Todas as mulheres da família Blackwood tiraram a comida que viera do solo e a conservaram, de geleias e picles de cores intensas e verduras e frutas em potes, marrons e âmbares e verde musgo, ficavam enfileirados no nosso porão e permaneciam ali para sempre, um poema feito pelas mulheres Blackwood.”

O livro foi lançado em 1962 e me espanta como dialoga perfeitamente com o momento atual. Claro, ler Shirley Jackson numa pandemia é ter uma conversa honesta sobre o isolamento e a ansiedade. E, embora eu tenha sentido isso também em A Assombração da Casa da Colina, foi em Sempre vivemos no castelo que fiquei verdadeiramente assustada. Não há sobrenatural presente, mas existe algo muito pior: pessoas más, mulheres sendo levadas à loucura, indício de abuso dentro de casa. 

Esse livro me fez pensar sobre tudo isso, mas principalmente sobre como, às vezes, as pessoas são apenas más mesmo e não há muito o que possamos fazer exceto ficar dentro de casa, com os nossos, e se afastar de todo mundo. É diferente, porque estamos em uma pandemia, mas o ato do isolamento como forma de preservação é o mesmo, e segue tão assustador quanto. 

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