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Um conto de Natal, de Charles Dickens

Ilustração de John Leech para a primeira edição de Um conto de Natal, de Charles Dickens
Um conto de Natal foi a leitura do mês do Clube do Livro do Querido Clássico. Foi feita uma enquete entre os participantes, que escolheram o clássico de Charles Dickens para lermos e conversarmos a respeito em dezembro. É meio vergonhoso admitir que eu tenho algumas edições desse livro, mas nunca o havia lido. Todo ano digo que o lerei, e todo ano acabo lendo outras coisas e o deixando de lado. Mas, desta vez o li e foi demais. 

Embora já tenha lido outras obras de Dickens, não sou acostumada com a escrita dele. Sei que ele é considerado o grande escritor da era vitoriana, mas quando penso na produção literária daquela época, basicamente lembro apenas de mulheres. Acho que, se há uma voz vitoriana a ser ouvida, ela é feminina. Mas Dickens também é uma voz - e bem alta. Talvez o escritor de maior sucesso de seu tempo, inclusive. 

Os temas centrais de sua obra estão lá. Não temos órfãos, mas a pobreza é exposta de diversas maneiras, a desigualdade social é deixada à mostra e a Revolução Industrial é duramente criticada, assim como as bases do capitalismo. Achei muito interessante a maneira como, por trás do marketing do livro, que gira em torno da existência de fantasmas, algo flertando com o gótico etc., o que pude enxergar em Um conto de Natal foi uma narrativa pautada no real - com uns toques de fantasia sobrenatural. Sim, existem fantasmas. Sim, Ebenezer Scrooge sai voando com eles e faz algumas viagens no tempo. Sim, é isso que o leva a mudar sua conduta. Mas esses me pareceram mais um como do que um o quê. O que acontece é que Scrooge é confrontado por seus arrependimentos e temores, sendo obrigado a encarar a si mesmo e, consequentemente, às pessoas que o cercam. Os fantasmas são apenas a maneira como isso é feito. 

Talvez seja por isso que essa história é tão aclamada. É fácil se identificar com o enredo. Fim de ano é uma época propícia a pensamentos sobre o passado, o presente e o futuro, um momento em que a gente pára e analisa o que estamos fazendo. E, às vezes, a conclusão a que chegamos é a de que ou mudamos, ou as coisas não serão muito bonitas. Foi o que aconteceu com Scrooge. 

Gostei bastante do livro, embora não tenha virado um grande favorito. Mas é uma leitura que recomendo. Acho, de verdade, que se trata de um desses livros essenciais porque dialogam com todo mundo, em qualquer lugar e época. Afinal, Scrooge é uma personagem universal - poderíamos até dizer que o mundo é dos Scrooges, mas não gosto de pensar isso. O que gosto de pensar, todavia, é que o espírito do Natal, se considerarmos que ele existe, é realmente de fazer uma parada, reavaliar nossas atitudes e tentar ser uma pessoa melhor - não por uma questão moral, mas sim porque é normal que, chegada essa época, a gente faça um balanço das coisas e tente ser uma pessoa mais gentil. Para nós e para os outros. 



Esse livro foi lido durante a leitura coletiva do mês de dezembro, realizada pelo Querido Clássico. Se quiser saber mais, basta acessar este link para ser redirecionado ao episódio de podcast que gravamos sobre ele. 

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