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É assim que se perde a guerra do tempo, de Amal El-Mohtar e Max Gladstone

Não sabia o que esperar quando iniciei a leitura de É assim que se perde a guerra do tempo (This is how you lose the time war no original). Mas existem alguns assuntos que me chamam a atenção imediatamente. Viagem no tempo é um deles. Eu amo histórias com enredos que misturam o passado e o futuro, que possuem personagens deslocando-se em linhas temporais. Esse livro possui tudo isso, sim. Mas trata-se de uma história de amor. 

Blue e Red são agentes temporais de origens rivais. Blue é do Jardim, Red, da Agência. Há uma guerra sendo travada e elas estão entre as melhores combatentes. Infiltram-se em diversos séculos, modificam destinos, causam mortes e geram vidas. No meio de tudo isso, uma carta provocativa inicia algo que perdurará entre ambas e que modificará seus destinos. Em parte epistolar, o livro nos mostra como duas agentes rivais apaixonam-se ao longo de séculos através de uma correspondência poética e profunda. 

Qualquer um que já conversou por meia hora comigo sabe que eu não gosto de histórias de amor. Quando um livro ou filme promete romance, eu fujo. Não que odeie a ideia do amor - quando bem construído, pode ser fascinante acompanhar uma história dessas. Mas geralmente as histórias de amor são repletas de clichês cansativos, e eu simplesmente não sou uma pessoa suficientemente romântica para apreciá-las. 

Todavia, É assim que se perde a guerra do tempo não é clichê. E, mesmo que o fosse, ainda seria interessante, pois temos enemies to lovers de uma forma muito lenta e bem arquitetada. A troca de cartas, como é dito no livro, é uma espécie de viagem no tempo por si só. E todo mundo que possui por hábito trocar cartas sabe o quanto é possível abrir-se de uma forma muito única e especial ao escrevê-las. Existe algo de mágico numa carta bem escrita. Blue e Red sabem disso muito bem. 

"Crio metáforas para abordar pela tangente o enorme fato que é você."

Amal El-Mohtar e Max Gladstone uniram-se para escrever essa troca de cartas, e o resultado é uma das coisas mais bonitas que já li. Em diversos momentos lembrei de dois livros que li há muitos anos -  O evangelho segundo a serpente, de Faíza Hayat, e Para cima e não para norte, de Patrícia Portela. Eles não são histórias de amor, tampouco epistolares, mas a narrativa poética, a musicalidade nas palavras, a estrutura enquanto a tranquila tecitura de uma tapeçaria, em todos os seus detalhes, está presente. Existe algo de mágico em cada palavra. 

Embora elas estejam num mundo em guerra, onde a tecnologia é tão avançada que, muitas vezes, é difícil visualizar como elas são e o que está ao redor, esse não é o importante. O mundo e suas guerras, as linhas temporais, tudo é apenas um trabalho, uma função dentro do tempo. O que importa são elas, as cartas, os sentimentos uma pela outra. Não sabemos quem está certo ou errado na guerra do tempo, mas sabemos que Blue e Red se amam - e isso basta. É através desse sentimento, que é construído com delicadeza, que enxergamos aquele mundo. E é através dele que elas moldam um novo caminho. 

Quem espera uma ficção científica tradicional talvez se surpreenda com esse livro - mas duvido que se decepcione. É assim que se perde a guerra do tempo é bonito, de todas as formas, e possui uma mensagem: no meio do caos, há beleza nos olhos de quem nos enxerga e de quem nos faz enxergar. 


O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Companhia das Letras através do NetGalley.

2 Comentários

  1. Não tinha me interessado muito por esse livro apesar de todo o hype, exatamente por causa do romance, mas agora você me deixou curiosa. Só que ainda vai demorar até eu ler ele, porque gastar mais de R$50 num livro de menos de 200 páginas não é pra mim kkkcrying

    Vanessa
    tristezinhascotidianas.blogspot.com

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