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O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald

Volta e meia me pego pensando em uma frase de Orlando, um dos meus livros preferidos, escrito por Virginia Woolf. 

“Estou crescendo. [...] Estou perdendo minhas ilusões, talvez para adquirir outras novas.”

A ideia do crescimento como o desfazer de ilusões - ou, melhor ainda, como o deixar para trás as ilusões da juventude para agarrar-se a outras, que parecem sólidas, porém são feitas da mesma areia das anteriores - é algo que me fascina. Não é que simplesmente cresçamos e não nos iludamos mais. Apenas nos convencemos de que as nossas novas ilusões são tangíveis. 

Eu tinha 18 anos na primeira vez em que li O grande Gatsby. Foi em 2012, eu havia pegado o livro emprestado da biblioteca da escola, cheguei em casa, fui até o quarto da minha mãe, sentei num lugar onde pegava sol e li. Passei uma tarde inteira lendo. Ele nunca mais me saiu da cabeça. 

Antes, o havia pegado emprestado da biblioteca do meu irmão. Mas a edição não era boa e a leitura não tinha ido para a frente. No entanto, aquela compreensão de que o mundo não é justo, as coisas nem sempre saem como o planejado e o amor pode ser bem complicado permaneceu comigo - e me fez ir atrás do livro novamente. Aos 18, eu ainda acreditava no amor que transpõe anos, em coisas mais bonitas e delicadas, mesmo em meio a uma poeira suja. Hoje, a um dia de completar 27, nem tanto. 

Se antes entendia tão bem o Gatsby a ponto de odiar a Daisy, hoje consigo entendê-la melhor. O amor não vai te salvar, não importa há quantos anos você viva sonhando acordada com uma pessoa que habitou sua vida há tanto tempo. O mundo não para, a gente muda na corrida do tempo, e os amores até podem permanecer, mas há coisas que são melhores na memória. Quebrar o idílio pode ser perigoso. 

Todavia, dizer que não detesto a Daisy seria mentira. Eu a compreendo melhor agora, que sou uma mulher adulta, já formada, que passou por diversas desilusões. Mas ainda considero as decisões da Daisy - e suas posturas éticas - bem erradas. De certa maneira, o que sinto por ela é semelhante ao que sinto por Cathy, de O Morro dos Ventos Uivantes. Sei que ela está errada, posso discordar veementemente de toda aquela postura de uma mulher que permite-se ser levada por um sentimento adolescente e que acaba brincando com pessoas e criando transtornos desnecessários. Contudo, nem Cathy nem Daisy são vilãs. Elas reverberam na história justamente por serem personagens complexas, cujas motivações conseguimos compreender, embora elas sejam, na mesma medida, detestáveis. 

Reler O grande Gatsby me fez pensar em Taylor Swift, o que parece meio ridículo, mas não é. Taylor usa a obra de Fitzgerald como uma grande referência na hora de compor suas músicas. E cardigan, faixa de folklore, ficou tocando na minha cabeça em diversos momentos da releitura. 

"But I knew you'd linger like a tattoo kiss
I knew you'd haunt all of my what-ifs
The smell of smoke would hang around this long
'Cause I knew everything when I was young
I knew I'd curse you for the longest time
Chasin' shadows in the grocery line
I knew you'd miss me once the thrill expired
And you'd be standin' in my front porch light
And I knew you'd come back to me"

"Mas eu sabia que você iria demorar como um beijo tatuado
Eu sabia que você assombraria todos os meus 'e se'
O cheiro de fumaça duraria por todo esse tempo
Porque eu sabia tudo quando eu era jovem
Eu sabia que te amaldiçoaria pelo tempo mais longo
Perseguindo sombras na fila da mercearia
Eu sabia que você sentiria minha falta quando a emoção terminasse 
E você estaria em pé na luz da minha varanda da frente
E eu sabia que você voltaria para mim"

A referência da luz da varanda é bem óbvia para quem leu o romance, mas o que ficou realmente martelando na minha cabeça foi "eu sabia que você assombraria todos os meus 'e se'". Esse verso mexe demais comigo. Todos os "e se" que passam pela minha cabeça me fazem gostar mais de Jay Gatsby do que eu gostaria. Mas eu não faria o que ele fez. Não dá para viver uma obsessão. Não dá para mergulhar no passado simplesmente pelo desejo de que as coisas tivessem sido diferentes. As pessoas seguem em frente, elas têm relacionamentos, desejos, se formam numa coisa ou noutra. Cada um segue seu caminho. folklore fala muito desses encontros que nunca acontecem, desse vaivém que é mais mental do que qualquer outra coisa. O desejo do que não foi. A memória preservada e ampliada, aumentada em todos os aspectos para idealizar uma pessoa que não está mais ali, uma pessoa que virou uma ideia, um ideal - despersonalizada. É a Daisy, mas poderia ser qualquer outra. Não é mais um ser humano, mas sim a encarnação da felicidade. E ninguém pode encaixar-se num ideal, ninguém é capaz de dar conta de um amor não vivido. 

Até que ponto devemos insistir num desejo? Como saber identificar o momento em que trocamos de ilusão, em que passamos a perseguir algo que nos escapa? Parece que Jay Gatsby nunca soube identificá-lo, permanecendo preso em devaneios - românticos em diversos sentidos, não apenas no amoroso. 

A gente fala do Gatsby, se achando o Nick da história, mas somos todos Gatsby aqui. Cada qual preso em sua própria ilusão. 




Esse livro foi lido durante uma leitura para um quadro especial do podcast do Querido Clássico, no qual a Gabi Barbosa conversou sobre seu clássico preferido - O grande Gatsby. Para ouvir o episódio, basta clicar aqui, no link do Spotify, ou dar play no player abaixo e ouvir diretamente do Anchor


3 Comentários

  1. Boa resenha de um dos livros de que mais gosto e que deveria reler um dia desses. O sétimo capítulo em si é uma obra-prima de tensão. Também gostei do paralelo que fez com Morro. Gatsby, assim como provavelmente Heatchcliff e tantas outras personagens dos clássicos, sofria de limerência e foi à perdição por isso. Feliz aniversário.

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  2. bela resenha a respeito dessa obra tão grandiosa. Eu sou apaixonada pela escrita de Fitzgerald. Pretendo reler a obra esse ano, e certamente vou me surpreender com algo que devo ter deixado passar na primeira vez que li...

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  3. Li Gatsby em 2017 e lembro de pensar logo que acabei que esse era um livro que eu iria querer/precisar reler em algum momento, e em breve pretendo fazer isso, quando tiver minha própria edição pra poder rabiscar bastante e manusear sem medo. Também lembro de achar o Gatsby uma figura muito triste, fiquei apiedada por ele na mesma medida em que reconhecia que ele era patético em suas ilusões, muitas vezes - como eu, como é fácil ser quando nos perdemos.

    Acho que meu trecho favorito do livro, que conversa com o que tu pontuou no texto e que fala muito de Gatsby de modo geral é:
    ''Mesmo naquela noite, deve ter havido momentos em que Daisy não esteve à altura dos seus sonhos - não por culpa dela, mas pela vitalidade colossal de sua ilusão, que havia atingido um patamar além dela, além de tudo. Ele se rendeu a essa ilusão com uma paixão criativa, complementando-a o tempo todo, enfeitando-a com todo tipo de plumas coloridas que encontrava pelo caminho. Nem as maiores lufadas de fogo e vento seriam capazes de competir com aquilo que um homem pode guardar em seu coração etéreo.''

    Também é bem legal como ''a Luz Verde'' é uma referência tão presente em produções artísticas até hoje, fala muito sobre nós, e sempre que capto ela em alguma produção fico sorrindo melancólica por dentro pensando em Gatsby, rsrs (preciso reler logooooo).

    (Também curti a adaptação cinematográfica com o Leo, amei como é tudo absurdo de exótico, haha, mas vi anos depois de ler o livro, pra poder aproveitar sem muito apego às minúcias do livro. XD)

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