na cabeceira

literatura & diarices

Ubik: os limites da realidade de Philip K. Dick


É praticamente impossível ser um leitor de ficção científica e não conhecer Philip K. Dick. Para isso, há um motivo. O autor estadunidense, nascido em 1928, estava longe de ser uma pessoa comum. A forma como pensava o futuro e mesclava suas dúvidas espirituais com enredos onde a realidade é extremamente subjetiva, sem comprometer o enredo de suas histórias para isso, é algo raro. Em seus livros, encontramos mundos paralelos com tempos alternativos, personagens à deriva e questões filosóficas a serem urgentemente solucionadas. Mas essa urgência, não importa o quão impositiva, sempre acaba dando lugar a maiores questionamentos e exige paciência — uma virtude que nem o próprio PKD, nem seus personagens, tinham. Em Ubik isso não é diferente. 

O livro, publicado originalmente em 1969, é construído a partir da ideia de uma Nova York futurista, em 1992, onde a tecnologia modificou a organização social, diminuindo empregos normais, que ficaram a cargos de robôs (tema semelhante de seu outro livro, Espere Agora Pelo Ano Passado), e aumentando cargos relacionados à espionagem. É compreensível que PKD tivesse esse tema de forma muito forte em seus livros já que viveu durante as grandes guerras do século XX, quando a paranoia da caça a espiões rolava solta nos Estados Unidos. Por isso mesmo, é interessante perceber em sua obra como todo o avanço tecnológico, dos EUA e do mundo, das décadas futuras (hoje, nosso passado) ainda soa anacrônico. Em diversas passagens, destinadas a fazer o leitor sentir-se em um ambiente estranho, muitos móveis cotidianos não foram inovados para além de funcionarem apenas quando se paga uma moeda para utilizá-los, detalhe a que somos apresentados frequentemente na primeira metade do livro, seja para situar o leitor do final da década de sessenta de que aquela não é a sua época, seja para nos mostrar, sutilmente, coisas que dão errado quando a realidade começa a ruir — pequenos detalhes de objetos não funcionando mais de forma adequada, falhas na matrix. 

Na Nova York dos anos noventa de PKD, algumas pessoas desenvolveram habilidades psíquicas. Essas pessoas, que podem ser talentos ou anti-talentos, trabalham em empresas de grande porte que distribuem um serviço a governos, entidades ou pessoas físicas poderosas — um serviço caríssimo que custa mão de obra psicológica: a interferência na realidade. Geralmente, tal interferência se dá apenas por meio de telepatas, que são infiltrados em lugares para coletar informações sigilosas. Entretanto, também há os precogs, pessoas que conseguem visualizar o futuro — apesar de não conseguirem modificá-lo. Em contrapartida, existem os anti-talentos, bloqueadores naturais de telepatas e precogs. É com eles que Runciter trabalha. 

Existem dois personagens principais em Ubik: Glen Runciter, dono de uma das maiores empresas de anti-telepatia, e Joe Chip, testador de veracidade de dons para a empresa e braço-direito de Runciter. As vidas deles mudam drasticamente quando a empresa de Runciter é contratada para ir até à Lua, com onze de seus melhores inerciais e uma anti-precog desconhecida chamada Pat que, através de uma manipulação temporal, consegue o emprego sem ter de passar por grandes testes.

A princípio, desconfiamos de Pat e de suas intenções. A jovem mulher sem passado e extremamente talentosa é retratada como vilã desde as primeiras páginas. É um tanto desconcertante que uma das únicas mulheres do livro — e certamente a única com destaque — vista uma máscara de vilã aos olhos daqueles grandes homens de negócios. Tal traço não é característico da obra de P.K.D. Embora, em sua vida pessoal, ele não tenha sido um pró-feminista, chegando ao ponto de envolver-se em um caso de agressão à mulheres, seus livros possuem personagens femininas bem trabalhadas que fogem aos estereótipos da época em que foram escritos. Em Ubik, porém, não é isso o que acontece. Entretanto, conforme vamos adentrando no universo alternativo de PKD, passamos a enxergar Pat com outros olhos. Ela, assim como todo aquele grupo de anti-talentos, estão em uma emboscada cuja escapatória não é suficientemente clara para ninguém. 

Quando chegam a Luna (o que entendemos como a nossa Lua), tudo parece estranho. A missão, completamente confidencial e de caráter urgente, não se apresenta da forma como foi combinada. E, após poucos minutos de conversa e apresentações, uma bomba explode, causando uma grande confusão. Em meio a fumaça e estilhaços, o grupo de onze anti-talentos e Joe Chip, o testador, se reencontram, incrivelmente inteiros, mas se deparam com seu chefe, Runciter, no chão. Ele fora atingido de alguma forma durante a explosão e está a minutos de perder a vida. O grupo corre contra o tempo para voltar à nave antes que o coração de Runciter pare de bater. Mas eles sabem que, em tais condições, não haverá salvação para ele — ao menos, não por meios naturais. Então, ele é colocado em uma bolsa térmica, com o intuito de preservar seu corpo e um mínimo de atividade cerebral, de modo que ele pudesse entrar em meia-vida. 


No universo de Ubik, pessoas ricas mantêm seus mortos em moratórios, empresas que conservam o recém-morto em um estado chamado de meia-vida. Nesse estado, seus corpos continuam em caixões, mas eles não entram em putrefação e, apesar de não se mexerem, suas ondas cerebrais remanescentes são preservadas, de modo que é possível travar uma comunicação com eles através de um aparelho especial. Como meias-vidas, eles não podem fazer muito além de atender aos pedidos de conversa de seus entes queridos. 

A ideia inicial de Joe Chip era a de colocar o corpo de seu patrão, Runciter, em meia-vida, para que ele pudesse continuar administrando a empresa e sendo o mais próximo amigo de Chip. Mas as coisas logo saem do controle quando, apesar de inicialmente tudo estar em perfeito estado para que Runciter possa tomar seu lugar como um meia-vida funcional, os especialistas do Moratório Entes Queridos, para onde foi levado, na Suíça, simplesmente não conseguem contatá-lo em seus vestígios de consciência. Desesperado e disposto a tudo para prolongar a vida de seu patrão, Chip não consegue pensar direito e decide passar a noite ali, num hotel em Zurique, antes de viajar de volta aos Estados Unidos para tomar posse da direção da empresa e comunicar oficialmente a morte de Runciter. 

No entanto, as coisas saem completamente do controle quando, na manhã seguinte, ele acorda em seu quarto de hotel e, ao pegar o telefone para ligar a um colega da empresa, ouve claramente a voz de Runciter. O patrão morto parece estar em um monólogo fantástico onde fala sobre os acontecimentos que o levaram a óbito. A conexão macabra deixa Chip atordoado, mas ninguém pode escutá-la além dele — para os outros, tudo o que existe é estática no aparelho telefônico. A partir daí, tudo começa a parecer surreal: as comidas estragam em segundos, os aparelhos eletrônicos tornam-se décadas ultrapassados num piscar de olhos, moedas em circulação assumem contornos estranhos e são rejeitadas pelo comércio e mensagens de Runciter começam a surgir nos mais improváveis lugares. 

A realidade se desfaz e refaz aos olhos de Joe Chip. Em dado momento, ele está tomando um café quando percebe que o creme está azedo e o café, bolorento. Gravadores de áudio se tornam obsoletos, mesmo aqueles comprados diretamente da loja, novos. Elevadores modernos passam, em uma fração de segundo, a ser aqueles do início do século passado, de ferro e com um ascensorista vestido a caráter. Nada mais faz sentido naquele mundo e, então, enquanto Chip e Al Hammond tentam descobrir o que está acontecendo, as pessoas do grupo original vão morrendo dissecadas, tornando-se apenas matéria ossificada há anos, como se o tempo tivesse se acelerado. Eles começam a correr contra o tempo, sem saber para onde ir, e é nesse momento que a manifestação mais forte e reveladora de Runciter aparece. Na parede do banheiro masculino, surge uma pichação: 

“Apoiem-se no vaso para mergulhar em seguida.
Todos vocês estão mortos. Eu tenho vida.” 

O choque que essa pichação causa em Chip e Al é perceptível. Ambos congelam, sem saber o que fazer, enquanto Al começa a definhar cada vez mais rápido, indo de encontro à morte — ou o que quer que esteja acontecendo naquele universo alternativo. É singular a forma como PKD consegue nos fazer sentir o que seus personagens estão sentindo. Completamente à deriva num mundo estranho e, ao mesmo tempo, conhecido, em Ubik seus personagens vivenciam o próprio conceito freudiano do uncanny (ou o infamiliar) na pele. E nós, enquanto leitores, podemos também sentir o estranhamento daquela situação, ao mesmo tempo em que nos indagamos se não perdemos uma parte da história, uma parte chave que solucionaria tudo. Quando PKD escrevia seus livros, forçando os limites da realidade de seus personagens, ele também forçava os limites da percepção em seus leitores. É impossível ler uma obra como Ubik e não se questionar até que ponto o que vivemos é real ou fruto de algo maior — ou de alguém. 

Após uma peregrinação de uma semana, Joe Chip finalmente descobre que, de fato, todos eles estão mortos. Nem ele, nem seu grupo viveram após a explosão da bomba. Somente Runciter vive, do outro lado, tentando entrar em contato com eles através do Moratório. Todos são, cada um à sua medida, meias-vidas. É chocante perceber que a narrativa de um livro inteiro se passa em um não-lugar, em um ponto que não existe — ou talvez exista apenas dentro da consciência remanescente de cada meia-vida daquele moratório. 

Em Ubik, PKD levanta mais fortemente seus questionamentos filosóficos sobre os limites entre a vida e a morte, o que é a realidade e por que aceitamos o que vivenciamos como algo real em termos físicos. O livro completou cinquenta anos de lançamento em 2019 e, olhando em retrospecto para a cultura pop, podemos ver claramente como ele inspirou diversas obras. A série Lost, por exemplo, bebeu diretamente da fonte de Ubik, com personagens em uma busca diária pela saída de um local que só existia em outro plano e do qual eles se livrariam apenas através da morte metafórica. Em produções mais recentes, podemos traçar paralelos entre The Good Place e a obra de PKD. Apesar de a série ser uma espécie de sitcom, distante do tom de aventura e drama dos livros do autor, ela lida diretamente com as questões dos limites da realidade, vida após a morte, consciência humana e a filosofia sobre os mistérios do universo. 

“Aonde quer que você e os outros do grupo fossem, eu construía uma realidade tangível que correspondia às suas expectativas mínimas. Quando você veio de Nova York para cá, criei centenas de quilômetros de regiões rurais, cidade por cidade, achei muito cansativo.” 

Recentemente, um cientista do MIT afirmou que podemos estar vivendo numa simulação de realidade virtual. De acordo com ele, “A verdade é que há muito que nós simplesmente não entendemos sobre a nossa própria realidade, e eu acho que é mais provável que nós estejamos em algum tipo de universo simulado”. Ainda que tal hipótese não tenha sido provada, existe pelo menos uma equipe trabalhando para que testes sejam iniciados logo. É possível que estejamos vivendo em um simulacro? Sim, é possível, até mesmo provável. Mas não sabemos ao certo como isso acontece e quem criou o simulacro. Entretanto, podemos dizer que o que vivenciamos não é real? Se tal teoria for comprovada, diremos que nossas vidas não são reais? Nós vivemos, de qualquer forma. Tais conflitos, que podem ser os nossos daqui a alguns anos, estão presentes na obra de PKD. 

E, assim como os cientistas que defendem essa hipótese afirmam, em Ubik não existe uma resposta final e simples, como um deus que criou tudo e a tudo controla. Pode bem ser que as leis universais tenham sido jogadas em um programa de computador que gerou uma existência independente, com regras próprias. Pode existir um agente manipulador, mas ele apenas consegue interferir na realidade, não comandá-la, porque ele mesmo está sujeito às leis universais. No entanto, no livro, apesar de não existir um desfecho redondo, com uma resposta definitiva, existe um princípio de algo ligado à espiritualidade que poderia estar por trás de tudo. Esse algo é o próprio Ubik, palavra derivada de ubiquidade, ou seja, onipresença. Ubik está em tudo e é tudo, mas não é, necessariamente, um deus. É um conceito que não podemos compreender ao certo, apesar de se assimilar com o que conhecemos por Criador. Pode ser a própria matéria. 

“Eu sou Ubik. Antes que o universo fosse, eu sou. Eu fiz os sóis. Eu fiz os mundos. Eu criei as vidas e os lugares que elas habitam. Eu as transfiro para cá, eu as ponho ali. Elas seguem minhas ordens, fazem o que mando. Eu sou o verbo e meu nome nunca é dito, o nome que ninguém conhece. Eu sou chamado de Ubik, mas este não é o meu nome. Eu sou. Eu Sempre serei.” 

Ubik nos traz mais perguntas do que respostas, terminando com todas as certezas de seus personagens no chão. A vida, a realidade, tudo é questionável no universo de Philip K. Dick. A teologia em suas obras é filosófica e oriental, sutil, mas poderosa. O final, com a moeda nos fazendo questionar a realidade junto com Runciter, se assemelha ao final de A Origem: estamos realmente aqui ou estamos em mais uma realidade simulada? A verdadeira questão, no entanto, é outra: isso importa? 



Se interessou pelo livro? Você pode encontrá-lo aqui.

0 Comentários