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Crazy Ex-Girlfriend e o final feliz de Rebecca Bunch


Faz pouco mais de um ano que desliguei a televisão após terminar o último episódio da temporada final de Crazy Ex-Girlfriend. Durante esse tempo, questionei muitas vezes as decisões que levaram ao desfecho da série, me irritei, chorei um pouco e elogiei outro tanto a capacidade de Rachel Bloom e Alice Brosh McKenna de conseguir entregar uma história que não pecou por falta de representatividade e abordou de forma leve, porém real, a questão da saúde mental de uma mulher nos seus vinte e tantos anos que nunca havia tido um diagnóstico e acompanhamento corretos para conseguir viver consigo mesma e em sociedade. 

Mas, apesar de todas as vezes em que amaldiçoei os céus pelo término da série, que certamente deixou um vazio na televisão, nunca questionei a abordagem escolhida para representar Rebecca, interpretada pela criadora da série, Rachel Bloom, e seu transtorno de personalidade limítrofe, mais conhecido como borderline. Mulheres borderlines são escassas em produções ficcionais e, quando retratadas, o são com estereótipos gigantescos sobre seus ombros, como o da violência, rispidez, inconstância e personalidade potencialmente suicida. Apesar de haver alguma verdade em tais adjetivos, eles certamente não definem uma pessoa com o transtorno, e há muitas que vivem com ele sem nunca terem recebido um diagnóstico adequado e sofrendo pelo estigma da “mulher louca”. 


Rebecca Bunch tem problemas. Desde o primeiro episódio da série, ela nos foi apresentada como uma mulher capaz de largar o emprego dos sonhos, como sócia de uma grande empresa de advocacia em Nova York, para morar em uma cidade pequena da Califórnia, a duas horas da praia (quatro com trânsito) só porque reencontrou o namorado da adolescência e sentiu nele o chamado da felicidade, o que não pode ser visto como normal. Porém, apesar do rótulo de “louca” que o título da série lhe confere, já na primeira abertura podemos vê-la questionando essa alcunha pejorativa e dizendo claramente que a situação é bem mais complicada do que isso. Rebecca tem problemas, mas ela não é louca. A busca pela felicidade é o que a move.

A Rebecca extremamente eficiente sendo uma advogada de sucesso numa Nova York em tons frios de azul e cinza dá lugar a uma Rebecca em tons quentes que deixa seus sentimentos aflorarem conforme Crazy Ex-Girlfriend avança, jogando fora os diversos comprimidos que tomava para estabilizar a depressão e a ansiedade. Apesar de viver uma vida que poderia ser vista como ideal, a vemos se sentindo infeliz em Nova York após receber a notícia de que seria promovida na firma de advocacia para a qual trabalhava, se escondendo em uma rua ao lado do trabalho e insistentemente repetindo para si mesma que “é assim que a felicidade se parece”. Esse momento é interrompido pela aparição de Josh Chan (Vincent Rodriguez III), seu antigo namorado a quem ela não via há dez anos, que surge caminhando do outro lado da rua, iluminado pela luz da seta de uma propaganda de margarina que pergunta “quando foi a última vez que você se sentiu feliz de verdade?”


Assim como muitas de nós, Rebecca é romântica por ter sido criada à base de fórmulas de felicidade fabricadas por comédias românticas, filmes de princesa e musicais. Relacionamentos amorosos são coisas bacanas quando encontramos a pessoa certa, mas há um bom tempo eles deixaram de ser um objetivo em narrativas sobre mulheres no geral. Na vida de Rebecca, no entanto, um relacionamento estável com a pessoa de seus sonhos é o que ela pensa que lhe daria validação para ser feliz. E, durante três temporadas e meia, ela persegue incessantemente esse alvo, ignorando completamente o fato de que sua felicidade só depende dela. Mudando quase constantemente de foco no amor romântico, passando de Josh para Greg (Santino Fontana/Skylar Astin) e Nathaniel (Scott Michael Foster), conforme a lista de decepções amorosas de Rebecca vai aumentando, nos damos conta de que ela não está destinada a viver uma história de amor épico com Josh e que essa não é uma comédia romântica qualquer. Relacionamentos vêm e vão, mas seus problemas permanecem ali, assim como dúvida sobre qual destino escolher, que a consome e a faz se sentir cada vez mais enredada enquanto a pressão por ser feliz, exercida tanto pela sociedade quanto por ela mesma, aumenta. 

Não é a primeira vez que tal narrativa é feita na ficção. Lançado em 1963, A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath, é um daqueles livros que deixam uma marca em quem os lê. Um retrato franco da sutileza com a qual a depressão pode se manifestar, nele conhecemos Esther Greenwood, uma jovem que tem tudo para ser feliz, mas não consegue sentir-se bem consigo mesma ou com o mundo. Quando Sylvia Plath descreve a dificuldade de Esther em tomar uma decisão ao ver todos os figos, cada qual representando um futuro que poderia ter, ela está falando justamente de como, quando você tem depressão, existem muitas possibilidades, e todas parece realizáveis, mas não há como escolher uma e se dedicar àquilo porque não se sabe quem é e se haverá forças suficientes para ir até o fim. Também nisso é mostrado como idealizamos nossa felicidade para fora de nós, nos sentindo incapazes de tomar decisões definitivas, sucumbindo à autossabotagem, quando nosso interior está um caos.  

“Eu via minha vida se ramificando à minha frente como a figueira verde daquele conto. 

Da ponta de cada galho, como um enorme figo púrpura, um futuro maravilhoso acenava e cintilava. Um desses figos era um lar feliz com marido e filhos, outro era uma poeta famosa, outro, uma professora brilhante, outro era Ê Gê, a fantástica editora, outro era feito de viagens à Europa, África e América do Sul, outro era Constantin e Sócrates e Átila e um monte de amantes com nomes estranhos e profissões excêntricas, outro era uma campeã olímpica de remo, e acima desses figos havia muitos outros que eu não conseguia enxergar. 

Me vi sentada embaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir com qual figo eu ficaria. Eu queria todos eles, mas escolher um significava perder todo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés.” 

É no final da terceira temporada que Rebecca se dá conta de que não adianta fazer terapia e tentar ser uma boa pessoa se não assumir a responsabilidade por seus atos. Até então, ela se via como uma garota apaixonada que não podia ser responsabilizada pelo que fazia, contudo, mesmo tendo sido diagnosticada com transtorno borderline, ela tinha consciência de que não podia interferir na vida das pessoas com a justificativa de ficar com seu verdadeiro amor. Um dos pontos altos da tomada de consciência de Rebecca é quando ela, em meio a um furor hormonal, entra na deep web e encomenda o assassinato da nova namorada de Nathaniel, Mona (Lyndon Smith). Apesar de ter se arrependido logo ao acordar no outro dia e cancelado o pedido, Rebecca é atormentada pela culpa pois, embora todos saibam das coisas terríveis que ela fez em nome do amor e da busca pela felicidade, ela nunca foi responsabilizada, especialmente após receber o diagnóstico psicológico, o que fez com que as pessoas ao seu redor relevem ainda mais as atitudes equivocadas que ela havia tomado anteriormente. 

É nesse ponto que acontece o final da terceira temporada, quando Trent (Paul Welsh) tenta assassinar Nathaniel e Rebecca o salva, quase matando o primeiro, que cai da cobertura de um prédio. Com diversas testemunhas e um homem quase morto no hospital, Rebecca é presa e levada a um tribunal para decidir qual será sua sentença. As opções são simples: cadeia ou alegar inocência com base em insanidade. Ela poderia ter feito isso, já que há um diagnóstico psicológico consistente, no entanto, a ideia de Rebecca é se livrar da culpa através da prisão. Obviamente isso não funciona e as próprias mulheres presas junto com Rebecca se irritam com ela, já que ela é uma mulher branca, de classe média alta, com um bom emprego e uma educação de ponta, que não precisava ir para a prisão, mas escolheu estar lá para se sentir melhor consigo mesma e se responsabilizar por seus atos. Ela sai dali quase à força, mas isso dá início a uma verdadeira transformação na vida dela, que aprende a respirar fundo e fazer pausas para tentar achar seu verdadeiro propósito. 


Mesmo sabendo que precisa de um tempo para si e recusando a proposta de relacionamento de Nathaniel, Rebecca ainda sente necessidade de estar com alguém. Não nascemos para viver sozinhos, e é normal querermos amar e ser amados. Mas há momentos em que precisamos dar um tempo e curtir a nossa companhia, os nossos amigos, as nossas coisas, especialmente quando se está no início de um tratamento psicológico. Quando Greg ressurge em sua vida, agora tão diferente que mudou até mesmo de aparência, sendo interpretado por um outro ator (Skylar, você é legal, mas sempre sentiremos falta de Santino Fontana), a proposta do amor começando de novo com alguém que agora ela enxerga de forma completamente diferente é irresistível para Rebecca. Ela mergulha em um relacionamento com Greg como se fosse uma adolescente, sem conseguir impor limites nem mesmo para ter momentos para si mesma, chegando ao ponto de sufocá-lo e exigir dele que goste de coisas que ele não gosta apenas para fazê-la feliz. Largando o tratamento e os comprimidos, Rebecca age de forma irresponsável pois, mais uma vez, tenta curar seus problemas emocionais e psicológicos com o amor de um homem. 

É interessante que Crazy Ex-Girlfriend aborde isso, já que não é incomum acontecer de pensarmos que tudo está resolvido quando estamos apaixonados. Tal pensamento, além de errado, é ainda mais perigoso quando exercido por uma pessoa como Rebecca, com transtorno de personalidade limítrofe. Como Dr. Shin (Jay Hayden) explica para ela, “uma pessoa borderline é essencialmente alguém que tem dificuldade em regular suas emoções, alguém a quem falta proteção emocional para se sentir confortável no mundo”. Claro que essa é uma simplificação do transtorno, mas nos serve para entender o quanto emoções podem ser complicadas para pessoas diagnosticadas com o transtorno, já que tudo é sentido com mais intensidade. Permanecer no tratamento, dando total atenção ao processo de aprendizagem de reconhecimento e controle de emoções, fazendo terapia de grupo e se compreendendo como uma pessoa mais sensível do que as outras, antecipando situações que podem se tornar problemas, é essencial para Rebecca, mas ela demora um pouco até perceber isso. 


Em uma cena importantíssima, é mostrada a lista de características, com nove itens, que podem indicar a existência do transtorno de personalidade limítrofe em alguém. Para que haja a possibilidade, é necessário que a pessoa marque ao menos cinco dos nove itens. Rebecca marcou os nove, sendo um deles o chamado “sentimento de vazio crônico”, que se caracteriza por um sentimento de incompletude, como se houvesse um buraco dentro da pessoa, levando-a a sentir-se como nada ou ninguém, o que pode causar tentativas de preencher tal falta com excessos de coisas que parecem boas, como sexo, comida, drogas ou amor. Não é preciso ir muito longe para perceber qual excesso Rebecca comete na série. Seus episódios de vazio existencial fazem com que ela busque validação para existir em relacionamentos românticos, se apegando de forma nada saudável aos homens de sua vida.

Não é à toa, portanto, que durante anos ela foi erroneamente diagnosticada como depressiva. Apesar do quadro depressivo fazer parte do transtorno, reduzir Rebecca ou qualquer outra pessoa borderline, ficcional ou não, a tais momentos é fazer um diagnóstico apressado e condená-las ao sofrimento por não haver compreensão de quem são e do porquê sentem as coisas tão intensamente, inclusive a tristeza e o vazio. O diagnóstico errado pode levar a pessoa a se afundar ainda mais em comportamentos perigosos que só lhe trarão mais sofrimento, como enxergar o amor romântico na forma de uma tábua de salvação, quando a única resposta é o tratamento psicológico e o autocuidado. 

Ao contrário do que acontece em Fleabag, quando a protagonista permite que o Padre Gato entre em seu espaço pessoal reservado a reflexões e performances escapistas de que sua vida é uma série, quem adentra o espaço secreto de Rebecca não é um homem, mas sua melhor amiga Paula (Donna Lynne Champlin). A escolha de quem finalmente conseguiria ver Rebecca por completo poderia ter levado os rumos da série para o mito do one true pairing (amor verdadeiro, aquele a quem a pessoa é destinada), mas essa narrativa é quebrada com a presença de Paula que, embora aparentemente não seja o centro da vida de Rebecca, é a pessoa com quem ela possui maior conexão emocional e que realmente está ali, após idas e vindas emocionais, disposta a enxergar a amiga da forma como ela realmente é: uma pessoa que está tentando achar seu lugar no mundo e em si mesma. O drama de Fleabag é muito parecido com o de Crazy Ex-Girlfriend, embora as séries possuam abordagens diferentes para a saúde mental feminina. A primeira é muito mais pesada, apesar de seus alívios cômicos; já a criação de Rachel Bloom se propõe a ser leve e divertida, com todas as suas músicas e figurinos em cores brilhantes, mas os temas pesados ainda estão ali, ainda temos uma protagonista tentando se encontrar em um mundo que lhe parece mais hostil porque ela é hostil consigo mesma e que não aprendeu a reconhecer e estabelecer seus limites pessoais. 


Enquanto a conexão emocional e verdadeira de Fleabag com o Padre Gato a faz aprender que pode ser amada, mesmo que não seja perfeita, o laço entre Rebecca e Paula, uma amizade sem julgamentos, finalmente faz com que a protagonista perceba que, para além da terapia e da medicação, ela precisa entender a si mesma e se estabelecer como pessoa independente. Apesar do desenrolar divertido dos três encontros perfeitos com Josh, Nathaniel e Greg, e de amá-los a ponto de poder escolher qualquer um deles para iniciar um relacionamento sério, assim como a figueira de Esther Greenwood, ela não consegue decidir com qual deles ficar. Todos os futuros parecem ótimos: um casamento no restaurante italiano de Greg, cercada de amigos e familiares; a vida de mulher casada esperando um filho de Nathaniel, preparando o berço do bebê que virá; ou o futuro brilhante com o qual sonhou durante muitos anos com Josh, duas crianças e uma casa iluminada pela luz do sol da manhã, na correria do dia-a-dia para tomar café da manhã, deixar as crianças na escola e ir trabalhar. Embora ela possa escolher qualquer uma dessas possibilidades, seu fantasma do Dia dos Namorados futuro lhe mostra que, não importa qual a escolha e o quanto ame cada um dos pretendentes, não há felicidade ali porque ela ainda não é uma pessoa completa em si mesma. 

É importante salientar que, para além do transtorno de personalidade de Rebecca, a melhora para ela não está focada somente na terapia, mas também em tirar do pedestal certezas que tinha até então do que deveria ser sua vida. Um cara a quem ama, talvez casamento e filhos, uma vida de comercial de margarina, isso era a felicidade para ela, felicidade imposta tanto a partir da constante ladainha de sua mãe quanto por filmes e musicais que mostram a mocinha finalmente feliz em seu destino, salva por um belo príncipe que a amaria por toda a eternidade. Desconstruir esse pensamento leva tempo e dá trabalho, mas ela consegue fazer isso, como bem podemos perceber no penúltimo episódio de Crazy Ex-Girlfriend, quando ela rejeita os três pretendentes a seu coração. Essa abordagem do aspecto emocional da saúde mental de uma pessoa borderline é particularmente importante porque mostra que, embora o diagnóstico possa ser o mesmo, cada um lida de forma diferente com suas questões psicológicas. O meio nos afeta e não podemos ser confinados a definições preguiçosas tiradas de um manual de psicologia. Todos temos algo de único e prioridades diferentes. A de Rebecca era ser feliz, mas ela estava procurando no lugar errado. 

A jornada de Rebecca rumo à saúde mental é árdua e exaustiva. Suas vitórias são comuns, coisas simples do dia-a-dia, mas que fazem a maior diferença em sua vida, como sair de casa ou ir até uma churrascaria de carro com um amigo sem entrar em assuntos dramáticos ou pesados demais. Claro que com isso ela aprende que as coisas não são bem assim e não é possível controlar o comportamento de outras pessoas para se ajustar de acordo com as necessidades dela, mas saber reconhecer isso e não surtar porque um amigo não está obedecendo ao seu script mental também é uma vitória, ainda que pareça pequena a olhos distantes. 


Em sessão com sua psicóloga, Dra. Akopian (Michael Hyatt), Rebecca revela que se sente mal porque todos os amigos estão bem e ela parece não estar fazendo progresso. “Eu vejo a vida como uma competição, e agora estou perdendo. Quero congelar todos os meus amigos para conseguir tempo para encontrar uma carreira melhor e um parceiro de vida.” Isso é feio, mas é real. Todos já nos sentimos deixados para trás por conquistas de nossos amigos e de pessoas à nossa volta. Mas parte do processo que garante a saúde mental é reconhecer isso e não entrar em uma corrida contra o tempo para conseguir alcançar as metas que eles alcançaram, mas compreender que, além de cada um ter seu tempo, objetivos e prioridades são coisas muito pessoais e não podem ser medidos pelo sucesso ou fracasso alheio. Para Rebecca, no entanto, isso pode ser ainda mais complicado do que um simples entendimento de que a vida não é uma competição. Como borderline, ela sente tudo intensamente e o sentimento de estar atrás no jogo da vida logo se transforma na certeza de ser um fracasso e de não merecer ser amada ou compreendida. A própria escolha do nome de Rebecca já indica sua personalidade. Bunch, seu sobrenome, significa “muito”. Tudo é muito para Rebecca, já que ser borderline basicamente significa não ter limite emocional. Ela não gosta, ela obceca; ela não detesta, ela odeia; ela não fica triste, ela entra em depressão; ela não fica feliz, fica eufórica.

Após todo o drama de Trent e Rebecca finalmente estar retida para averiguação do que havia acontecido, Nathaniel chega perto de compreendê-la, mas falha ao submeter um argumento escapista, brilhantemente mostrado no dueto Nothing is Ever Anyone’s Fault, se usando de fatores externos como os pais, o contexto histórico e o Big Bang para justificar suas más ações. Apesar do amor existente entre os dois e de Nathaniel claramente estar ansioso para recomeçar seu romance com ela, Rebecca agora precisa encarar os resultados de suas escolhas e assumir a responsabilidade. Somos produtos de traumas de infância e coisas que nos aconteceram, mas existe um ponto na vida em que tomamos consciência de que não somos só isso. Viver em negação e não pensar em como suas ações afetam as outras pessoas é ser alguém terrível. Ninguém ali havia conseguido enxergar com clareza até então que a jornada de Rebecca é de autoconhecimento, e não de amor.


No final da segunda temporada, quando Rebecca está prestes a se casar com Josh, é cantada a música Rebecca’s Reprise, que nada mais é do que um medley com diversas músicas de momentos definidores da trajetória dela até aquele momento. Contudo, apesar de ser curta e não ter gravado muito na memória do público, nela percebemos chaves da busca por felicidade de Rebecca e como ela enxerga o mundo. A letra, bastante reveladora, diz:

“Bem, Rebecca, agora você conseguiu. Finalmente você conseguiu tudo que disse que queria. Então tire um momento e respire fundo, porque finalmente você será a heroína da sua própria história, a princesa no conto. Numa reviravolta fantástica, descobri que aparentemente a mágica existe, posso senti-la em meu vestido e no meu véu. Filhinha do papai, princesa do seu mundo, isso é algo que nunca conheci antes. Mas agora que sou uma noiva, ele olhará para mim com orgulho… Porque meu pai vai me amar de um jeito maravilhoso, tudo do passado vai simplesmente cair fora. Meu pai vai me amar, e minha mãe vai me amar e Josh vai me amar e então eu nunca mais terei problemas novamente.” 

A letra da música, de uma ingenuidade quase infantil, mostra o quanto ela está se iludindo, afundada na falsa expectativa de que, assim que entrar pelo corredor do altar, tudo mudará. Ela agora será uma senhora casada com o amor de sua vida, respeitada e amada por seus pais, com um conto de fadas se estendendo à sua frente. Como sabemos, as coisas não funcionam assim, nem na vida real e nem em Crazy Ex-Girlfriend. Josh a abandona no altar e Rebecca se sente completamente perdida, já que o homem no qual ela havia depositado todas as suas expectativas a deixou. 

Durante toda a sua vida, Rebecca performou o papel que faria com que as pessoas ao seu redor lhe amassem mais. Para ser amada pela mãe, cursou Direito em duas faculdades de ponta, se tornou uma brilhante advogada e foi trabalhar em Nova York, em um apartamento gigantesco, porém vazio, ganhando uma fortuna, mas se sentindo um lixo. Por não conseguir ser amada pelo pai, se envolveu com um homem mais velho que lhe fazia lembrar do amor que não teve, e entrou em colapso nervoso quando o relacionamento não deu certo. Na tentativa de recuperar a memória da última vez em que havia sido feliz, largou toda sua vida em Nova York e se mudou para o outro lado do país, indo morar numa cidadezinha longe de tudo, e tentou ser a Garota Legal que vai a festas e tem muitos amigos e está sempre maquiada e arrumada e disponível. Para ter uma amiga fiel, aceitou entrar em esquemas de stalking sinistros, usando roupas de espionagem e fazendo coisas claramente ilegais que lhe ajudaram a conseguir o que queria, mas também lhe fizeram ser uma Garota Legal e Apaixonada disposta a qualquer coisa para conseguir seu amor, inclusive realizar a fantasia de sua amiga ao viver uma trama arriscada de perseguição e quebra da lei. Rebecca se ajustou a cada pessoa da sua vida na busca por amor e aceitação porque, além de desejar intensamente ter seu final feliz, ela não sabia quem era e simplesmente vestia personagens de acordo com as necessidades das pessoas, inclusive de seus interesses amorosos. 


Os parceiros românticos que escolhemos por vezes são representações de quem gostaríamos de ser. Mas escolher um deles é fechar totalmente a possibilidade de outro futuro, e certamente não ajudaria em nada a jornada de autodescoberta e aceitação de Rebecca, uma vez que enquanto tivesse todas as possibilidades em aberto ela poderia ser qualquer coisa. Portanto, a solução final foi rejeitar os três pretendentes e focar em ser uma pessoa melhor para si mesma, não para performar expectativas das pessoas à sua volta. 

Prestes a tomar a decisão a respeito do homem com quem teria um relacionamento sério e que seria O Escolhido em definitivo, Rebecca está uma bagunça. Ela não consegue se decidir quanto a um dos três, já que todos eles, agora evoluídos como pessoas, são compatíveis com ela e há sentimentos entre todos. Nesse momento, Paula vai lhe visitar e Rebecca, tentando determinar qual será seu futuro, encara o infinito e mergulha em sua própria mente, vasculhando narrativas musicais que a ajudem a entender o que seu coração deseja. Quando Paula pergunta a Rebecca o que diabos é aquilo que ela faz de desaparecer por uns instantes olhando pra o infinito como se catatônica estivesse (coisa que também já vimos em Fleabag, por sinal), ela não sabia, mas havia feito a pergunta mais honesta e importante que alguém já fizera para a amiga. Rebecca passou quatro temporadas em busca da felicidade, pensando que a acharia no homem de seus sonhos, quando na verdade os verdadeiros momentos de felicidade (ou de sinceridade para consigo mesma) aconteciam em sua cabeça, quando ela se projetava como a estrela de um musical, narrando a própria vida através de canções. É aí que Paula, sabiamente, percebe a amiga e toda sua complexidade e lhe diz que é isso o que ela deve fazer, ela deve escrever as músicas que estão em sua cabeça e que lhe ajudam a entender coisas sobre si mesma. Esse é o caminho da felicidade para Rebecca. 

Claro que as coisas não acontecem da noite para o dia. Se passa um ano entre esse momento e o final da série, onde vemos uma Rebecca segura de si, solteira, revelando o grande projeto no qual trabalhou durante um ano em um restaurante no Dia dos Namorados. Finalmente, ela se sente confiante o suficiente para mostrar o que sente, o que pensa e como enxerga o mundo. O processo que a levou até ali não foi fácil: foram muitos dias ensaiando, tomando aulas de piano e de canto, desafinando muito e aprendendo a compor músicas, tudo para seguir seu sonho, que não é o de ser uma estrela de musical, mas de ser feliz. Ela só queria ser feliz, e conseguiu achar esse caminho ao encontrar a si mesma e ser sincera com seus desejos. Apesar de toda a pressão para que fosse uma advogada de sucesso, tendo estudado em Yale e Harvard, Rebecca passou dois anos em um processo de desapego da figura que queriam que fosse para construção da figura que gostaria de se tornar, deixando seu emprego, abrindo uma lojinha de pretzels e indo atrás de aulas artísticas para expressar a si mesma. Mas ela não teria conseguido dar nenhum desses passos sem a terapia, sem o conhecimento de que possui um transtorno de personalidade e sem o apoio de seus amigos, que conseguiram entendê-la antes mesmo que ela pudesse se entender plenamente. 


Muitos dizem que o amor é a resposta e conquista tudo. Greg diz isso a Rebecca em I Hate Everything But You e, por muito tempo, ela acredita nesse clichê que nos empurram desde que somos crianças. Mas o amor não é a resposta para nos sentirmos completas, para sermos pessoas independentes e capazes de estar em um relacionamento. Até porque o relacionamento mais importante que temos é aquele que desenvolvemos com nós mesmas. Somos levadas a acreditarmos que só estaremos completas quando encontrarmos a Pessoa Certa, mas e se não existir uma? E se só existirem escolhas que nos levam para caminhos diferentes? Está tudo bem ser assim, Rebecca aprendeu isso ao ponto de rejeitar seus três pretendentes, mesmo quando Greg lhe pergunta se realmente precisa fazer todo esse trabalho de recuperação de si mesma sozinha. Ela precisava. Nós precisamos. Relacionamentos são maravilhosos, mas não somos nada se nos sustentarmos apenas em nossos parceiros amorosos. Nas palavras da própria Rebecca no último episódio da série, “o amor romântico não é um final, mas apenas parte da sua história”. A pergunta que permeou toda a metade da quarta temporada, “quem vai ficar com Rebecca Bunch?”, perdeu totalmente seu sentido, pois quem ficaria com ela é ela mesma. Ao encontrar a si e dar voz a seus sonhos, medos e desejos através da música, Rebecca encontrou também a felicidade que precisava para ser inteira e poder ter um recomeço, agora consciente de que é uma pessoa com problemas, como todo mundo, mas que está apta a lidar com eles. Para Rebecca, é assim que a felicidade se parece.

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