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Frankenstein, de Mary Shelley

Há quase dez anos, escrevi uma resenha sobre Frankenstein aqui no blog. Foi uma das primeiras resenhas que escrevi e foi péssima. (Também já foi tirada do ar, pois óbvio.) Eu não havia gostado do livro e não sabia escrever resenhas, então dá para imaginar o quão constrangedor aquele texto ficou. Passei vários parágrafos dizendo que o livro era um grande exagero dramático e que eu não suportava os arroubos emocionais de Victor Frankenstein e da Criatura. 

Reli o livro agora e gostei demais. É engraçado como a nossa experiência de leitura muda com o passar do tempo. Não é à toa que Italo Calvino disse que clássico é o livro que você relê. Cada leitura é diferente - até porque somos pessoas diferentes de quem éramos há tantos anos. Eu certamente não sou mais a adolescente que estava a recém saindo do ensino médio e não tinha muita bagagem literária. Embora sempre tenha lido e gostado de clássicos, todo livro possui seu tempo. E Frankenstein é desses que exige um pouco mais de bagagem - ao menos para mim. 

A Companhia das Letras me enviou o e-book da nova edição do livro, publicado pelo selo Zahar, com tradução de Santiago Nazarian. Demorei para lê-lo porque tinha uma lembrança muito ruim do livro, mas queria dar uma segunda chance à história já que, teoricamente, tem tudo a ver comigo: horror, ficção científica, gótico; são temas que me agradam muito e os quais estou sempre orbitando. Recentemente, inauguramos um novo quadro no podcast do Querido Clássico, chamado Meu Querido Clássico, no qual convidamos pessoas queridas para conversarem sobre seus livros preferidos. Convidei a Jéssica, do Fright Like a Girl, e ela escolheu justamente Frankenstein para lermos e discutirmos num episódio (vem aí). Foi o que faltava para eu iniciar essa releitura. E não me arrependo. 

O livro é muito diferente do que eu imaginava. Mary Shelley era maravilhosa e transmitiu isso a cada página. Tudo é dramático, sim, mas há motivos para o drama. O cenário, como em todo bom gótico, acompanha as emoções do protagonista - que não é a Criatura, como muitos pensam -, Victor Frankenstein, ou, como eu passei a chamá-lo, Vitinho. 

É fácil identificar-se com ele. Um jovem rapaz que fica entusiasmado pelos livros que lê e pela possibilidade de descobertas. Movido por esse entusiasmo, uma curiosidade quase infantil e a tristeza pela perda da mãe, Vitinho Frankenstein vai para a faculdade estudar medicina, mas decide que sua carreira consistirá em descobrir o elemento da vida - e transgredir os limites da morte. É algo compreensível. Até demais. Ele entra com tudo no estudo daquilo que pode ultrapassar a barreira da morte. Sua ideia é erradicá-la a ponto de as pessoas só morrerem por morte violenta - ou nem isso. É um objetivo nobre, mas os meios para tal são complicados, para dizer o mínimo. 

"Para examinar as causas da vida, precisamos primeiro entender a morte."

Victor Frankenstein viola túmulos, recolhe partes de cadáveres, faz experimentos em seu laboratório, ignora todo mundo - família, amigos, colegas. Tudo em nome da ciência. Mas, ao terminar seu experimento, ele se descobre profundamente enojado e perturbado, abandona sua Criatura - de mais de dois metros de altura - e some. Ficamos sabendo que ele sumiu até de si mesmo, pois não apenas fugiu de sua criação como, na onda das mocinhas do Romantismo, ficou com uma febre emocional que o pôs de cama por meses; depois, com o auxílio da família, foi novamente para Genebra e tentou esquecer de que a Criatura existia. 

(Ter um nervous breakdown após fazer cagada, ficar doente de puro estresse, sumir por meses e depois fingir que nada aconteceu: quem nunca?) 

Essa característica, em geral, era dada a personagens femininas. Mas Mary Shelley decidiu que seu protagonista teria esses arroubos dignos de uma Cathy Eanrshaw (O Morro dos Ventos Uivantes - que é posterior a Frankenstein, mas um bom exemplo da mocinha que possui reações emocionais fortes). É uma quebra de um estereótipo de gênero, mas eu não esperaria nada menos de Mary Shelley, especialmente ela tendo tido a mãe que teve, a sensacional Mary Wollstonecraft. 

Embora o livro seja cheio de reflexões filosóficas sobre vida, morte, responsabilidade científica, bondade e maldade humanas, ele também é uma história de aventura. Confesso que não estava esperando por isso, pois minha memória da primeira leitura guardava uma impressão bem diferente. 

Mas ele é repleto de ação. Victor Frankenstein viaja pela Europa; através de seus olhos, conhecemos as paisagens de diversos lugares, embora as da Suíça sejam as mais mencionadas. As personagens vivem deslocando-se de um lado a outro, tudo possui muito movimento. "Mudança" parece ser a palavra de ordem aqui. Lugares, estações, pessoas, tudo muda constantemente em Frankenstein, embora algumas coisas permaneçam as mesmas: os desejos, a culpa, os conflitos e os temores. 

Victor e a Criatura: quem é o vilão? 

Minha percepção, por causa da leitura que fiz há tantos anos e de diversos filmes que assisti que retratam a obra, era que Victor Frankenstein é o vilão. Todavia, relendo o livro, me percebi muitas vezes inclinada a compreender empaticamente o protagonista, que não age da forma mais ética possível, mas se vê num desespero tamanho, numa situação tão inusitada, impossibilitado de conversar com quem quer que seja sobre o assunto, que não pude deixar de ficar triste por ele. É bem verdade que o debate sobre os limites da ciência e responsabilidade ética pairam por sobre a figura de Victor Frankenstein, mas ele sofre durante o livro inteiro - ora por sua sede por conhecimento, ora pelas terríveis consequências de seus atos e de sua displicência. 

A Criatura, entretanto, é produto disso tudo. Ela era boa no início, possuía boa disposição para com as pessoas, mas todos a trataram tão mal que ela virou um ser atormentado e amargurado, disposto a violência física - que parecia a única linguagem compreendida pelos seres humanos que havia encontrado - em nome de uma tentativa de felicidade, isolado noutro continente com uma companheira. Aliás, todo o plano para obrigar Victor a criar uma companheira para ele é terrível. Existe muito sofrimento ali, e não é difícil, nesses momentos, virar-se contra a Criatura. Os assassinatos que ela comete, os horrores que causa, é fácil enxergá-la como vilã. 

"Por todo lado vejo prazer, do qual apenas eu sou irrevogavelmente excluído. Eu era benevolente e bom; a tristeza me tornou um demônio. Torna-me feliz, e serei virtuoso novamente."

Mas nem Victor Frankenstein nem sua Criatura são vilões. Ambos possuem atitudes condenáveis que geram uma sequência de eventos terríveis, mas eles são seres complexos, capazes de fazer tanto o bem quanto o mal. 

Talvez por isso Frankenstein seja um livro tão triste - e tão resistente ao tempo. Ele é, sobretudo, humano. 

A Criatura no Brasil? 

Uma curiosidade é que, em determinada parte do livro, a Criatura fala para Victor Frankenstein que pretende mudar-se para "as florestas selvagens da América do Sul". Não consigo parar de pensar na Criatura vivendo no Brasil, tornando-se uma das lendas brasileiras, pois gigantesco, poderoso, assustador e habitando a floresta amazônica em 1700 e poucos. A Jéssica me falou que existe uma história que aborda isso - está dentro da hq Frankenstein 200, uma coletânea de histórias sobre o livro escrita por autores brasileiros em homenagem aos 200 anos da obra. Já quero lê-la. 

O livro foi cedido para resenha por meio de parceria com a editora Companhia das Letras

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