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Em defesa de Clara Oswald, a Garota Impossível

Clara Oswald talvez seja a companion mais rejeitada de Doctor Who. A maior parte dos fãs da série não gosta dela, a crítica parece rejeitá-la, em comparação as outras, e ela sempre acaba sendo esquecida quando são mencionadas as companions mais amadas. Clara simplesmente não entra no rol de personagens queridas em DW. Mas isso faz sentido? 

Do começo ao fim, Clara Oswald (Jenna Coleman) tem uma trajetória pouco comum em Doctor Who. Criada por Steven Moffat para substituir talvez os companions mais amados da série, Amy Pond (Karen Gillan) e Rory Williams (Arthur Darvill), depois do dramático episódio final da dupla, The Angels Take Manhattan, o contato inicial que o protagonista (naquela época, vivido por Matt Smith) tem com Clara é durante o primeiro episódio da 7ª temporada, intitulado de Asylum of the Daleks

A bordo de uma nave, sendo membro de uma tripulação rumo ao Alasca, ela se apresenta apenas como Oswin e, no final do episódio, descobrimos que ela foi convertida em um Dalek e não há nada a ser feito - a não ser ela despertar sua consciência, lutando contra seus instintos básicos como Dalek para salvar tanto o Doctor como Amy e Rory. Cinco episódios mais tarde, o Doctor volta a encontrá-la em The Snowmen, mas dessa vez durante a Era Vitoriana, em Londres. Nessa ocasião, ela se apresenta como Clara, uma preceptora que parece ser um pouco fora do comum e que possui um final trágico, assim como o de Oswin anteriormente. Embora tanto o Doctor quanto o público tenham sido apresentados a ela duas vezes, é em The Bells of Saints John que sua versão do século XXI finalmente dá as caras na série e conhecemos a verdadeira Clara. Ao ser mostrada em várias linhas do tempo diferentes, a produção levantou uma questão importante: afinal, quem era Clara e qual é a sua verdadeira origem? 

Essa é uma pergunta que se arrasta durante a segunda metade da 7ª temporada inteira. E é durante essa temporada que, no episódio final, The Name of the Doctor, o público passa a conhecer Clara como a Impossible Girl (ou a Garota Impossível, em tradução literal). Isso acontece porque ela escolhe entrar na linha do tempo do Doctor no seu túmulo, em Trenzalore, com objetivo de salvá-lo da Grande Inteligência (também é apresentada em The Snowmen), que tenta apagar qualquer memória do Doctor no universo - destruindo, assim, não somente o Time Lord como também todos os mundos que ele salvou. Dessa forma, Clara acaba criando uma ruptura no espaço-tempo onde várias das suas versões tentam resgatar e salvar o protagonista em diversos momentos fundamentais da sua jornada. O nome “Garota Impossível” surge porque nem mesmo o próprio Doctor conseguia entender sua origem ou o seu papel no início, chegando a dizer que esse é um dos maiores mistérios do universo e um que realmente vale a pena aprender. 

“Eu não sei onde estou, é como se eu estivesse quebrando em um milhões de pedaços e só tem uma coisa que eu lembro: tenho que salvar o Doctor. Ele sempre está diferente, mas eu sempre sei quem é ele. As vezes sinto que estou em vários lugares ao mesmo tempo, correndo apenas para salvá-lo. Mas ele nunca me escuta. Ou quase nunca. Eu cheguei nesse mundo por causa de uma folha voando, e acho que ela ainda está. Não acho que algum dia eu vá pousar. Eu sou Clara Oswald, a garota impossível. E eu nasci para salvar o Doctor.” 

Mas, mesmo com uma narrativa tão importante e essencial quanto essa, alguns fãs demoraram para aceitar a personagem - e alguns até hoje não gostam dela, seja porque ela foi a substituta de uma companion tão querida quanto Amy ou simplesmente por causa de um certo ciúme pela dinâmica da sua relação com o Doctor de Smith. É compreensível que, após uma companion tão querida, o público tenha dificuldade em aceitar que uma nova está ocupando aquele lugar e tendo uma relação tão íntima como o Doctor, mas Clara não deveria ser menosprezada pelas lembranças que sua sucessora deixou. Ainda assim, ela participou de um dos episódios mais importantes de New Who, The Day of the Doctor, e também esteve presente na regeneração do Décimo-Primeiro Doctor, no especial intitulado de The Time of the Doctor, e foi a principal companheira do Doctor de Peter Capaldi durante duas temporadas. No final, Clara Oswald era muito mais do que apenas a Impossible Girl

Uma das maiores críticas feitas à personagem se concentra na afirmação de que ela seria uma Manic Pixie Dream Girl dentro do arco do Décimo-Primeiro Doctor. Isso porque ao conhecê-lo de fato, no especial de Natal da 7ª temporada (lembremos que, antes disso, ela só tinha aparecido como uma jovem mulher transformada em um Dalek cujo rosto o Doctor nunca enxerga), o Doctor havia desistido de ser quem é e de se intrometer nos assuntos de seres humanos. Após a dolorosa e trágica perda de Amy e Rory, seus companions durante três temporadas - e dez anos, como ficamos sabendo em The Power of Three -, ele resignou-se a uma de suas muitas facetas: a de um ser solitário que, por viver demais, perdeu a tudo e a todos, ora porque eventualmente as pessoas seguem suas vidas, ora pela morte. Seja lá como for, o Doctor agora vive acima de uma nuvem, em sua TARDIS, em plena Londres vitoriana. E ele não quer saber de humanos ou de problemas. 

Obviamente, as coisas não funcionam como ele imaginava que funcionariam e logo ele está envolvido no mistério da neve que é muito mais do que aparenta ser. Mas, para que ele realmente salve o dia e retome o fôlego dos antigos tempos, Clara, uma preceptora vitoriana, é quem tem o papel de lhe despertar a curiosidade. Intercedendo a Madame Vastra e Jenny, ela consegue acesso ao Doctor através da única palavra a que ele responderia: pond (lago, em inglês, mas também o sobrenome de sua ex-companion, Amy Pond). E, embora nós já saibamos que Clara é a garota impossível e já havia tido uma participação especial na salvação do Doctor como a “souffle girl”, é nesse momento que o Doctor percebe que há algo a mais nela, algo que ele não consegue distinguir, mas que a faz ser a pessoa certa e o faz querer sair da toca metafórica. Como ele próprio diz a ela ao final do episódio, ao lhe entregar a chave da TARDIS: “Eu nunca sei por quê, só sei quem”. Mas tudo termina em tragédia e Clara, a preceptora vitoriana, morre. Porém, não antes de fazer com que o Doctor lhe prometa que continuará ajudando as pessoas, que não se esconderá mais. No entanto, ele se dá conta do mistério que a cerca quando, em seu funeral, vê sua lápide e seu nome, lembrando-se da mulher dentro do Dalek que havia lhe salvado a vida. E é então que somos apresentados à verdadeira Clara, uma babá do século XXI a quem o Doctor se apresenta insistentemente até ser aceito. 

Conforme os episódios vão avançando, passamos a conhecer melhor Clara Oswald, a Garota Impossível. O Doctor nunca resistiu a mistérios e, não conseguindo desvendar o dela, chega a envolver-se com uma médium para tentar descobrir quem é aquela mulher que, pela terceira vez, lhe salva a vida. Embora o mistério seja realmente bem construído e, com seu desfecho dramático, quando Clara literalmente se sacrifica para salvar a vida do Doctor - e a todo o universo, que estava sendo corrompido pelo apagamento de todas as vitórias que o Time Lord já havia tido -, o que pode, a princípio, soar como algo óbvio e estereotipado, é difícil olhar para tal narrativa e pensar que Clara é uma Manic Pixie Dream Girl, como ela nos é primeiramente apresentada. 

O termo Manic Pixie Dream Girl popularizou-se com personagens femininas de filmes do início dos anos 2000, em especial Elizabethtown e 500 Days of Summer. Em suma, as MPDG representam personagens divertidas, engraçadas, leves e que servem como plot para ensinar uma lição para um homem, fazendo-o crescer, ou tirá-los de quaisquer poços em que se encontrem. Elas são uma resposta fácil para que um personagem saia da pior e consiga retomar seu ritmo normal - ou melhorar o que parecia sem solução. Mas elas não são desenvolvidas para além disso. Suas vidas pessoais não parecem importar, suas ambições passam despercebidas e suas trajetórias são centradas na visão do homem em questão e na forma como ele se sente a respeito dela. 

Embora Clara literalmente encare a morte para salvar a vida do Doctor e de todo o universo - e venha a morrer diversas vezes, espalhando-se pela linha de tempo de mais de mil anos do Doctor para ajudá-lo em todos os momentos em que ele quase morreu -, ela está longe de ser uma personagem sem ambições, background ou perspectiva. Pelo contrário. É bem verdade que, ao salvar a todos, ela declara que é a mulher que nasceu para salvar o Doctor, mas isso é um exagero narrativo e emocional daquele momento em específico, não vale para sua totalidade enquanto personagem. Clara é uma das companions com maior grau de independência na série. Sua vida está atrelada a do Doctor, mas ela é muito mais do que somente uma companion ou uma mulher que nasceu para salvá-lo. 

É possível compreender isso para além da narrativa de seu arco. Doctor Who é uma série com mais de cinquenta anos e muitas histórias foram contadas ao longo de tantas décadas. Algumas ideias se repetem - o que não faz com que a série deixe de surpreender o público, mas nos leva a pensar mais a fundo na mitologia por trás dela e de seu personagem principal. E o arco de Clara, como alguém que sempre volta ao Doctor, alguém misteriosamente presente, alguém tão importante, mas cuja importância exata não sabemos o porquê… esse arco já foi visto na 4ª temporada. Donna (Catherine Tate), a mulher mais importante de toda a criação, surgiu na vida do Doctor duas vezes. Seu avô, Wilfred (Bernard Cribbins), também. Como o próprio Décimo Doctor (David Tennant) diz: “As pessoas levam centenas de anos para me encontrar… você conseguiu em uma tarde”. Posteriormente, ficamos sabendo que Donna - e seu avô, em um momento diferente - também está conectada ao Doctor em um enredo apocalíptico que se transforma na salvação do planeta Terra - e talvez do universo. Claro, existe uma diferença entre o que vemos em Clara e o que vemos em Donna mas, em suma, ambas são companions cujos destinos estão intimamente ligados à salvação de tudo e que se imiscuem ao próprio Doctor, seja com seu DNA, seja em sua linha de tempo, para transformarem-se em algo a mais. 

O que me incomoda nessas narrativas, entretanto, é que elas tendem a nos dizer que tanto Donna quanto Clara não eram pessoas completas antes do Doctor e que só tiveram sua importância a partir dele. Isso é mais claro em Donna do que em Clara mas, ainda assim, é algo que está lá e é completamente errado. Ambas são companions que dividem entre si uma característica muito importante: elas têm família, emprego e não são completamente centradas nele. Enquanto outras como Rose (Billie Piper) e Amy dedicam suas vidas ao Doctor e têm verdadeira dificuldade em existirem para além dele, Donna e Clara, por mais que gostem do Time Lord e queiram permanecer com ele, possuem vida própria, vida além da TARDIS. É bem verdade que o final de Donna é um dos mais tristes do New Who e é possível afirmarmos que ela jamais teria escolhido ficar longe da vida de viajante no tempo se tivesse opção. Mas, embora ela amasse estar com seu melhor amigo numa caixa azul que voa pelo espaço e tempo, ela nunca centrou sua vida nisso a ponto de esquecer de quem é ou abandonar completamente família e amigos em nome do Doctor. Clara tampouco o fez. 

Após seu arco com o Décimo-Primeiro Doctor, podemos enxergar melhor Clara como uma pessoa independente dele. Ela arruma um emprego como professora de inglês numa escola, um namorado (Samuel Anderson) e reestrutura-se como uma jovem mulher adulta que trabalha e tem vida social. O Doctor é mágico e sempre o será. É praticamente impossível deixar a TARDIS de forma espontânea - talvez apenas Martha Jones (Freema Agyeman) o tenha feito -, mas não é por isso que uma companion precise se resumir a uma Manic Pixie Dream Girl. Sim, Clara ajuda o Doctor e lhe faz ver sentido na vida novamente. Não, ela não é apenas isso. 


O momento de ruptura na trajetória de Clara em Doctor Who é a regeneração do Décimo-Primeiro Doctor. Com a chegada de Peter Capaldi, Clara passa a ter mais autonomia na série, indo além de seu arco como a Garota Impossível. A princípio, foi difícil para Clara lidar com a transformação física pela qual o Time Lord passou. Capaldi, ao contrário de Smith, é um senhor quase idoso quando entra em DW, com cabelos brancos, sobrancelhas permanentemente irritadas e um sotaque escocês. Ele não é mais o Doctor brincalhão, mas alguém que parece perdido dentro da TARDIS e que está disposto a sair guerreando com o mundo para poder ficar sozinho. Enquanto Smith era otimista, impulsivo e extrovertido, o Doctor de Capaldi é muito mais taciturno, introspectivo e até um pouco resmungão. Durante o clímax do primeiro episódio da 8ª temporada, Deep Breath,  não fica claro se o Doctor empurra um homem da TARDIS ou não. Assim, surge um questionamento na cabeça do próprio protagonista: afinal, ele é um bom homem? O tema musical principal do Doctor, inclusive, é intitulado de A Good Man?. É uma dúvida que atormenta Capaldi durante todo seu arco - e que também acompanha Clara, que está perdida com alguém que lhe parece completamente novo. 

O Doctor de Capaldi passa um bom tempo tentando entender a si mesmo naquele mundo, num contexto completamente novo. Cada regeneração muda não apenas a aparência física, como cada molécula e personalidade do Time Lord. Clara não estava acostumada a isso e ela se depara com um senhor meio ranzinza e perdido que até mesmo apresenta traços de crueldade. Perto do Doctor de Smith, com seus discursos humanitários, senso de humor e sua gravata-borboleta, esse é um Doctor assustador. Mas a regeneração anterior, de Smith, antecipa que talvez isso possa acontecer e deixar Clara assustada. Para tal, ele deixa um recado para ela em seu celular pouco antes de sua regeneração. “Eu acredito que você esteja assustada. Mas não importa o quanto você esteja, o homem que está ao seu lado está muito mais assustado do que você jamais poderia imaginar agora”, ele diz. No instante em que Clara ouve a mensagem, o Doctor de Capaldi entende quem ligou para ela, mas percebe que ela ainda não consegue enxergar nele o homem a quem ela ouve no telefone. “Você não consegue me ver. Você tem ideia de como é isso?”. Contudo, ainda que estivesse em um momento de confusão, repleto de dúvidas, ela decide dar um voto de confiança naquele homem em sua frente, que diz ser o Doctor - não apenas por sua história juntos, que envolve tantas vidas e tragédias, mas também porque ela é uma mulher gentil e extremamente empática, algo que é explorado muito durante toda a sua trajetória na série. Ela abraça o Doctor, e ele responde dizendo que talvez ele não goste muito de abraços agora. Pouco importa, ela vai abraçá-lo mesmo assim. 

A partir daí, Clara passa a atuar não apenas como a companion do Doctor, nem mesmo como um mistério a ser resolvido ou a substituta de Amy. Não. Clara possui autonomia e um certo grau de igualdade perante aquele Doctor resmungão. Eles são amigos. Ela o confronta, o desafia, não se deixa dominar por todo o conhecimento do universo e a tendência arrogante que ele tem para com todos, já que é, indiscutivelmente, um dos seres mais poderosos que existe. É interessante como em Flatline Clara assume a posição do Doctor. Quando ele fica preso em uma TARDIS minúscula, é ela quem toma conta da sonic screwdriver e sai resolvendo o mistério, salvando pessoas - e salvando também a ele. Ali, podemos ver como Clara pode ser tão protagonista quanto o Time Lord. A diferença é que ela não regenera, ao passo que ele sim. Mas a atitude é o que faz com que o Doctor seja diferentes de seus irmãos de Gallifrey - e essa atitude, essa compaixão, essa coragem em arriscar-se não apenas para resolver o mistério, mas também para salvar pessoas, isso tudo faz parte de Clara. É mérito dela, não do Doctor. 

A independência de Clara é algo que incomoda o Doctor durante a 8ª temporada. No episódio The Caretaker, ele se veste de zelador e vai até a escola dela, onde ela leciona literatura clássica para alunos do ensino médio. Sim, há uma ameaça alienígena por perto, mas esse não é todo o motivo que o faz estar ali. O Doctor tem medo de perdê-la e quer fazer questão de inserir-se em sua vida, de cuidar dela. Mas Clara está bem: ela tem um emprego, um namorado e ainda tira um tempo livre para viajar na TARDIS pelo tempo/espaço. Contudo, após tantas companions dependentes, é difícil e estranho para ele deparar-se com alguém que lhe impõe limites claros. 

O final da 8ª temporada, com os episódios Dark Water e Death in Heaven, nos mostram um conflito terrível entre o Doctor e Clara. Após a morte de Danny Pink (Samuel Anderson), seu namorado, Clara desafia o Doctor para que ele consiga resgatá-lo. É quase uma traição - Clara joga a chave da TARDIS na lava para chantagear o Doctor a voltar no tempo e salvar Danny. Mas, mesmo assim, ele tenta ajudá-la. A amizade deles é profunda e real, não é feita de uma dependência ou adoração cegas. Clara sabe quem é o Doctor, ela esteve presente em todas as suas vidas, e ela também sabe que não há limites para defender as pessoas a quem ama. 

O plano não dá certo e Clara acaba deixando a TARDIS e tentando seguir com a sua vida. Ela retorno no episódio especial de Natal, Last Christmas. Mas ela não é mais a mesma. 

Já a 9ª temporada, uma das mais tristes de Doctor Who, é feita quase inteiramente de episódios com arcos duplos. Tudo é trabalhado de forma mais lenta e profunda. As tramas, com narrativas paralelas, convergem para o afastamento de Clara, que já não se sentia mais pertencente àquela vida de viajante das estrelas, não após a morte de Danny e com tudo o que passou com o Décimo-Segundo Doctor e sua eterna questão: "eu sou um homem bom?". Clara já não sabe. 

Mas seu destino não poderia ser o de apenas ir embora da série, dando adeus ao Doctor como Martha Jones o fez. Clara, embora tão independente quanto a outra companion, passou por muitos traumas que nenhuma antes dela havia passado. Ela entrou na linha de tempo do Doctor, desfazendo-se em diversas partes, diversas Claras, todas o salvando em suas regenerações, ao longo de mais de mil anos de história. Ela viu tudo, viveu tudo - mas tudo pela metade, de certa maneira. E quando teve a oportunidade de viver uma vida (mais ou menos) comum com seu namorado, ele morreu e seu corpo foi utilizado como parte de uma trama de Missy (Michelle Williams), a antagonista clássica do Time Lord, que criou um exército de cybermen. Danny Pink passou a vida inteira tentando fugir das lembranças de ser um soldado apenas para acabar como um, contra sua vontade. É devastador (e racista, mas isso fica para outro texto). 

Embora Clara esteja decidida a deixar aquela vida com o Doctor, ela é pega no meio de um engano. Em Face the Raven, Clara e o Doctor investigam o que aconteceu com Rigsy, personagem já introduzido em Flatline. O rapaz acordou com uma tatuagem em sua nuca. Essa tatuagem está em contagem regressiva. Ele não tem nenhuma memória do ocorrido. 

É claro que eles não deixariam de ajudá-lo, mas as coisas não saem como o esperado. Com um roteiro que incorpora muito bem elementos de filmes clássicos noir, Face the Raven é um dos episódios mais sensíveis da série. Durante a investigação para ajudar Rigsy, Clara e o Doctor descobrem que Ashildr (Maisie Williams), personagem de The Girl Who Died, uma moça de um vilarejo viking que foi salva pelo Doctor, mas que acabou sendo condenada a viver para sempre, alcançando a imortalidade, agora é a líder de um grupo de executores que se esconde numa rua em Londres onde nada é perceptível aos passantes normais, pois a tecnologia ali usada é de ponta e não deixa rastros. Mas Clara, assim que descobre a verdade por trás da tatuagem de seu amigo, a transfere para si. Ela acha que as coisas darão certo, que está ganhando tempo até que eles consigam resolver o enigma: como tirar a tatuagem sem que ninguém morra? Pois aquela marca significa que, quando o tempo da contagem esgotar, você terá de encarar o corvo e aceitar sua morte, uma punição de um crime. Aquela não era uma punição para Rigsy ou Clara, mas para o Doctor, que foi atraído até lá para ser encarcerado numa prisão. Contudo, Clara é alguém que não suportaria ver um amigo correr risco de vida e arrisca a si mesma para tentar salvar alguém. É apenas quem ela é. E, por isso, ela é condenada e precisa encarar o corvo. Não se pode enganar a morte. 

Heaven Sent é um dos melhores episódios de Doctor Who. Nele, Capaldi atua praticamente sozinho o tempo inteiro. Ele sustenta o episódio durante 5 bilhões de anos que se passam dentro daquela prisão, onde tudo se repete. É o verdadeiro tempo sem tempo, uma prisão arquitetada para Time Lords - e uma feita especialmente para torturá-lo. A perda de Clara só entristece ainda mais o que já era trágico. Quando ele finalmente consegue sair de lá, percebe-se em Gallifrey, seu planeta-natal. E ele não deixará aquilo por nada. 

Se Heaven Sent é um episódio reflexivo, Hell Bent é repleto de ação. A princípio, parece estranho, alienígena num sentido mais tradicional da palavra (o que é curioso, pois a série toda é sobre um alienígena, mas ela nos dá um sentimento de familiaridade e conforto tamanho que dificilmente enxergamos os aliens como criaturas distantes de nós; contudo, em Hell Bent, a diferença é muito marcada, o que pode ser um choque). No início, vemos Capaldi entrando numa lanchonete no que parece ser o fim do mundo, uma região desértica e aparentemente desabitada. Lá, ele encontra uma garçonete e começa a contar uma história sobre uma garota que ele conhecia, mas de cujo rosto não consegue lembrar. Sua memória está fragmentada, porém ele sabe que ela é importante. Os sentimentos continuam. 

Nesse rememorar, descobrimos o que aconteceu em Gallifrey. O Doctor fez uso de uma câmara de extração, uma tecnologia gallifreyana, para retirar Clara de sua morte minutos antes que ela acontecesse. O corvo é congelado e Clara fica em uma espécie de estase. Ela não está viva ou morta. Seu coração parou entre uma batida e outra. Ela tem apenas um pulso restante e precisa viver o máximo possível até o momento em que ele retorne. 

Como sabemos, Doctor Who sempre nos deixou cientes de que existem acontecimentos que não podem ser mudados. São os pontos fixos da história. Mortes costumam ser assim, especialmente aquelas que envolvem viajantes do tempo. A morte de Clara, encarando o corvo, é um ponto fixo na história e no tempo. Ela não pode viver para sempre no intervalo de uma pulsação - um dia, ela precisará voltar. Os Time Lords restantes revoltam-se contra o Doctor, tentando obrigá-lo a mandar Clara de volta ao momento de sua morte. Mas ele não aceitará isso. 

Assim como no começo, o Doctor rouba uma TARDIS e foge com Clara. Eles vão até o fim do universo - o fim literal, onde o tempo também morrerá. A ideia era que lá Clara encontraria o pulso, já que aquilo é o fim de todas as coisas e o tempo é distorcido. Mas as coisas nunca são como as desejamos. O fim do universo não tem o pulso de Clara, mas tem Me (Ashildr, que adotou esse nome após tantas incontáveis vidas de memórias perdidas, nas quais tudo o que restava era ela, sozinha). O universo está morrendo e ela permanece. E é ela quem explica para eles que o híbrido, um tema que volta e meia surgia durante a temporada, tão temido pelos Time Lords, na verdade é uma combinação de Clara e do Doctor. De alguma forma, eles se fundiram em algo perigoso. Quando juntos, não há nada que os detenha. Suas personalidades - e imortalidades - são riscos para todo o universo. A única solução é separarem-se. 

Contudo, eles sabem que enquanto um lembrasse do outro a separação seria impensável. Talvez pudesse ter ocorrido antes, quando Clara havia decidido deixar o Doctor, mas não ali, não no fim do mundo, não vivendo num intervalo de uma pulsação. Eles já haviam ido longe demais para separarem-se de boa vontade. Percebendo que aquilo realmente poderia ser perigoso, já que não haveria limites para os dois, eles usam o bloqueador neural e o ativam aleatoriamente. Um deles perderá todas as memórias do outro.  

É interessante como, dessa vez, não é a companion que perde a memória. O Doctor de Capaldi acaba recebendo o choque do bloqueador neural e esquecendo-se de Clara. Os sentimentos permanecem, as lembranças, não. 

Nesse momento, Clara transforma-se no Doctor. Ela é imortal, até que se diga o contrário, e junto de Ashildr rouba uma TARDIS e passa a viver como o Time Lord que um dia fora seu mais querido amigo. Todo o arco de Clara nos conduziu para isso. Ela sempre foi destemida, curiosa, boa em resolver enigmas e disposta a se sacrificar para salvar pessoas. Ela sempre foi uma espécie de Doctor. Sem ele, ela agora vive com sua própria companion, desbravando o universo - lamentando sua falta eternamente, como podemos ver em sua despedida final, já que ela é a garçonete que o atende no restaurante do fim do mundo. E o próprio restaurante é a TARDIS. As duas TARDIS se cruzam no espaço, sem se notarem, e seus destinos ficam separados para sempre. O Doctor não pode lembrar dela sem que isso cause um problema sério no universo - o que não nos é estranho, já que semelhante coisa ocorre entre o Doctor e Donna, que é forçada a esquecê-lo após absorver uma parte da energia Time Lord, tornando-se, ela mesma, em Doctor Donna. 

O final de Clara é satisfatório não só porque explora muito os pontos fortes da sua relação com o Doctor, mas também porque faz com que ela seja agente do seu próprio destino. Ela decide para onde vai, com quem vai e qual o seu próximo passo. Ela não foi condenada a esquecer tudo como Donna, ou a viver em uma realidade alternativa como Rose. É um dos finais mais felizes das companions do Doctor e, por causa disso, deixa um gosto agridoce na boca. Ao mesmo tempo que ela se despede, você quer saber para onde elas foram.

É compreensível que Clara não seja tão amada pelos whovians quando estamos vindo do arco de Amy e Rory. Mas ela tem uma das (se não a) melhor construção de companion em Doctor Who. É triste e é bonito, delicado, tão complexo quanto ela mesma. Garota Impossível, salvadora do Doctor, imortal e uma espécie de Doctor ela mesma, Clara é fascinante. 

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