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Relendo meu livro preferido na pandemia: A insustentável leveza do ser

Sempre me espanto quando dizem que A insustentável leveza do ser é um romance erótico. Me parece uma fala de alguém que não leu o livro. Mas conheço diversas pessoas que o leram e mesmo assim afirmam tal coisa. Não sei o que pensar disso e fico visivelmente desconcertada - talvez elas sejam mais pudicas do que pensei que fossem, já que classificam como "erótico" algumas passagens com conteúdo sexual - que nem ao menos é explícito; é, antes de tudo, filosófico. 

Esse livro tem me acompanhado há muitos anos. Faz quase dez que o li pela primeira vez e suas palavras ficaram impressas em mim. Volta e meia o tiro da estante, leio alguns trechos ou o releio por inteiro, e há sempre uma descoberta nova tanto a respeito do livro quanto sobre mim mesma. Tendo a pensar que nossos livros favoritos revelam aspectos de nós mesmos que são difíceis de vislumbrar no cotidiano. Por que gostamos deles, o que pensamos ao lê-los, por quais motivos voltamos às suas histórias. Volto à obra de Milan Kundera por diversos motivos, cada um diferente conforme os anos passam. Dessa vez, foi para o Clube do Livro Querido Clássico. Mas fazia tempo que sentia que precisava relê-lo. 

O livro possui sete partes e, embora elas sejam encadeadas, todas elas possuem algo único em seus capítulos. São reflexões filosóficas e históricas que marcam a passagem do tempo para o autor e suas personagens - e também para nós, leitores, que nos transportamos para Praga em meados dos anos 1960 e acompanhamos as incursões de Kundera à história da Europa, da música, da filosofia e da teologia. 

Cada releitura me faz pensar mais sobre um aspecto ou sobre outro. Nas minhas primeiras leituras do livro, concentrei-me no drama de Tereza e Tomas, como ela, uma jovem autodidata criada numa família pobre e, muitas vezes, violenta, tinha nos livros a escapatória para um mundo melhor e desejava elevar-se através da cultura. Não é preciso fazer esforço para perceber por que isso me chamou tanta atenção, a mim, uma jovem de dezoito anos na época que, assim como Tereza, trabalhava parte dos meus dias num restaurante, servindo a bêbados e encontrando escapatória em livros clássicos. Foi uma identificação instantânea que me marcou e me guiou em muitos sentidos. Mas hoje, ao reler o livro novamente, me percebo muito mais uma versão da vida real de Sabina do que uma Tereza. 

Sabina foge de tudo o que lhe parece cercear a vida. Ela foge do kitsch, essa negação do erro, do sujo, daquilo de que temos vergonha. Sabina pinta porque encontra nisso também sua primeira traição: aquela feita para seguir rumos distorcidos do que seu pai queria para ela. E ainda que a primeira parte do livro a represente como uma amizade erótica de Tomas, sem grande voz, no restante da leitura descobrimos que Sabina é essa mulher que possui opiniões firmes sobre muita coisa, estabelecidas em oposição a tudo aquilo que lhe foi forçado durante os anos de juventude. A música, a alegria das marchas, a fidelidade, a devoção a partidos políticos, a necessidade de posicionar-se o tempo todo... Ela pavimenta seu caminho opondo-se a tudo que um dia lhe traumatizou. E, embora eu, de fato, concorde com muitas de suas opiniões e até mesmo com as formas com que lida com pessoas e situações, é nisso que mais me enxergo, especialmente agora: alguém que se formou a partir de uma luta constante pela aniquilação do kitsch, que pautou suas ações numa eterna oposição. 

"O drama de uma vida pode sempre ser expressado através da metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo nos ombros. Carregamos esse fardo, suportando-o ou não, lutamos contra ele, perdemos ou ganhamos. Mas o que acontecera a Sabina? Nada. Deixara um homem porque quis deixá-lo. Ele a perseguira? Procurara vingar-se dela? Não. Seu drama não era o de peso, mas de leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser.

Até então, os instantes de traição exaltavam-na e enchiam-na de alegria com a ideia de que um novo caminho se abria e, no fim desse caminho, ainda uma outra aventura de traição. Mas o que aconteceria se a viagem acabasse? Podemos trair pais, um cônjuge, um amor, uma pátria, mas o que resta para trair quando já não houver pais, nem marido, nem amor, nem pátria?

Sabina sentia o vazio em redor de si. E se esse vazio fosse precisamente a meta de todas as suas traições?

Até então, ela não tinha tido, evidentemente, consciência disso, e é compreensível: o objetivo que perseguimos está sempre oculto. Uma jovem que deseja se casar tem vontade de uma coisa que lhe é completamente desconhecida. O rapaz que corre atrás da glória não faz a mínima ideia do que é a glória. Aquilo que dá sentido à nossa conduta é-nos sempre totalmente desconhecido. Também Sabina ignora que objetivo se esconde atrás do seu desejo de trair. A insustentável leveza do ser, é esse o objetivo?"

A insustentável leveza do ser é um livro, acima de tudo, sobre a vida. E também muito político. Talvez até pudesse ser classificado como "anticomunista". É engraçado dizer isso porque conheço muitas pessoas de direita, que pautaram sua vida em oposição ao comunismo, que detestam esse livro. Mas Kundera passa boa parte dele falando mal do regime comunista que tomou conta da República Tcheca - e que serve de fio condutor a todas as ações das personagens. 

É mais engraçado ainda dizer isso justamente agora porque não foram poucas as vezes em que, lendo o romance, me percebi fazendo conexões óbvias com as diversas passagens nas quais Kundera relata os abusos e crimes do regime e a festa do ódio das pessoas com a realidade do Brasil de agora. O termo "festa do ódio", que é mencionado algumas vezes no livro, me chamou particularmente atenção, já que não penso que possa haver algo melhor para explicar o Brasil do movimento bolsonarista. É uma festa do ódio. Há muitas pessoas que votaram por ódio e destruíram o país por ódio - um ódio completamente forjado pelo kitsch, mas essa é uma conversa que, assim como Sabina, não tenho interesse em ter. Há muito me afastei de discussões - políticas, sociais, quaisquer que sejam. No livro, Sabina não se entende direito com Franz porque enquanto ela está cansada de falar no regime - contra ou a favor - e só quer viver a sua vida, ele possui uma ideia romântica sobre a Grande Marcha, como é chamado o movimento da esquerda durante a história, em busca de um mundo mais igualitário, melhor. 

É uma ideia romântica que admiro, mas de longe. Chega um momento em que o silêncio é muito atrativo, ainda que Franz e até mesmo Tomas estejam certos ao perceberem que as pessoas que marcham ou fazem comunicados públicos, expondo suas opiniões com grandes gestos, não estão necessariamente acreditando que aquilo, aquele ato banal e minúsculo mediante um regime totalitário, mudará algo de fato, mas apenas demonstrando que ainda existem pessoas que se importam e não têm medo de lutar pelo que acreditam. É importante, é até mesmo bonito, mas estou cansada. 

A luta por qualquer coisa que seja exige paixão, e eu não sou uma pessoa apaixonada por praticamente nada. Já fui, mas estou realmente exausta. É o que anos de gritos, brigas, um golpe e uma pandemia fazem com a gente. É também uma posição contra a necessidade de fazer algo. Eu sou contra muitas coisas, e tenho verdadeiro horror ao governo, mas não quero entrar na Grande Marcha. Não quero servir a um propósito. Quero o silêncio de quem já lidou com muitos gritos. 

Pelo menos por enquanto. Certamente, a pandemia alterará a todos. Tenho me percebido cada vez mais imersa num tempo sem tempo. Passado e presente se mesclam numa narrativa escrita por uma mênade. Foi interessante,  também por isso, reler esse livro agora e dar um oi para meus pensamentos e visões de mundo de uma década atrás. A Mia daquela época não é a Mia de agora e nisso pude ver a extensão do tempo que passou. 

As personagens de A insustentável leveza do ser também possuem dificuldade para enxergar o tempo. Talvez isso seja efeito de momentos traumáticos, especialmente os coletivos, como governos ditatoriais e pandemias. A gente fica tão abalado que se abraça em si mesmo e de lá só sai para colocar metade da cabeça para fora da concha metafórica de vez em quando e verificar se o mundo não acabou. Bem, ainda estamos aqui. Mas estamos atordoados. 

Tereza, Tomas, Sabina e, posteriormente, Franz também sentem-se atordoados. É a vertigem, como Kundera diz - que não é o medo da queda, mas o desejo de simplesmente sucumbir a uma força tão maior e traumática que parece exercer um magnetismo incontrolável. E se deixarmos o peso de lado e nos tornarmos leves, mais leves que o ar, leves a ponto de estender os braços para a vertigem e deixar que tudo vá até ela e para ela? É um pensamento perigoso que perpassa o livro e também o agora. 

"O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados."


1 Comentários

  1. Oi, Mia ❤️
    Há anos quero ler esse livro, o título me chama atenção. Algum tempo atrás, um colega da minha mãe comentou comigo justamente esse "erotismo" na obra, por isso acho que fujo um pouco dele, mas agora fico mais tranquila rs
    Parece um livro excelente.
    Beijos!

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