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Amparo?

Summer Interior, de Edward Hopper (1909)

Quase nunca choro. Durante toda essa pandemia, chorei apenas cinco vezes, o que é um número muito maior do que costumo chorar durante um ano normal. Aprendi a guardar meu choro para os momentos em que realmente seja necessário. Lembro que em 2013 estava lendo A culpa é das estrelas no ônibus. Já havia lido um bom pedaço e nenhuma lágrima tinha rolado até então. Porém, quando cheguei na parte em que a Hazel fala que a dor era um 9 quando, na verdade, era um 10, porque ela estava guardando o 10 dela para algo realmente horroroso, senti aquilo profundamente. Eu também guardo os meus 10 para situações em que não dá mais. 

Estava conversando com o Vinicius sobre isso. Não exatamente a respeito do choro, mas sim sobre como eu não posso me agarrar a memórias do passado, de uma infância feliz ou as bobagens da adolescência porque, caso o faça, entrarei numa espécie de surto. Quando você passa por muita coisa ruim ainda jovem demais, acaba ficando traumatizado. E cada pessoa tem a sua maneira de lidar com o trauma. A minha é deixar o passado pra lá e focar no que estou fazendo agora, no trabalho, nas leituras, na escrita, em arrumar o quarto, qualquer coisa que me dê paz de espírito e não me faça pensar em mim. 

Digamos que a pandemia não ajuda com isso. 

Também acontece que eu sei o que é passar por coisas horríveis, então, como esse sentimento vive em mim, o resto acaba parecendo algo com que eu posso lidar. Muitas vezes ultrapassei limites que parecem extremos para os outros, e realmente não são aconselháveis, porque os meus já foram todos rompidos e não tenho mais o sinal de pare que me diz que, olha, isso não dá. Porque total dá. Os meus limites são ridiculamente extensos. 

Mas prefiro não pensar neles. Porém, na pandemia, muitas vezes esses pensamentos me encontram. 

Há muito espaço, muito silêncio. Uma casa enorme quase só para mim. Os únicos sons são os dos animais da vizinhança, que sempre se intrometem em qualquer coisa que faço. Até então, a minha vida era bem agitada. Um pouco pelo caminho que escolhi seguir, mas esse próprio caminho foi motivado por um motivo bem maior e mais verdadeiro: eu preciso ter coisas para fazer, senão caio dentro de mim. E não há quem realmente possa me ajudar com isso. 

Talvez esse seja o motivo por que me surpreendi tanto ao me perceber chorando hoje. Entre as leituras e os trabalhos, estou reassistindo True Blood. Eu amo qualquer coisa relacionada a vampiros, mas essa série é uma das melhores que já assisti. Ela consegue capturar de forma perfeita a dualidade do vampiro, entre o nefasto e o sedutor. Mas eu não lembrava da última temporada. 

Acompanhei o desfecho da série em tempo real, lá em 2014. E fiquei triste, é claro, mas lembro que não tinha gostado muito. Me parecia estranho que uma série sobre vampiros terminasse daquele jeito, com questões políticas, religiosas e uma pandemia. Naquela época, eu achava isso o combo do inferno - mas de uma maneira criativa, do tipo "isso nunca vai acontecer", "os roteiristas pesaram a mão na imaginação", essas coisas. Quisera eu estar errada, mas cá estamos. É 2021 e faz mais de um ano que vivemos numa pandemia e que o Estado virou um caos entre política e religião. 

(Pausa para: ingenuidade da Mia de 2014 que ainda não conhecia suficientemente história mundial para saber que estamos sempre num caos entre política e religião; às vezes, mais acentuado, às vezes, não. Mas né, segura na mão do deslumbramento e vai.) 

A última temporada de True Blood nos mostra os resultados das ações de pessoas fanáticas no poder. Os vampiros estavam à solta, mas eles não eram esse perigo todo para a humanidade. Na série, são retratados como uma minoria, ainda que poderosa, que queria ser aceita, incorporada ao convívio. Todavia, grupos religiosos se tornaram grupos de ódio em pouco tempo e bastou que o pessoal da política comprasse o discurso para que alianças fossem feitas e um verdadeiro maquinário do ódio, criado. 

Isso tudo acontece em duas ou três temporadas. A última, no entanto, trata-se do luto. Do dizer adeus. Mais do que isso: do viver e conviver com o medo de perder a quem se ama, de não saber quem será o próximo, de não saber quando será a sua hora ou se você verá para ver uma cura chegar e a vida voltar ao normal. 

O mundo inteiro perdeu quase metade da sua população. Existe uma doença que, embora seja fatal somente a vampiros, transforma-os em criaturas quase irracionais, preocupadas somente com o seu bem-estar no aqui e agora - e que saem para caçar em bandos, matando quantos humanos puderem. A ordem é que todos fiquem em casa, especialmente à noite, e não abram a porta para ninguém. Qualquer um pode estar infectado, não é possível confiar. Também não é possível haver reuniões, festas, celebrações. A atmosfera de medo, cansaço e luto paira por todo o lugar. 

Mas nada disso me fez chorar. Nem naquela época, nem agora. Ver minhas personagens preferidas morrer, embora seja contrário ao meu desejo, apenas me fez lamentar a decisão dos roteiristas, sem provocar fortes emoções em mim. Como eu disse, guardo o meu 10 para situações realmente importantes. Não choro por quase nada, muito menos por mortes fictícias. 

Todavia, após uma certa morte em especial, a personagem principal, Sookie, que já perdeu tantas pessoas, simplesmente vaga pela cidade, tentando ajudar os amigos que restaram. Ela parece entorpecida, o que entendo. Eu mesma tenho estado num estado de entorpecimento há anos - ainda mais agora, na pandemia. A tristeza e o luto existem, mas é difícil permitir que sejam sentidos apropriadamente ou mesmo que sejam reconhecidos, que sejam o centro dos acontecimentos, quando diariamente pessoas morrem, tragédias acontecem e o mundo continua vivendo. Somos obrigados a continuar. Não há escapatória. 

Sookie está assim. Há anos vem perdendo pessoas, acontecimentos traumáticos a levaram a não se abalar por qualquer coisa, e agora há uma pandemia que está exterminando a quem ama, um por um, vampiro ou humano. Mas ela não chora. 

Até que um amigo não apenas lhe oferece os pêsames como, de fato, cuida dela. 

Ele a acompanha, a coloca para dormir, a ajuda a limpar e arrumar a casa. Garante que estará ali quando ela acordar. No momento em que ela o faz, se depara com uma casa decorada para uma festa. Ele diz que, sim, haverá uma festa - para celebrar a vida. Ela precisa ser cuidada e estar com pessoas. Aquele momento, toda a tragédia e a dor e o sofrimento e o medo da pandemia precisa ser sentido, mas a vida precisa ser vivida. Foi aí que eu chorei. 

Em primeiro lugar porque a simples noção de que pode haver cuidado de uma pessoa para com a outra, assim, sem mais nem menos, é algo que me emociona. Eu não sabia que me sentia tão desamparada até esse momento. Mas não tem ninguém cuidando de mim. Não tem ninguém que me pegue pela mão e me mande dormir, comer, tomar banho, que diga que estará comigo quando eu acordar, que me permita sentir sem ter de ser forte e simplesmente continuar. Tenho feito tudo isso sozinha há um bom tempo, especialmente durante esse ano que passou, e esse é um fardo muito pesado. Entendo perfeitamente o momento em que Fleabag diz para o Padre Gato que ela só quer alguém que lhe diga o que fazer porque ela não tem a mínima ideia e está cansada. É exatamente isso. Às vezes, só precisamos de alguém que cuide de nós, que realmente nos ampare. 


Em segundo lugar porque eles fazem uma festa. Qualquer pessoa que já passou pelo menos meia hora comigo sabe que eu não sou alguém de festas. Quando possível, sempre prefiro ficar sozinha, ou ao menos apenas com pessoas confiáveis por perto - mas nada grande, nada muito. Contudo, faz mais de um ano que eu não saio de casa. As únicas pessoas que vejo são os meus pais - e aqui em casa, temos uma divisão bem independente nesse sentido. A verdade é que não passamos muito tempo juntos. Todo mundo tem as suas coisas para fazer e cada um lida consigo mesmo da maneira que pode. A casa é gigantesca e comporta isso, tanto para o mal quanto para o bem. 

O fato é que não há ninguém comigo há mais de um ano. Isso significa algo, mesmo para alguém tão introvertida quanto eu. Significa, em primeiro lugar, a falta de uma conversa real, de uma identificação. O luto é um momento de partilha da dor. Nossa sociedade atualmente confinou o luto a uma caixinha privativa dentro de casa, onde cada um o vive com discrição e um pouco de vergonha. Porém, o luto é algo que precisa ser sentido e partilhado. É necessário conversar sobre, mostrar o que se sente, ouvir outras pessoas. E a gente faz isso apenas por telas - no tempo livre, porque a vida continua agitada e agora não há limites entre a casa e o trabalho. O quarto virou um escritório e você não pode se esconder para chorar. Não dá para marcar um almoço com uma amiga para conversar e contar o que diabos está acontecendo e sair mais leve depois, ou ao menos compreendida, abraçada. A pandemia é violenta pela doença e pela morte, mas também porque nos tirou a possibilidade da partilha. 

Recentemente, tenho sentido falta do clima antes do Natal. Dos dias que o antecedem, preparando tudo, e principalmente das horas antes da festa. Como eu disse acima, não sou uma pessoa de festas, mas andar apressada pela casa, checando o jantar, a sobremesa, arrumando a decoração, tomar banho, passar maquiagem, colocar uma roupa bonita... O clima de expectativa por algo. Eu geralmente dava um oi, comia, ficava ali, existindo, sem grandes participações. Mas era parte daquilo, de qualquer forma, ao meu jeito. E me sentia incluída, sabia que poderia conversar com qualquer pessoa dali e ser compreendida, que estava entre a minha família ou, em alguns casos, entre pessoas conhecidas e queridas, todos trocando experiências e se sentindo abraçados. 

As pessoas estão morrendo. Nós deveríamos poder partilhar tudo o que vem com isso. 

***

Retomo este texto duas semanas depois de começá-lo porque coisas acontecem. E eu continuo com a mesma sensação. O medo é palpável, mas o luto também. 

Nesta semana, morreram algumas pessoas que eu conhecia. Outras, de quem gosto, estão mal, algumas hospitalizadas. E ninguém pode se reunir, não dá para conversarmos pessoalmente, nos consolarmos, tentarmos espairecer. Paira um senso de irrealidade. É como se a vida não estivesse acabando para tantos porque são tantas mortes, tanta tragédia ao mesmo tempo que a gente se embrutece. Me percebo pensando, de forma quase inconsciente, que haverá tempo para lamentarmos, para sentirmos, para vivermos esse luto coletivo no futuro. Porque o agora está firmado na irrealidade. Mas haverá mesmo? E o que estamos tendo agora, então? Eu não sei. 

Este é um não saber diferente daquele do início da pandemia, quando tivemos de aceitar a falta de controle. Este é um não saber mergulhado em exaustão. Faz mais de um ano que estamos nessa, e agora? Quais são as perspectivas? 

Eu não sei. 

Mas eu sei que entendo a Sookie e a forma como ela desaba quando finalmente alguém a ouve, a abraça, a ampara. Em um mundo tão insustentável quanto este, se alguém me desse carinho, eu iria me desmanchar na hora. 

E saber que essa é uma possibilidade que virou utópica é doloroso. Demais. 

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