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Sombra, ossos e bons vilões

Comecei a ler Sombra e ossos, o primeiro livro da trilogia Grisha, em março porque sabia que estrearia a série na Netflix. Não sou de fazer isso, mas queria assistir a série mais por causa do Ben Barnes, que é um amorzinho, e também porque tenho amigas que sempre falam sobre como o Darkling, personagem que ele interpreta, é um desses vilões incríveis, mais amados do que os mocinhos. Tenho um fraco por vilões. Gosto quando são bem construídos, os acho interessantíssimos porque eles aceitam sua maldade, muitas vezes sendo mais ambivalentes até, não necessariamente maus, apenas caminhando na linha entre a pura maldade e a bondade. Acho terrivelmente chato quando as personagens são queridas demais, corretas demais. Pessoas são complicadas e acredito em personagens que pelo menos flertem com um lado mais obscuro. Felizmente, Sombra e ossos tem bastante disso. 

Escrita por Leigh Bardugo, a trilogia conta com o primeiro livro, já citado, e mais dois: Sol e tormenta e Ruína e ascensão. Li no kindle, em e-books da editora Gutenberg traduzidos pelo também escritor Eric Novello. A edição atual brasileira é da editora Planeta, mas a que eu tinha era aquela e foi por aquela que li. Não tenho queixas da edição, mas não posso comentar sobre a da Planeta, já que não coloquei as mãos nela. Dito isso, vamos para a história. 

A história 

Alina é uma jovem comum. Cartógrafa no Segundo Exército, ela está se preparando para cruzar a Dobra junto com os soldados em uma missão. A Dobra, ou o Não Mar, é um lugar onde um dia houve uma cidade, mas agora só habita a escuridão - uma escuridão tensa e profunda, extensa, permeada por volcras, criaturas aladas que destroçam tudo o que lá adentrar. É perigoso passar pela Dobra, mas Alina não tem outra alternativa: ela precisa seguir ordens. Maly também irá, seu amigo com quem cresceu junto no orfanato para onde foram levados quando crianças. Ele é um soldado e rastreador - o melhor que há. 

Na perigosa travessia da Dobra, eles são atacados por volcras, que começam a matar as pessoas. Quando um deles ataca Maly, Alina pula em sua frente, numa tentativa de defesa, e então tudo some. Ela não entende o que aconteceu, mas depois de um tempo ela desperta em outro lugar e há uma movimentação estranha. Nesse momento, ela é levada até o Darkling, o comandante do Segundo Exército e o homem mais poderoso de Ravka depois do rei. 

O Darkling é um grisha de habilidade especial: grishas são pessoas dotadas da habilidade de exercer a Pequena Ciência, ou seja, a manipulação dos elementos naturais. Enquanto uns manipulam o fogo ou a água, ou até mesmo elementos como o aço, entre outros, o Darkling possui um poder único: ele é capaz de conjurar as trevas. Além disso, ele é o grisha mais poderoso de que se tem ciência - e antigo, embora pareça muito jovem. 

Ao ser interrogada por ele, Alina manifesta uma habilidade também única em toda a história dos grishas: ela conjura luz do sol. Foi o que aconteceu na Dobra, quando tentou salvar Maly - mas ela não sabia que era capaz de tal coisa até então. Ninguém sabia. O Darkling, porém, fica extasiado e a acomoda no Pequeno Palácio para que ela aprenda a ser uma grisha - e possa reinar ao seu lado. 

Esse é apenas o começo da história e muitas coisas acontecem a partir disso. Mas esse começo é o suficiente para fazer com que diversas pessoas apaixonem-se pelo Darkling, acreditando que, embora pareça mau, ele transita entre um lado e outro e possui intenções que desculpam as medidas que toma. 

Sobre amar o Darkling 

O Darkling é um vilão de ambiguidade questionável. A partir do momento em que sabemos de seu plano, fica bem claro que ele está disposto a sacrificar a qualquer pessoa para conseguir atingir seus objetivos. Claro, são objetivos que fazem sentido: livrar-se de um rei fraco, governar Ravka para fazer com que os grishas sejam reconhecidos ao invés de temidos ou assassinados por bruxaria. São coisas boas. Mas a maneira como ele as arquiteta é terrível. O Darkling é um dos vilões mais cruéis da história da literatura fantástica jovem. Então, por que o amamos? 

Amar vilões é complicado. Desde o Heathcliff de O Morro dos Ventos Uivantes até o próprio Diabo (em diversas produções), parece que há algo que atrai as pessoas para eles. Particularmente, acho que isso acontece por dois motivos: confiança e a aceitação de seu todo. Quando o Darkling diz para Alina "Faça de mim o seu vilão", nós podemos ver que ele não se enxerga dessa maneira, mas também que está disposto a aceitar o título desde que siga com seu plano. Nem todo mundo vai gostar de você, paciência. Vilões aceitam isso. Mocinhos ficam se lamentando. 

Todo mundo é um pouco vilão 

Mas não é apenas o Darkling que possui vilania. A própria Alina, embora seja a personagem principal, a mocinha, a narradora, flerta com o papel vilanesco o tempo todo. É por isso que ela se sente tão conectada ao Darkling - como ambos assumem declaradamente no terceiro livro. Não é porque ele é bonito, atraente, sedutor - embora isso certamente contribua. Mas a atração verdadeira está nos meandros das personalidades de cada um. Até onde eles são capazes de ir para conseguirem o que desejam, mesmo que isso magoe as pessoas a quem amam. 

(Lembro muito de quando Rachel Bloom canta I'm the villain in my own story, na excelente Crazy Ex-Girlfriend, percebendo pela primeira vez que talvez ela tenha um quê de vilã. Como disse o menino Tom Ripley, todo mundo se acha o herói da própria história. Mas abraçar a vilania não é apenas bom para enredos como bom para a saúde mental: você não é um cristal não-problemático. E tá tudo bem! Estamos todos aprendendo! Não que se vá sair por aí assassinando pessoas - por favor, não faça isso -, mas admitir que existem partes de você que sentem coisas não muito louváveis faz bem. Um vilão não é imperfeito. Um vilão é humano. Às vezes, mais do que um herói sem falhas.) 


Não é à toa que aquele final nos parece anticlimático. Alina perde seus poderes, torna-se uma garota comum e casa com o rapaz a quem amava, Maly. Mas ela sente-se vazia. Leigh Bardugo deixa bem claro que não fosse pela agitação do orfanato que gerenciam, tanto Alina quanto Maly sentiriam o peso desse vazio com maior força. O amor não é tudo. Mas nenhum dos dois queria admitir isso, tampouco admitir a saudade da vida entre os grishas, do poder, da habilidade de rastreador de Maly, de ser a Conjuradora do Sol. E também do Darkling. Alina, apesar de tudo, sentia nele um par. Alguém que a levaria a um caminho sombrio, com certeza, mas que a entenderia em sua unicidade e também em traços de sua personalidade que Maly não aceita - os traços obscuros, a ambição. 

Não é um final ruim. Trata-se, na verdade, de tudo o que Alina passou três livros inteiros dizendo que desejava. Porém, ela não havia sido sincera consigo mesma. E aí está a genialidade de Leigh Bardugo ao criar personagens ambíguos numa trama em que, assim como na vida real, o desejo pelo poder é vilanizado - mesmo que as intenções do que fazer com aquele poder sejam boas. 

O Darkling se tornou o vilão que todos pensavam, assassinando pessoas, torturando-as, sendo cruel. Mas não a ponto de matar crianças só porque isso poderia fazer Alina sofrer - ele não é o Anakin, afinal de contas. Seu fim não poderia ser outro num mundo de moralidade como o universo de Ravka, o que acaba não sendo tão triste para os leitores que se afeiçoaram a ele porque Nikolai, o príncipe-corsário, acabou ganhando a coroa - porém, ele também permaneceu atormentado, conhecendo agora os limites de que era capaz e assustando-se com isso. Nikolai busca um par em Alina, pois ela também sabe o que é conviver com as sombras. Mas a trilogia Grisha não é sobre felicidade, e sim sobre reconhecer seu papel no mundo e desempenhá-lo, mesmo sob o custo do sacrifício pessoal. 

O triste é que a moralidade aplicada no universo de Ravka não nos permite conhecer melhor do Darkling. Leigh Bardugo bem que podia dar uma de Stephenie Meyer e escrever uma versão do livro pela perspectiva dele, ou talvez algum livro que conte seu passado com maiores detalhes... Ele é uma personagem interessante para ser desperdiçada em pouquíssimas interações com Alina. 

Num mundo que não vilaniza o diferente e a ambição, será que todo o horror que o Darkling cometeu teria acontecido? Provavelmente não. Era uma guerra, e guerras possuem horrores, mas se uma guerra transforma até mesmo um jovem idealista em um monstro, não seria a verdadeira monstruosidade o preconceito e a necessidade de defesa que o levou a travá-la? 

É por isso que conseguimos nos conectar com o Darkling em certos pontos, assim como Alina, que consegue entendê-lo, ainda que não o queira e raramente admita. Talvez ela tivesse sido mais feliz se conseguisse admiti-lo - mas Ravka não. 




Para saber mais: lá no Querido Clássico escrevi sobre a história real por trás de Sombra e Ossos. Clique aqui se quiser ler. :)

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