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Ela não está apenas triste: como a ficção tem retratado a depressão feminina


Eu sou uma Mulher Que Escreve e também uma ávida consumidora de cultura pop. A arte é a minha forma preferida de ignorar a vida e, desde que comecei a escrever sobre produções culturais, minha mente começou a estabelecer padrões para tudo o que eu vejo e percebo com meus sentimentos. Como mulher e feminista, volto meu olhar para obras feitas por mulheres. Algumas dialogam comigo, outras não, mas o resultado é sempre estimulante: há muitas coisas sendo feitas que nos retratam com vivacidade e realidade. O ideal romântico da mocinha salva pelo príncipe caiu faz um bom tempo, assim como o estereótipo da mulher triste que se suicida de forma poética, tomando pílulas numa banheira. Não é assim que costumam acontecer nossas mortes, tampouco nossa depressão. 

No ano passado, a depressão se tornou a doença mais incapacitante do mundo, de acordo com a OMS. Essa frase, que já virou senso comum em redes sociais e noticiários durante o Setembro Amarelo, pode ter seu sentido despercebido pela constante repetição da manchete em todos os lugares. Mas, quer se preste a devida atenção a ela ou não, o resultado é o mesmo: estamos cada vez mais doentes, incapacitados e tristes. Talvez por isso a ficção tenha finalmente acertado o tom das histórias que produz com personagens depressivas — ou talvez esse seja o resultado da tomada de poder narrativo que mulheres conquistaram nos últimos vinte anos. Seja lá como for, o fato é que agora não somos mais retratadas como bonitas e tristes. Nossos problemas psicológicos possuem nuances, complexidades e vozes que xingam, gritam ou emudecem, dependendo da personalidade e situações enfrentadas. 

Notei isso especialmente em três obras ficcionais lançadas no Brasil recentemente. Apesar de a narrativa da mulher depressiva com toques de vida real estar amplamente difundida atualmente, foram as produções que me chamaram atenção pela crueza e verdade nelas descritas: Meu Ano de Descanso e Relaxamento, Fleabag e Crazy Ex-Girlfriend. As personagens criadas nessas obras poderiam ser colegas de faculdade, amigas ou até mesmo eu e você, de tão verossímeis que foram construídas. Nelas, encontrei um pouco de mim mesma e das mulheres que conheço e também lutam com transtornos psicológicos. Consumir esses produtos me fez entender um pouco mais de mim mesma e da nossa geração de mulheres que tentam ser estáveis, embora possuam problemas sérios que frequentemente são ignorados pela sociedade. É um alívio encontrar narrativas que conversem comigo e com a minha geração tão abertamente, mas infelizmente nem sempre foi assim. 

Um famoso arco narrativo utilizado à exaustão até pouco tempo pode ser encontrado em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004). O diálogo acontece porque, para além de sermos feitos de sentimentos e já termos vivenciado, em maior ou menor grau, pelo menos uma decepção amorosa que nos deixou arrasados, a ideia de poder pular a parte da tristeza infinita que ocorre no término de um relacionamento é algo atraente. Existir num mundo onde existe a possibilidade de não sentir tristeza ou a dor do abandono parece um presente. Clementine (Kate Winslet) faz isso. Ela decide apagar suas memórias para não lembrar de toda a dor causada pelo rompimento com o parceiro, Joel (Jim Carrey). Apesar de ser um filme muito bom, ele não é focado na dor que fez com que Clementine tomasse uma atitude tão drástica. Ela, assim como tantas outras personagens do cinema, não vai além da gama de sentimentos que causa em um homem. Sua complexidade é jogada no lixo, junto de todas as cores de cabelo e indícios de que ela provavelmente sofreu com depressão durante toda a história dos dois. Infelizmente, não podemos ter um diálogo com Clementine e jamais entenderemos os motivos que a levaram a apagar as lembranças que tinha de Joel. Apesar disso, o filme funciona. A história é interessante, o método de destruição da memória que se tem de um relacionamento é algo desejável por muitos e podemos entender, em partes, por que ela decide se submeter a ele. Contudo, para haver uma verdadeira representação narrativa da experiência feminina, é preciso ter mulheres diretoras e roteiristas, e o filme é dirigido e escrito por homens, com o foco todo nos sentimentos de Joel. Mas no ano em que o filme foi lançado, ainda não era comum haver um diálogo verdadeiro sobre a depressão feminina nas telas. Felizmente isso mudou. 


No final de 2018, ao revirar mais uma vez sites estrangeiros em busca das novidades do mercado editorial, me deparei com um lançamento que me chamou a atenção primeiramente pela capa: nela se pode ver a pintura de uma jovem mulher, em trajes georgianos, sentada na beira da cama com uma expressão de pura estafa. Acima da cena insólita, em letras cor-de-rosa pink, o título: My Year of Rest and Relaxation. Tinha de ler a sinopse, afinal de contas. E lá estava o que seria a história de uma jovem adulta que, após simplesmente não aguentar mais sua realidade, resolve tirar um ano para dormir, tomando diversos tipos de pílulas contra a insônia, ansiedade e depressão. No momento em que li aquilo, sabia que era exatamente o que eu queria. Eu também queria um ano de descanso e relaxamento. Mas estava longe de consegui-lo. 

Como a vida imita a ficção, mas possui seus limites, me concentrei em fazer o melhor possível diante de um país sendo cada vez mais arruinado, de uma situação política que só pode ser descrita como desesperadora, da incerteza do amanhã e das pendências acadêmicas caindo sobre a minha cabeça. E o melhor, nessa situação, pode bem variar de pessoa para pessoa. Para mim, entretanto, ele é todo focado na arte e na representação do tempo que vivenciamos em todas as formas artísticas, sejam elas séries, filmes ou até mesmo o livro sobre uma jovem que não aguenta mais a vida e decide tirar um recesso dormindo por um ano. 

Em 2019, o livro finalmente chegou ao Brasil, através da editora Todavia. A obra mais famosa de Otessa Moshfegh até agora não chamou apenas a minha atenção, mas também a de um mercado editorial quebrado, que seleciona muito bem os livros a serem publicados, já que não estamos em condições de esbanjar dinheiro apostando em histórias que não possuem apelo a um público expressivo, assim como de diversas mulheres do mundo literário da internet, que leram, recomendaram e falaram de suas agruras a partir da experiência de leitura de Meu Ano de Descanso e Relaxamento. Um livro sobre uma mulher que dorme quase o tempo todo não deveria render muita coisa, mas rendeu. Isso porque, se há algo de mágico na ficção é o fato de conseguirmos estabelecer relações de compreensão e aceitação com nosso inconsciente. Ler a história de uma jovem que não aguenta mais a situação pela qual está passando e prefere tomar diversos remédios, embora os efeitos colaterais não sejam dos melhores, para dormir a se manter acordada, talvez procurando por uma terapia séria, é algo que dialoga conosco no momento em que estamos vivendo coletivamente. Era 2019, afinal de contas - e não é possível dizer que as coisas tenham melhorado de lá para cá. Como bem disse Eliane Brum, estamos doentes de Brasil. A doença, na maioria das vezes, é a depressão. E a ficção nos ajuda a estabelecer pontes para compreender melhor nossa forma de lidar com ela atualmente. 

Uma forma bastante comum de lidar com a depressão é nos jogando em abusos que nos fazem sentir melhor. E a ficção contemporânea tem retratado isso em diversas produções. Em Meu Ano de Descanso e Relaxamento, a protagonista abusa do sono como um poder curativo, acreditando que, ao se alienar completamente do mundo que a cerca — trabalho, amiga, ex-namorado —, conseguirá finalmente curar seu interior, tão desgastado e vazio após a morte do pai e o suicídio da mãe. Ao invés de procurar ajuda terapêutica, ela decide que a melhor opção é simplesmente se jogar naquilo que mais ama: dormir. O sono, para ela, além de restaurador, também era o único vínculo que possuía com a mãe. Em suas memórias, os momentos mais tranquilos e afetuosos que passara ao lado dela eram justamente aqueles em que dormiam juntas, tirando longas tardes de sono nos lençóis brancos de uma casa rica em Nova York. 

Se deixar sucumbir ao excesso do resgate de uma memória feliz, tentando recriar o passado para consertar os danos da depressão, é muito comum. Porém, a maioria de nós não possui os recursos da narradora do livro, que é riquíssima e pode se dar ao luxo de dormir por um ano inteiro sem se preocupar com contas a pagar. É um sonho, especialmente nos dias de hoje, se deixar levar pelo sono e só acordar quando a pandemia tiver acabado, a situação política se resolver, quando os problemas familiares estiverem longe e quando o emocional estiver curado. Quem não desejou estar dormindo em 2021? 

Eu desejei. Por isso, o livro conversou tanto comigo — motivo pelo qual, imagino, também tenha conversado com um público maior. Contudo, não sou a protagonista rica de uma história que se passa na Nova York do ano 2000, e não posso me dar a esse luxo. Então, assim como outras personagens femininas da ficção contemporânea, minha depressão precisa de outras válvulas de escape. Uso a escrita, a leitura de clássicos, o cinema de horror e as séries de vampiro para não encarar a vida e não pensar na depressão, que me deixa assustada e insone e me faz duvidar de minha capacidade. Felizmente, encontro consolo em obras como a de Moshfegh, que mostram uma faceta da doença até então não muito explorada pela cultura pop: o desesperado abuso de qualquer coisa para preencher o vazio que a depressão causa. 

Se em Meu Ano de Descanso e Relaxamento temos uma protagonista que abusa do sono para preencher seu vazio, em Fleabag a protagonista possui uma relação abusiva com o sexo para fugir dos problemas da depressão. A série, que é um dos melhores retratos da mulher jovem-adulta na televisão dos últimos anos, mostra uma protagonista (Phoebe Waller-Bridge) lidando com a morte da melhor amiga, se sentindo responsável diariamente pelo ocorrido e prejudicando a si mesma enquanto se mete em um relacionamento e outro apenas para tentar sentir que pode ser amada apesar de perceber a si mesma como uma pessoa horrível. 


A depressão de Fleabag não a faz pegar num frasco de comprimidos e ser uma bela suicida, bem pelo contrário. A única cena que indica um potencial suicida nela é quando, num momento de entorpecimento pela dor, ela cogita se matar da mesma forma que a amiga, atravessando a rua descuidadamente, sendo atropelada de forma torpe e rápida. A quase tentativa de suicídio dela é ao mesmo tempo uma forma de punição e uma busca por se conectar com a amiga morta. É terrível e patético vê-la bamboleando de um lado a outro entre a família, que lhe despreza, o café que tenta administrar — sozinha, desde a morte da amiga —, e relacionamentos sem conexão emocional, em que se sente vazia e desesperada, procurando por algo que nem consegue admitir o que é. 

Enquanto Fleabag não consegue admitir o que quer porque sua depressão não lhe permite tentar ser uma pessoa melhor para si mesma, Rebecca Bunch (Rachel Bloom) admite até demais. Ela sabe muito bem o que quer, e não tem pudor algum em ir atrás. Longe de ser vista como uma mulher triste, ela é efusiva, dinâmica, divertida e impulsiva. Ela também tem muita raiva, comete erros, não sabe lidar direito com as pessoas e não respeita a si mesma. O quadro dela é mais complicado porque, além da depressão, Rebecca possui Transtorno de Personalidade Limítrofe — ou seja, ela é borderline. Para ela, tudo é muito, e sua válvula de escape está nos relacionamentos. 

Não é o sexo em si, não é nem ao menos o amor, mas saber que aquela pessoa faria tudo por ela, que a deseja. Colocar toda sua energia — de alegria, de frustração, de desejo — em uma pessoa a ajuda a desviar do vazio que a depressão lhe impõe. Nessa busca desenfreada por sentir algo para preencher o embotamento das crises depressivas aliadas ao exagero sentimental tipicamente borderline, Rebecca comete erros terríveis, magoa as pessoas à sua volta e chega até mesmo a transar com o pai do ex-namorado — o que resulta numa tentativa de suicídio muito bem representada: honesta, dolorosa e nada glamourosa. 

O interessante nessa nova abordagem da ficção contemporânea para a depressão e transtornos mentais em mulheres é que não há uma romantização. Não há beleza em tomar quinze comprimidos para dormir e acordar três dias depois, percebendo que fez coisas e foi a lugares a que jamais iria acordada. Não é bonito transar com o pai do seu ex durante um surto e, em seguida, tentar se matar dentro de um avião, sem maquiagem, de cara lavada, com um monte de pílulas que não significam nada porque o que se quer não é morrer, é escapar daquela situação. Não é sensual usar o sexo como abuso para canalizar os sentimentos autodestrutivos da depressão enquanto se pensa no suicídio da melhor amiga e no que poderia ter sido mudado. Aquelas cenas de mulheres arrumadas, maquiadas e ricas se deixando cair lentamente numa cadeira com estofado de seda após ingerir um frasco inteiro de medicamento não estão mais sendo feitas na ficção. O que temos agora é uma escolha narrativa que mostra o quão terrível pode ser chegar ao fundo do poço e flertar com o suicídio — muitas vezes só em pensamento, com ações autossabotadoras; outras, chegando às vias de fato. Mas o que essas obras culturais mostram é que, para além de tentativas suicidas, existem outras alternativas agora na vida da mulher neuroatípica. Elas podem ter vidas para além da doença, relacionamentos, empregos e sonhos. E essa, talvez, seja a maior mudança da ficção contemporânea sobre mulheres depressivas. 


As três únicas representações reais para a depressão feminina no terreno da literatura pré-2000 em que posso pensar estão em A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath, Prozac Nation, de Elizabeth Wurtzel e Garota, Interrompida, de Susanna Kaysen (que, assim como Crazy Ex-Girlfriend, trata sobre o Transtorno de Personalidade Limítrofe, mas é comum que as pessoas borderlines possuam também depressão e/ou ansiedade). Essas histórias são contadas por mulheres que lidaram com questões de saúde mental e escreveram sobre suas experiências, uma em um romance ficcional, as outras em livros de memórias. Enquanto a Esther Greenwood de Sylvia Plath vai a festas e conhece pessoas, vivendo o verão de sua vida ao mesmo tempo em que se sente morrer por dentro, Susanna se percebe cada vez mais perdida na instituição em que é internada após uma tentativa de suicídio e Elizabeth fala abertamente de como foi terrível em determinadas situações e se sentia afundada na depressão, desejando a morte. As três mulheres possuem posturas diferentes, e é justamente esse o ponto: embora existam sintomas comuns, não há padrão de personalidade para a mulher depressiva. Ela não é apenas uma garota triste, ela é todo um mundo de coisas que a afetam de maneiras diferentes. Mas talvez só tenhamos acesso a essas narrativas próximas da realidade do que é ser uma mulher com depressão porque foram mulheres que as escreveram. Precisamos contar nossas histórias, e precisamos ouvir histórias contadas por mulheres que possuem transtornos psicológicos. 

Nenhuma das protagonistas de Meu Ano de Descanso, Fleabag e Crazy Ex-Girlfriend é uma boa pessoa. Rebecca é terrível com todo mundo que não possa ajudá-la a realizar seus sonhos de ser amada — o que, comicamente, só faz com que as pessoas tenham dificuldades em amá-la. Fleabag é uma bagunça, com seus problemas financeiros, café irônico e humor sarcástico ao ponto de autocomiseração. A menina rica de Meu Ano de Descanso e Relaxamento é péssima, trata a única amiga como lixo e não consegue estabelecer relações com ninguém. Talvez esses comportamentos sejam consequência do que sofrem internamente, talvez elas sejam apenas desagradáveis, mas aí está o fascinante: uma mulher agradável e perfeita não é uma mulher real. Somos péssimas com algumas pessoas enquanto parecemos as melhores criaturas do mundo com outras. Sofremos de depressão, ansiedade, transtornos de personalidade e de humor. Muitas vezes não sabemos o que dizer, como agir ou o que fazer da vida. Mas ainda assim merecemos um retrato fiel de nossas depressões e momentos complicados, ainda que não pareça, a princípio, tão brilhante quanto ser a heroína perfeita que faz tudo certo sempre cujo único problema são as outras pessoas, terríveis e más, que atrapalham seus planos. Nós também podemos ser terríveis e más às vezes, contudo o importante é não focar em um estereótipo de gênero, e sim nos motivos que nos levam a ser terríveis e más — e que podem estar atrelados a transtornos psicológicos. Não somos apenas mulheres tristes. 

Talvez, se Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças fosse filmado hoje em dia, veríamos o lado de Clementine da história. Veríamos também que ela não está apenas triste: ela tem depressão, o que não a faz menos divertida e complexa, mas pode lhe tirar a vontade de viver. 

2 Comentários

  1. Nossa, ler isso me abriu os olhos pra tanta coisa que não tinha notado, de verdade. Ótimo texto, obrigada.

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