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O Exorcista, de William Peter Blatty


Deve ter sido a terceira ou quarta vez que li O Exorcista, livro de William Peter Blatty que deu origem ao filme de 1973 (no qual Blatty é o roteirista, inclusive). Sempre que me perguntam quais são os meus livros-conforto e eu respondo que esse é um deles, as pessoas reagem com estranhamento porque, bem, história macabra, né. No mínimo tensa. Mas eu realmente me sinto confortável lendo sobre a possessão de Regan MacNeil e a jornada do padre Damien Karras na recuperação de sua fé. 

Quando o li pela primeira vez, lembro que fiquei bem assustada e olhava de soslaio para trás de tempos em tempos para me certificar de que estava tudo bem. As outras leituras foram diferentes. Ainda existem momentos assustadores, mas agora o medo não está na possessão em si, ou mesmo no demônio Pazuzu, e sim em questões sociais que perpassam a obra. 

Damien Karras é a personagem principal. Um padre filho de uma mulher imigrante, Karras sempre esteve à margem da sociedade. Teve o apoio da igreja para estudar, chegando a formar-se em Harvard em medicina com especialização em psiquiatria. Um homem estudado de origem humilde, ele sente que deve algo ao mundo. É respeitado hoje, mas ainda não sente que deveria ser, se autossabotando em diversos momentos. Para Karras, o mundo é pesado e o caos reina. Ele é um padre que perdeu a fé. 

"Mais enraizado na lógica estava o silêncio de Deus. No mundo, havia maldade, e grande parte dela resultava da dúvida, de uma confusão real entre homens de boa vontade. Um Deus razoável se recusaria a eliminá-la? Não a revelaria ele mesmo, por fim? Não falaria?"

O caso MacNeil parece surgir na hora certa - ou na muito errada, dependendo de quem lê a história. Logo após a morte da mãe de Karras - pela qual ele sente-se soterrado no luto, já que ela morreu sozinha e ficou dias morta em seu apartamento até que os vizinhos percebessem que havia algo de errado -, os eventos que já haviam começado a se desenrolar no lar das MacNeil dão uma guinada tenebrosa. A doce e gentil Regan, que tinha acabado de completar 12 anos, havia passado por semanas de exames intensos e medicações pesadas, tudo para receber o diagnóstico de nada. Tecnicamente, não havia nada de errado com ela, ao menos não fisicamente. Ainda assim, Regan agia de modo cada vez mais estranho, violento e obsceno. 

Quando a violência passa a ser sexual, a hipótese da possessão demoníaca é levantada. Se real ou por autossugestão, é uma questão que o livro deixa em aberto - o importante é solucionar o caso, não converter ninguém. Todavia, é o padre que acaba convertido. Ao procurar a ajuda de Karras, Chris MacNeil, a mãe de Regan, testa todas as bases de fé do padre, que vê suas certezas se desfazendo ao perceber as atrocidades cometidas por aquela criança. Entre fatos científicos e o medo de estar na presença do sobrenatural, Karras é levado aos seus próprios limites. 

O que eu gosto em O Exorcista é como ele me faz pensar no mal - o verdadeiro mal, não o mal demoníaco. Porque embora exista uma questão de crenças e descrenças, em determinado momento da história o padre Merrin, que é o exorcista de fato, fala para o Karras que o mal está nas pessoas que deixam de amar umas às outras. Porque o amor, segundo ele, não é necessariamente o estar apaixonado, mas sim o tratar o outro com cuidado, com carinho, fazer o bem. E é muito sobre isso. Os seres humanos não precisam de um demônio para fazer o mal, eles mesmos dão conta disso por si próprios. 

Também me faz pensar no caos da vida e em como sempre estamos dispostos a aceitar qualquer coisa em busca de algo que nos dê sentido. Para Karras, esse algo era acreditar que Regan era uma menina possuída por um demônio, não com uma doença psicológica. E isso faz com que ele, em sua última cena no livro, tenha um brilho no olhar, um brilho genuíno de alegria, mesmo em condições tão terríveis. 

E talvez seja esse o ponto. Não é um livro sobre o demônio, nem mesmo sobre a possessão em si, embora esse seja o fio condutor da história. É um livro sobre a esperança de encontrar um sentido no meio de tanta coisa ruim que acontece. E não é isso que estamos todos buscando, todos os dias? 

2 Comentários

  1. nossa, eu gostei muito da sua resenha. foi um olhar muito particular ao livro. tive oportunidade de ler no ano passado e tive vários pensamentos sobre a ideia de mal também. por ser a minha primeira vez fiquei mais atenta a história mesmo e por isso não refleti tanto sobre esses pensamentos, mas lembro de ter marcado uma passagem que casa bastante com o que você disse.

    "- Não costumo ver possessão nas coisas, Damien. Nas picuinhas, e nos desentendimentos; na palavra cruel e cortante que salta livre à língua entre amigos. Entre namorados. Entre marido e mulher. Temos muito disso e não precisamos de Satanás para criar nossas guerras. Conseguimos criá-las sozinhos... Sozinhos."

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  2. meu primeiro contato com a história foi com o filme e foi um fracasso. quando queria assistir pela 1a vez meu pai não permitiu por eu ser muito nova, ser um filme muito pesado, que quando saiu nos cinemas as pessoas saiam de lá aterrorizadas. pensa no tanto de expectativa que eu criei? haha quando enfim assistir eu fiquei "tá é só isso?". muuuuito tempo depois é que parei pra enfim ler o livro e gostei demaaaais. acho que talvez já sem tantas expectativas e animada demais por conseguir visualizar muito dos cenários por conta do filme. vai entender haha

    não me recordo de ter muitas reflexões na época, acho que no fundo eu estava procurando um pouco de terror (caos pra acalmar o caos?) e fiquei satisfeita. quem sabe ainda releia em algum outro momento para ter uma perspectiva diferente :)

    reflexões de quem não tem a menor ideia do que acredita (de tudo um pouco talvez?): alimentamos o mal em nós diariamente porque a vida é caótica? o mundo/sociedade continuam alimentando nosso monstro interior? a maior façanha do diabo seria justamente deixar o circo pegar fogo? sei lá, me perturba demais tudo parecer um tabuleiro onde nos observam e deixam o circo pegar fogo (deus e diabo). quase como se apostassem em quem vai ganhar no final né? deus se basta da própria existência e fica sentadinho esperando que se manteve fudidamente fiel a vida inteira sei lá realmente por qual propósito enquanto o diabo fica ali animado vendo quem cai em tentação hahahaha ai não dá! acho que eu sai ainda mais perturbada com isso tudo do curso de batismo que tive que fazer (achei que seria queimada no processo).

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