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Sobre assombrar a si mesma


"I don’t write because I think I have something to say. I write because if I don't, everything feels even worse."
(Writers & Lovers, Lily King) 

Li Writers & Lovers no mês passado. Uma das primeiras frases do livro é essa acima. "Não escrevo porque acho que tenho algo a dizer. Escrevo porque se não o fizer, tudo parece ainda pior." Imediatamente soube que estava lendo um livro especial. E foi exatamente assim - ao menos para mim. Existem coisas que digo em looping, como se a minha vida fosse apenas uma repetição de um fato. Às vezes parece que é. E não é como se eu fosse a voz da minha geração nem nada disso, não vou dizer nada inédito. Mas são coisas que precisam ser ditas porque, do contrário, tudo realmente parece muito pior. 

Algo que não dizem sobre ser uma vítima de estupro é que você não supera isso. Claro, você passou por uma experiência traumática e ninguém espera que isso seja ignorado, todos sabem que haverão marcas. Mas as pessoas possuem um prazo de validade mental para aquele sofrimento, para aquele trauma. E quando anos se passaram e, no meio de um filme, ou fazendo um balde de pipoca, você desmorona porque alguma coisa - um cheiro, uma palavra, uma entonação vocal - fez você lembrar de um detalhe do abuso e então tudo volta como se tivesse acabado de acontecer, bem, parece que você ultrapassou algum limite. É como se as pessoas achassem que você está fazendo aquilo para ganhar atenção. 

Obviamente, esse não é o caso. 

Não gosto de usar o termo "vítima de estupro" porque, ainda que correto, a questão da vítima dura enquanto o ato está ocorrendo, ou mesmo depois, mas logo em seguida. O que resta durante toda a sua vida não é o papel de vítima, mas o de sobrevivente. E ser sobrevivente de estupro é algo horroroso. Há dias em que não se quer ter sobrevivido porque é muito fácil perder-se em meio a memórias dolorosas. E talvez o pior seja a consciência de que não importa o que você faça, aquilo alterou a sua vida permantemente. Você nunca mais será a pessoa tranquila, ou extrovertida, ou que confiava facilmente nas pessoas, você nunca mais será quem era antes. E quando, em momentos de descontração, esses traços da sua personalidade original aparecerem, é comum não tardar para que seu superego apareça e os reprima, porque existe sempre sempre sempre um mecanismo de defesa ativado que faz com que a sua personalidade quase se inverta ao que era. É algo perturbador porque trata de medo e culpa - "se eu não tivesse agido dessa maneira, talvez aquilo não tivesse acontecido". Por mais que você saiba que essa é uma racionalização bizarra e desprovida de sentido, ainda assim faz mais sentido agarrar-se a isso do que se permitir afundar nas lembranças cruas do trauma. 

E, é claro, há o mecanismo de defesa em que se fala de si mesmo na terceira pessoa. Um distanciamento faz bem, mas não engana muito. 

Ontem fez 14 anos que eu fui estuprada. Quer dizer, 14 anos desde o primeiro abuso. Lembro da data não apenas por ter uma excelente memória, nem pelo fato em si, mas porque meu tio, antes de começar seu trabalho nefasto, me disse que aquele era seu presente de aniversário - ele, que nasceu num 20 de setembro. Aquilo foi o começo de meses de abuso sexual. 

Eu já falei disso. Não é grande novidade para quem me conhece há algum tempo. E eu estou bem, consigo conversar sobre sem surtar. Mas é aquilo que eu falei acima: quando se é sobrevivente de estupro, você pode até estar bem, você saiu daquela com vida e está seguindo seu caminho, mas as marcas permanecem. Todos os dias me pergunto quem eu seria se aquilo não tivesse acontecido. Porque eu era uma pessoa bem diferente - para começo de conversa, eu gostava de pessoas. Toda a minha inabilidade social, que tanto me prejudica, vem disso. E não é como se eu não soubesse do fato ou como se não tivesse lidado com isso através da psicoterapia. Mas anos de psicólogos apenas ajudam a entender os processos de trauma, não os apagam. Graças a isso, eu consigo vir aqui e escrever sobre esse aniversário macabro sem derramar lágrimas. Eu consegui namorar, ir para a faculdade, enfrentar meu medo de pegar ônibus com homens estranhos nas paradas à meia-noite, após as aulas. Me formar. Mas ainda há muito que eu não consigo. E esses meus limites me atormentam, especialmente porque eu sei que não era para eu ser assim. Todo o potencial que eu tinha para ser uma pessoa normal foi destruído quando eu era apenas uma pré-adolescente. E agora parece que eu sou um fantasma de mim mesma, uma assombração. A minha própria existência é um eco doloroso daquilo que eu poderia ter sido. 

É um pouco difícil de lidar. 

Semana passada, reassisti a The Haunting of Hill House. A série saiu em 2018, mas demorei 2 anos para passar do 4º episódio - não porque eu não estivesse gostando, mas porque a identificação foi forte. O ponto, para mim, não é a casa mal-assombrada, os espíritos e todas essas coisas sobrenaturais, mas como um trauma pode, de fato, materializar-se em uma assombração que te acompanha pelo resto da vida. Algo que te atormenta. Algo que, por mais bem-intencionadas que as pessoas ao seu redor sejam, elas não vão entender. Não é à toa, portanto, que me identifico tanto com a Nell. Ela não passou por nenhum trauma sexual, mas a solidão de carregar as marcas de um trauma e contar para as pessoas e ninguém escutar ou ter paciência com você após algum tempo, isso é muito real. 

O bom da ficção, além do puro entretenimento, é que ela nos fornece ferramentas para entender algumas situações e sentimentos. Eu entendo o que sinto e sei que a experiência do trauma, embora perpétua, não é algo constante no dia a dia, aparecendo de vez em quando. Ainda assim, me preocupo que meu destino seja semelhante ao da Nell. Que na ânsia por escapar do trauma, eu escape de mim. Espero que não. 



*Arte de Robin Isely feita a partir da pintura Mary Magdalene in the cave, de Hugues Merle (1868) 

1 Comentários

  1. "Mas anos de psicólogos apenas ajudam a entender os processos de trauma, não os apagam". Exatamente. Como estagiária na clínica de psicologia, eu frequentemente me vejo tendo que explicar, com muito cuidado, que provavelmente essa "superação do trauma" que a pessoa está buscando na terapia não vai acontecer. Não no sentido de esquecer e ela nunca mais se afetar por isso. E é algo que dói tanto, porque tudo que a gente quer é ver o paciente bem, mas já chegamos com os dois pés no peito falando que a realidade não é tão simples e que nossas capacidades são limitadas. Ugh.

    Eu não imagino como é ser sobrevivente de estupro. Na realidade, eu sofri alguns abusos, mas foram em contextos tão diferentes que o meu "trauma" em nada se iguala ao teu, apesar de ser relacionado a mesma coisa: a violação dos nossos corpos. Engraçado isso, não? Enfim. No meu caso, felizmente, não é um trauma que me atormenta tanto — tenho outros que são muito piores. E é complicado porque é exatamente isso que você disse: você tá bem. De repente não tá mais. Um cheiro diferente do nada faz chorar. E é isso. E você não tem explicação, você não entende porquê aquilo volta a doer tanto. Parece que tá acontecendo tudo de novo. A gente sente no corpo como se estivesse acontecendo tudo de novo. É o inferno na terra.

    Eu sinto muito por tudo que você passou, e sinto muito por todos os desafios que você ainda encara no dia a dia em decorrência disso. E fico muito feliz em ver que você encontrou, na ficção, um espaço de elaboração desses sentimentos — eu frequentemente faço a mesma coisa.

    Beijinhos.
    Wu Ye

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