na cabeceira

literatura & diarices

O homem da forca, de Shirley Jackson

Atalanta, Will Barnet (1974)

Penso com certa frequência no início de A redoma de vidro"Era um verão estranho, sufocante, o verão em que eletrocutaram os Rosenberg, e eu não sabia o que estava fazendo em Nova York." Acho esse um dos melhores inícios da literatura porque já nos estabelece o tom da narrativa. Era verão. Estava muito calor - mas a palavra "sufocante" possui duplo sentido; pode ser sobre o calor, mas também sobre a sensação psicológica daquele momento, daquele lugar. Acredito piamente que há livros que são feitos para se ler no calor. O da Sylvia Plath é um deles. O homem da forca, da Shirley Jackson, é outro. 

Curiosamente, a história se passa durante o inverno, e há muitas menções ao uso de casacos e capas de chuva. Mas a atmosfera é de um calor sufocante dentro da cabeça da protagonista, que remonta ao livro da Plath. Já foi dito várias vezes - e utilizado como recurso literário, inclusive em O estrangeiro, do Camus - que o calor faz coisas estranhas com certas pessoas. Bagunça seus pensamentos. Se alguém tem algo de insanidade, o calor parece aumentar as questões psicológicas. Foi uma boa decisão, portanto, ler O homem da forca durante uma tarde terrivelmente quente, de mais de 30ºC. 

Sinto que esse livro teria feito mais sentido se eu o tivesse lido durante a faculdade. Assim como Natalie, a personagem principal, eu também estava tentando lidar com um trauma jogado lá no fundo da mente enquanto a ideia de ser uma pessoa de verdade me deixava nervosa. Crescer como pessoa pode ser assustador quando se é mulher e se percebe que não há muito para onde correr - todos os homens são inimigos em potencial, mesmo os mais inteligentes, aqueles que deveríamos admirar, e todos os futuros parecem apontar para um mundo de homens onde as mulheres são transformadas de estudantes interessantes em esposas tristes. 

Não ajuda muito quando se é solitária, quando as pessoas percebem a sua estranheza. Natalie não tem amigas - as outras meninas da faculdade são terríveis, têm um comportamento grupal e não a reconhecem como sua semelhante (ou seja, igualzinho à vida real). Além disso, é muito difícil saber quando alguém se aproxima se aquela pessoa está ali porque quer ser sua amiga ou se apenas gosta de lhe manter por perto para tirar sarro de você. 

São experiências de solidão e trauma que colocam Natalie não à beira de um ataque de nervos, não próxima a ter um colapso nervoso, mas já completamente perdida em si mesma. Seu pai, um escritor narcisista e misógino, corrige até mesmo a forma como ela escreve cartas informais para casa. Sua mãe chora o tempo todo, lamentando tudo e nada ao mesmo tempo. O irmão parece ser o único da família a desfrutar de certa liberdade. E Natalie, com a voz do pai constantemente ecoando em sua cabeça, a corrigindo, dizendo-lhe que ela tem potencial, mas ainda é boba, tenta calar a outra voz, aquela que lhe lembra do trauma acontecido, do abuso que aconteceu em sua própria casa, no pátio, por um convidado de seu pai, que nem notou o que acontecera à própria filha, pois estava entretido com o braço na cintura de uma jovem bonita e bem mais nova do que ele. Não é de se espantar, portanto, que Natalie dissocie tanto. Ela cria narradores para si mesma, personagens que interpreta, se imagina vivendo outras vidas, outras realidades, e cai nessa dissociação não sabendo lidar com a faculdade e as colegas e todo o resto. 

É uma existência nervosa e solitária. O livro, publicado em 1951, ecoa tantas outras obras de mulheres da época, que também possuem esse ritmo inquietante, esse diálogo com alguém, qualquer um, sobre esses nadas que acontecem na vida de uma jovem - nadas que modificam tudo e corroem por dentro. 

“Não vou pensar nisso, não importa”, disse a si mesma, e sua mente repetiu, como uma idiota, Não importa, não importa, não importa, não importa, até que, desesperada, ela disse alto, “Não me lembro, nada aconteceu, nada do que eu me lembro aconteceu”.

Exemplar recebido em parceria pela Companhia das Letras. Edição da Alfaguara, com tradução de Débora Landsberg.

0 Comentários