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Pessoas Normais, de Sally Rooney


O segundo livro da escritora irlandesa Sally Rooney, Pessoas Normais, foi publicado no Brasil em 2019, pela editora Companhia das Letras, com tradução de Débora Landsberg. Causando um burburinho desde antes do lançamento, esse parece ser o novo livro de cabeceira dos jovens-de-vinte-e-poucos-quase-trinta-anos. A forma como ela fala de sentimentos e as situações que criou, baseadas na vida de pessoas comuns, é reflexo da nossa própria geração. A passagem de uma adolescência deslocada e confusa para uma recém-adultez meio cínica, encarando a vida de frente, descobrindo amores e dissabores e tentando encontrar nosso espaço no mundo enquanto lidamos com pessoas de origens e pensamentos diferentes é o centro narrativo da autora.

O livro nos apresenta dois personagens principais, Marianne e Connell, e nós os acompanhamos desde a adolescência até o início da vida adulta. Tudo começa numa pequena cidade no interior da Irlanda quando Marianne se sente constrangida e atraída por Connell, o filho da empregada. Sally Rooney gosta de trabalhar com relações de classe em sua escrita, isso é algo que está sempre em evidência de alguma forma. Mas essa diferença social não impede que ambos se conectem já que, para além dos sentimentos, Marianne não é apenas uma garota rica, mas uma garota rica esquisita, de quem ninguém gosta. Ela lê mais do que todo mundo e possui uma atitude ao mesmo tempo blasé e agressiva, o que certamente não chama a atenção de forma amistosa. Enquanto isso, Connell é popular e querido, possui diversos amigos e pode se envolver amorosamente com quem quiser. Ele é desejado e respeitado. Mas ele quer Marianne, ainda que em segredo. É uma dinâmica semelhante a que vemos em Um Dia, de David Nicholls, com Emma e Dexter travando uma relação de poder e obsessão durante alguns anos, mas a diferença é que em Pessoas Normais essa dinâmica acontece no final da escola, não no término da graduação. 

Apesar de existir uma tensão de poder aquisitivo e poder emocional, Marianne e Connell vivem durante anos uma relação sentimentalmente constante. Ainda que Marianne se encontre com outros caras, é com Connell que consegue se abrir verdadeiramente. E, mesmo que ele namore uma garota a quem ama, é só com Marianne que se sente confortável para ser quem é, ainda que isso signifique ser um pouco esquisito. Connell é emocionalmente inseguro, mas popular e agradável, ao menos até chegar à faculdade, em Dublin, onde se transforma em mais um rapaz comum, do interior e sem amigos. Marianne, por outro lado, se encaixa de cara naquela cidade. De família rica e com hábitos pedantes, não é difícil para ela encontrar um lugar no mundo durante seus anos universitários. Mas isso tem um preço, como tudo tem. 

“Marianne tinha a sensação de que sua vida real acontecia em outro lugar, bem distante dali, acontecia sem ela, e não sabia se um dia descobriria onde era e se seria parte dela.”

No entanto, Pessoas Normais tem um sério problema: o desenvolvimento pessoal das personagens. O pior deles, talvez, seja a forma como a autora insere práticas BDSM na história. Alguns clichês ruins são utilizados como sendo a explicação da passividade de Marianne e o desejo de ser submissa aos seus namorados. A família abusiva e violenta é a justificativa para seu comportamento masoquista, o que leva a verdadeiras cenas de humilhação sexual e emocional e quase estupros, o que não me parece de acordo com verdadeiros relacionamentos BDSM. Também encontramos indícios disso em Conversas Entre Amigos, mas de outra forma, uma forma que parece melhor trabalhada, ainda que não seja tão bem desenvolvida. Frances sente vontade de mandar que Nick lhe bata só porque pode, porque sabe que ele é passivo. É outra dinâmica. Não existe a justificativa preguiçosa da menina rica com problemas em casa que gosta de apanhar de homens. 

Existe toda uma polêmica envolvendo relacionamentos BDSM mas, longe de estar em posição de julgar o que dá prazer a outra pessoa, esses relacionamentos podem ser saudáveis. Escrever uma mulher que quer ser submissa porque sofreu violência de seu irmão é jogar no lixo todos os anos de estudos e análises a respeito da experiência sexual livre. Marianne simplesmente poderia gostar da prática porque gosta, sem a necessidade de um background violento — e não desenvolvido — para isso. Nesse ponto, o livro me lembrou muito Cinquenta Tons de Cinza, com seu background clichê para explicar os desejos de Christian Grey. 

Outro problema é a falta de originalidade. Sally Rooney é uma boa escritora, sua prosa consegue envolver o leitor de uma forma emocional e reflexiva, mas seu segundo livro parece muito mais uma repetição de referências. Embora seja um grande sucesso no meio literário, é perceptível a emulação de padrões que já conhecemos. Toda a estrutura de sua narrativa é uma grande mistura entre Um Dia com o primeiro livro da autora, Conversas Entre Amigos. Capítulos e diálogos inteiros parecem ter sido apenas melhorados de um livro para o outro (os capítulos da viagem com amigos, por exemplo, a tensão sexual, os sentimentos complicados… eles existem em ambos os livros, mas em Conversas existe um desenvolvimento melhor), deixando a impressão de que Pessoas Normais é a maneira de Sally Rooney tentar se reinventar dentro de seus próprios temas, algo que acho louvável e comum: muitos são os escritores que fazem isso. Contudo, ao contrário da maior parte da crítica, penso que ela, ao escolher esse caminho, acabou engessando seus próprios temas num molde estático de um modelo que funciona melhor em seu livro de estreia. 

Se em Conversas Entre Amigos nós temos uma dinâmica interessante entre duas mulheres, Bobbi e Frances, e um relacionamento complicado com Melissa e Nick, em Pessoas Normais temos Marianne (personagem que também parece fazer parte do mesmo universo do primeiro livro, já que é mencionada algumas vezes nele) e Connell, um casal que poderia ter sido interessantíssimo caso já não o tivesse visto em outro livro. Como alguém que viveu o hype de Um Dia, é difícil ler a história de Marianne e Connell e não identificar neles Emma e Dexter. No entanto, o que Sally Rooney parece ter feito foi inverter os papéis ao fazer com que a personalidade e os conflitos de Emma fossem espelhados em Connell e os de Dexter, em Marianne. Ao mesmo tempo, a autora colocou traços de Frances em Marianne e de Bobbi em Connell. 


É normal que artistas trabalhem com temas. Todos temos os nossos, as pequenas questões que nos incomodam no meio da noite e nos fazem ficar acordados, pensando sobre o que poderia ter sido e o que será. Colocamos isso no que criamos. Sally Rooney parece ter feito o mesmo. Questionamentos sobre amor, relacionamentos, amizades, capitalismo, monogamia, lealdade e tendências masoquistas permeiam ambos os livros, mas me parecem melhor trabalhados — e de forma mais original — em Conversas Entre Amigos

Mas livros semelhantes nunca foram feitos? Autores não têm o direito de se repetir? Com certeza têm, e a literatura — assim como a arte e o mundo, em geral — é feita de repetições. A questão não é o enredo possuir uma história que já vimos, mas como essa história é contada. E Sally Rooney possui uma voz cínica e distante, o que parece ter lhe conferido o título de uma narradora genuinamente millennial. Mas não é nada que já não tenhamos visto antes e com melhor qualidade. Inclusive, dela mesma. 

A forma como enxergamos um produto artístico é muito pessoal. Pessoais Normais, entretanto, carrega problemas em outros pontos, como a caracterização de seus personagens. A primeira parte do livro, quando eles ainda estão na escola, é interessante e melhor aprofundada. No restante, parece que a autora não se deu ao trabalho de tentar entendê-los, fazendo com que tivessem atitudes sem nexo e a profundidade de uma colher de chá como símbolo da falta de maturidade na recente vida adulta. O livro possui uma proposta diferente, é claro, e, por isso mesmo, talvez não tenha funcionado tanto assim enquanto literatura. Penso que seria o tipo de história que funcionaria melhor numa adaptação, como uma série. Existem histórias que são melhores nas telas — como é o caso de Bridget Jones, por exemplo. Pessoas Normais, de fato, virou uma série, que não assisti, mas que tem sido frequentemente elogiada. Certamente, a história possui estrutura perfeita para o formato. 

“São engraçadas as decisões que a gente toma porque gosta de alguém, ele diz, e aí sua vida inteira muda. Acho que a gente está naquela idade esquisita em que a vida pode mudar muito por causa de decisões banais.”

Histórias de amor continuarão sendo feitas. Os temas se repetem, não há nada de mau nisso. A cada espaço de tempo, certos tipos de história voltam à tona e dominam as narrativas culturais. Há pouco, foram os vampiros que estavam em tudo: desde os livros de Stephenie Meyer até a série True Blood. Hoje, são os romances jovem-adultos, meio irônicos, meio esquisitos, com personagens péssimas e reais. Mas Marianne não me parece real, ela parece um grande clichê de diversas personagens que já conheci. 

Toda geração parece ter sua voz e ter um artista escolhido para ser aquele cuja obra representa toda uma cultura (sempre branca, sempre classe média, sempre anglófona, mas essa é outra discussão). No caso de Sally Rooney, a geração é a millennial, a minha geração, aquela que quebrou a economia mesmo sem ter conseguido sair da casa dos pais ainda. No entanto, apesar de entender o ímpeto dessa afirmação, não consigo ver a escritora nessa posição. Uma das melhores coisas de nosso tempo é a pluralidade de vozes ao alcance de todos através da internet. Basta uma atualização push-up para que saibamos dos pensamentos de uma pessoa a quilômetros de distância e fiquemos verdadeiramente comovidos ou reflexivos com os pensamentos e vivências de alguém que nem conhecemos. Temos muitas vozes falando ao mesmo tempo. Somos plurais. Sally Rooney não é, e está tudo bem não ser. Ela pode representar uma parcela millennial — uma parcela branca, classe média alta, universitária e, basicamente, europeia —, mas não representa uma geração inteira, com suas diferenças de classe, língua e aspirações. Tentar colocá-la nessa caixinha é limitador e excludente. Ela é uma boa escritora, sabe usar as palavras, mas é isso, e nada muito além, ainda que existam diversas pessoas que se identificam com ela. No entanto, também existem aquelas que não conseguem se enxergar nas palavras de Rooney. E está tudo bem. 

Artistas produzem obras de acordo com seu tempo, ainda que isso seja feito de forma não-intencional. Somos produtores e produtos de nossa época, o que não é ruim, mas pode significar que estamos dentro de padrões pré-estabelecidos e, por mais que nos esforcemos, vamos reproduzi-los de alguma forma. Entendo o rótulo de millennial dado a Sally Rooney, assim como o de voz de uma geração, mas não concordo com ele. Sim, seus livros falam sobre jovens ricos e pobres, tentando achar seu lugar no mundo numa época em que tudo está um caos, a política está a um passo da guerra, o meio-ambiente grita por socorro e os relacionamentos são líquidos. Mas e daí? Isso faz dela a voz de uma geração ou faz dela uma escritora preocupada em inserir em sua obra algumas pinceladas de temas atuais?

O que isso faz é com que um grande peso seja colocado sobre ela e sobre os leitores. Ela foi rotulada dessa maneira desde seu primeiro livro, o que pode ter afetado a estrutura do segundo. E nós, enquanto leitores, nos vemos constrangidos a gostar dele, já que grandes veículos e críticos afirmaram ser essa é a autora que fala por nós, ser esse o livro que nos retrata enquanto adultos em desenvolvimento. É um peso muito grande. O melhor seria deixarmos esses rótulos de lado e simplesmente curtimos a literatura porque ela é boa ou porque gostamos dos personagens ou mesmo da prosa de Sally Rooney. Deixar que ela seja só mais uma escritora dentre tantas outras é libertador. Assim como o é poder não gostar do livro. 

Marianne e Connell são pessoas que passam a história toda se desencontrando, mas que possuem muitos sentimentos e memórias para ficarem completamente longe uma da outra. Já vimos isso muitas vezes, especialmente em Emma e Dexter, em Um Dia. Não consigo dissociar um romance do outro. Para mim, ambos são o mesmo, mas em épocas diferentes. 

Talvez o trunfo de Pessoas Normais seja justamente a época em que ele se passa. É o agora, é o nosso presente, uma coisa cínica e meio desesperançosa mas, ao mesmo tempo, muito autoafirmativa. Estamos aqui, existimos, temos opiniões e não sabemos ao certo o que sentimos porque tudo acontece ao mesmo tempo e ainda não adquirimos maturidade suficiente para lidar com a vida adulta, apesar de precisarmos encará-la. Não é original, mas conversa com a nossa geração, que é o que importa, no final das contas. 

3 Comentários

  1. Fui ler Pessoas Normais num hype obsessivo depois de ver tanta gente e tantos posts falando sobre ele. Saí completamente frustrada, quase emburrada, rs. Não sei bem se chega a isso, nem pra mim, mas me incomodei tanto com esses problemas de desenvolvimento das questões dos personagens que quase achei o livro RUIM mesmo, só. E todo esse lance de saber que colocam a autora na cadeira de ''representante da nossa voz'' só contribui pra reforçar minha opinião negativa, apesar de também achar a escrita dela bem fluida e boa de acompanhar. #triste :(
    No fim, minha coisa favorita no livro é a capa (kkkkk?). Acho que a lata de sardinhas com o casal dentro encolhido transmite melhor do que qualquer outra coisa a ideia de que essa é (pra ser) uma história de gente ordinária, ''gente como a gente''. Pena que o resto me deixou apática e decepcionada. :/

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  2. Ah, mais uma coisa! AMEI a série, fiquei completamente encantada e comovida com a adaptação. Sensível, sensível, sensível que dói. Recomendo demais. Sei que vai ser por um longo tempo a minha principal ''adaptação que gosto (muito) mais que a obra original'', kkkkk.

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  3. Estou com dois livros dela em casa, mas ainda não tive ânimo/coragem para iniciar nenhuma das duas leituras. Acho que todo o hype me deixou um pouco desanimada. Vou acabar lendo eventualmente, mas fico com uma sensação de que vou me decepcionar, vamos ver... :/

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