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“a thing of beauty is a joy forever”

Ouvindo os 500 melhores álbuns de todos os tempos - 1/100

"Chega de Taylor Swift", foi o que disse a mim mesma depois de ouvir folklore pela centésima vez. Embora o número pareça um exagero, o meu perfil no last.fm mostra que não se trata disso: tenho ouvido os álbuns da Taylor (em especial folklore, Lover e reputation) muitas vezes por mês. Isso, é claro, é culpa dos sentimentos: passei a lidar com a consciência de vários sentimentos e, bem, poucas pessoas escrevem e cantam tão bem sobre sentimentos quanto Taylor Swift. Ainda assim, ela superou a minha banda favorita, Queen, em número de scrobbles. E eu não gostei da ideia de ouvir obsessivamente apenas uma coisa.

Passei muitos anos, da infância até praticamente toda a adolescência, estudando música - particularmente canto, piano e um pouco de bateria. Durante muito tempo, música era tudo para mim. Então, acabei a deixando de lado para perseguir outros objetivos, mas ainda assim ela sempre teve um papel importante na minha vida. Porém eu sou lenta para descobrir novos artistas: quando gosto de um, ouço seus álbuns até saber tudo sobre eles, cada arranjo, composição, pausa e porquê. É uma característica minha e algo que, honestamente, considero uma qualidade. Mas se torna difícil quando vira um empecilho para ouvir novas coisas. E Taylor Swift, embora tenha seu mérito, não inventou a música (fora que eu definitivamente não sou uma pessoa do pop); estava na hora de conhecer novos álbuns. 

Foi nessas que me deparei com a lista da Rolling Stone, The 500 greatest albums of all time. Eu amo listas. Faço várias, sobre praticamente tudo. Adoro a organização, o efeito relaxante de colocar ordem em algo, a desculpa perfeita para se debruçar durante horas sobre um assunto. E também amo álbuns. Ouvir álbuns é uma arte quase perdida - realmente ouvir um álbum, não apenas uma ou outra música em playlists no Spotify. Com exceção de discos de artistas de quem gostamos muito - e cujos trabalhos esperamos com ansiedade - nós não ouvimos mais álbuns. O que é uma pena porque, embora hits possam ser excelentes, álbuns contam histórias. São feitos em momentos específicos, e cada um traz algo diferente do artista e seu momento no tempo e espaço quando o compôs. Ouvir um álbum é uma arte. Ouvir com atenção, parar tudo, sentar confortavelmente ou deitar com os fones de ouvido, prestando atenção a cada nota, a cada palavra cantada. É algo que eu amo fazer - então decidi fazê-lo de novo, dessa vez a partir da lista da Rolling Stone. Ouvir cada um dos 500 álbuns eleitos como os melhores de todos os tempos - sim, mesmo aqueles que não são do meu gosto musical. A ideia é dar uma chance para todos, ouvir com atenção e me permitir conhecer e gostar das coisas. Sem interrupção da internet, sem notificações de redes sociais, sem a expectativa ansiosa por aquela mensagem. Apenas eu, meu fone de ouvido e histórias contadas em álbuns. 

E, aqui, vou contar a minha história com cada um deles. 5 por vez. 

(Os álbuns estão sendo ouvidos em ordem do primeiro ao último - que não é a ordem de abertura indicada na Rolling Stone, mas é a que eu prefiro. Alguns eu já havia ouvido, e muitos são, inclusive, favoritos, mas todos foram ou serão ouvidos novamente. Bem, vamos lá.) 

1. What's going on - Marvin Gaye (1971)

Sempre fico particularmente comovida por pessoas que conseguem falar sobre coisas terríveis e feias de forma bonita, poética e suave. Assim é What's going on, álbum de Marvin Gaye lançado em 1971 que fala sobre a Guerra do Vietnã, sobre a pobreza, as altas taxas que o governo impunha, sobre como a natureza estava sendo devastada e, enquanto a população negra morria sem condições de melhora de vida, o governo gastava os impostos em projetos da NASA, para ir à Lua. São temas pesados e difíceis, mas na voz de Marvin Gaye eles também são poéticos. 

À época do lançamento do álbum, Marvin Gaye afirmou a um jornal:

"Eu trabalho melhor sob pressão e quando estou deprimido. O mundo nunca foi tão deprimente como agora. Estamos matando o planeta, matando os nossos jovens nas ruas e indo para a guerra em todo o mundo. Direitos humanos, esse é o tema."

Eu nunca tinha ouvido nada do Marvin Gaye além daquela música famosa que todo mundo já ouviu algum dia. Também vi um documentário sobre sua vida, mas isso foi há muito tempo, quando eu não tinha mais do que treze anos, então não registrei muita coisa para além do fato de que ele foi morto pelo próprio pai num dos acontecimentos mais trágicos e violentos da história da música. Depois acabei indo por outro caminho, musicalmente falando, e só fui reencontrá-lo agora. Bem, o que posso dizer após ouvir esse álbum (duas vezes) é que não é à toa que ele está em primeiro lugar na lista. A voz desse homem era impressionante, assim como sua coragem em falar sobre temas tão espinhosos, e de uma maneira que tendo a crer ser impossível não emocionar. Era o início dos anos 70, e as coisas eram difíceis. Quando pensamos nessa década agora, é comum ter em mente todo o brilho do glam rock e a moda maravilhosa que dominou a todos, herança dos hippies dos anos 60. Mas os 70 também foram um período de muita dificuldade, de muita luta, e, infelizmente, de muito sangue derramado - sangue esse majoritariamente negro nos Estados Unidos. 

What's going on é um apelo ao amor, ao cessar da guerra, e também uma lembrança de uma época horrível e da capacidade do ser humano de produzir arte por causa, ou apesar, de tudo. 

Músicas preferidas: What's going on, What's happening brother e Mercy mercy me (the ecology)

2. Pet Sounds - The Beach Boys (1966) 

É difícil crescer assistindo a comédias românticas sem ter ouvido uma vez sequer a música que abre Pet sounds, Wouldn't it be nice. Mas fora isso, eu nunca havia ouvido The Beach Boys. Então foi uma surpresa quando, ao terminar de ouvir o álbum, a impressão que ficou foi que havia sido enganada. Embora a primeira música tenha o tema do desejo amoroso não-realizado (o desejo da pessoa jovem que quer passar a noite e o dia e novamente outra noite com a pessoa amada, mas não pode, já que ambos são muito jovens e não podem casar - lembrando que eram os anos 60), ela é inerentemente feliz e cheia de esperança. Todavia conforme o álbum vai avançando, podemos ouvir o próprio Dante Alighieri dizer "deixai toda a esperança, vós que entrais!"

O som é muito o característico rock balada daquela década, com um bom toque de psicodelia - bonito, portanto. Mas é verdadeiramente triste ouvir sobre todo esse amor pairando no ar, sem ter nada que fazer com o sentimento além de cantar a angústia do desejo distante. E há muitas formas de amor que são cantadas no álbum, desde o gostar adolescente que precisa esperar o amadurecer até o ser apaixonado por uma amiga e esperar que um dia ela te enxergue como algo a mais. 

Mas também é um álbum sobre ser jovem, sobre estar meio perdido, tentando encontrar seu lugar no mundo - seja na arte ou em meio a drogas. De qualquer forma, o eu-lírico das letras está perdido; se de amor ou de si mesmo, é apenas uma questão de quando

Muitos críticos concordam que The Beach Boys praticamente inventaram o subgênero "músicas felizes que na verdade são tristes", e eu tendo a concordar. Certamente, escutar esse álbum dá um nó na cabeça e deixa um sentimento ambíguo no peito. 

Músicas preferidas: Wouldn't it be nice, Sloop John B, God only knows e Here today

3. Blue - Joni Mitchell (1971) 

Tudo tem o seu momento. Livros, filmes, séries - e álbuns. Seja qual for a arte, ela nem sempre vai nos atingir da mesma maneira, porque por melhor que seja, a arte é subjetiva, precisamos estar em determinado estado de espírito para senti-la, entendê-la. 

Foi assim com Blue. Já tinha ouvido o álbum, é claro, mas não o havia achado grande coisa. Ele é, tecnicamente, um álbum simples: tocado a piano ou violão, basicamente, os arranjos não são necessariamente complicados. E sem estar no estado de espírito ideal, é compreensível que a delicadeza e grandeza dele se percam ao ouvinte. Era manhã de Páscoa, seis e pouco, o dia começava a clarear e eu acordei. Logo peguei o fone de ouvido e coloquei Blue para tocar. E entendi - pois senti - o que faz dele tão especial. Sendo eu alguém que ouve muito a Taylor Swift, não seria possível não saber que são as letras o destaque do álbum, mas uma coisa é ter ouvido falar, outra é realmente prestar atenção. E Joni Mitchell fez desse um álbum muito confessional - são sentimentos tão comuns, universais, de uma jovem mulher nas idas e vindas do amor, que realmente pode passar despercebido, nesta era em que isso já virou comum, o porquê em 1971 ela se destacou tanto ao criar tais composições. 

Porém a mágica de ouvir um álbum com atenção é que você realmente vai, invariavelmente, notar suas nuances. E dessa vez, os arranjos não ficaram de fora para mim. Eles não são tão simples quanto pareceram na primeira vez que o ouvi. Mesmo o simples é intrincado - como uma boa maquiagem, a ponto de parecer natural, embora certamente dê muito trabalho. Uma das melhores coisas no álbum é como a palavra blue está inclusa em quase todas as músicas, jogada ali em meio à poesia de cada letra, fazendo perfeito sentido e ecoando o tema do disco, a tristeza amorosa. A voz de Joni Mitchell é límpida e perfeita, encorpada nas notas certas, dando ênfase ao amor perdido, ao romantismo e ao lugar dos românticos no mundo. 

Músicas preferidas: The last time I saw Richard A case of you

4. Songs in the key of life - Stevie Wonder (1976) 

É claro que eu já havia ouvido Stevie Wonder. Suas baladas românticas sempre tocaram lá em casa quando eu era pequena, então sua voz não me era desconhecida. Mas eu nunca havia parado para, de fato, ouvir um de seus álbuns. E foi com curiosidade que cheguei para ouvir Songs in the key of life, não apenas o quarto disco da lista como considerado o melhor do cantor. 

Mas é difícil falar sobre ele. Não há nada essencialmente ruim: todas as músicas são de extremo bom gosto, perfeitamente executadas, acompanhadas do vocal agradável e potente de Stevie Wonder. Todavia o álbum é cansativo - ao menos para mim. São quase 2h de música (1h45, para ser exata). Isso é demais para um álbum só. Mesmo genuinamente gostando de todas as músicas, ainda assim chega um ponto em que o disco se torna meio enjoativo e cansativo, especialmente porque todas as faixas são mais ou menos semelhantes. Ótimas, com certeza, mas parecidas. 

As letras falam de amor, e Stevie Wonder falando sobre amor é sempre algo bonito. Também falam sobre questões sociais emergentes, sobre a vulnerabilidade da comunidade negra nos Estados Unidos dos anos 70 e sobre família, religião e a busca por algo. É verdadeiramente bonito. Mas infelizmente me cansou enquanto o ouvi. Para mim, esse álbum funciona melhor ao ouvir suas músicas separadamente do que em sequência. 

Músicas preferidas: Saturn, Ebony eyes, Sir Duke e Village ghetto land

5. Abbey Road - The Beatles (1969) 

Sou a filha mais nova de uma família com quatro irmãos - o mais novo deles é dez anos mais velho do que eu. Então, quando eu cheguei, todo mundo já tinha mais ou menos as suas preferências definidas. Lá em casa sempre escutamos muito rock - mas cada um gostava de um período específico. Meu pai foi DJ nos anos 70, então a coleção de vinis dele é enorme. E em termos de gosto era assim: meu pai ouvia muito os BeeGees, a banda preferida dele. Meus irmãos mais velhos eram mais de Guns'n'Roses e Metallica. Os dois mais novos, que conviveram mais comigo por ainda morarem em casa conforme eu crescia, eram fãs de Legião Urbana e Elvis Presley. Já eu ouvia a toda essa combinação de estilos e décadas que eles ouviam, junto de algumas playlists e álbuns de outros artistas. Foi aos dez anos que comecei, todavia, a conhecer o meu próprio gosto. A gente havia se mudado para uma casa nova, e desencaixotando os vinis, encontrei uma coleção inteira de uma banda chamada The Beatles. Eu não os conhecia, então peguei um álbum e coloquei no toca-discos. Aquela foi a primeira vez que ouvi Abbey Road

Os Beatles foram, por muito tempo, a minha banda preferida. Eu ouvi a quase todos os álbuns em vinis originais da época, que meu pai tinha guardado. Sentava para almoçar, sempre depois de todo mundo, sozinha, ao lado do toca-discos, ouvindo as músicas da maior banda de todos os tempos. Claro que eu não tinha noção disso na época, mas certamente senti o impacto daquela banda, que era diferente de tudo o que eu havia ouvido. Com o passar do tempo, conheci o Queen, que se tornou a minha banda favorita, mas os Beatles certamente estão grudados ali, no primeiro lugar. E Abbey Road foi um álbum muito especial enquanto eu crescia. Foi o álbum que me fez descobrir música - descobrir de que eu gostava, explorar as possibilidades musicais e ritmos de cuja existência eu não fazia ideia. Naquela época, eu já tinha aulas de música, então me concentrei em aprender os vocais, o piano e a bateria das faixas do álbum. E foi uma experiência incrível. 

O interessante de Abbey Road é como ele é um álbum divertido. Não é engraçado, mas dá para sentir a energia criativa fluindo de todas as músicas, o que torna tudo muito divertido, pois é vivo e sem limites. Estilos, ritmos, letras, vocais - tudo nele é perfeito e cada faixa é única à sua maneira. Anos mais tarde (lembrem-se: eu fiz dez anos em 2004, e naquele ano ninguém tinha acesso à internet aqui no bairro; tudo que se sabia das coisas vinha através de livros ou documentários), fiquei sabendo que essa impressão não era à toa: os Beatles acreditavam que aquele seria seu último álbum, então o clima não estava pesado, mas pairava algo como alívio e camaradagem entre eles, o que certamente foi determinante para que a criatividade de cada um pudesse ser explorada da forma como foi. 

Abbey Road continua sendo um dos meus álbuns preferidos, dezoito anos depois da primeira vez que o ouvi. E escutá-lo é sempre como ser abraçada - reconfortante e com cheiro de casa -, mas também desafiada, pois cada arranjo perfeito, tantos anos depois, segue chamando a uma arte sem medo de existir na experimentação. 

Músicas preferidas: I want you (she's so heavy), Because, Something, Come together e You never give me your money

Playlist 

Conforme for ouvindo aos álbuns, acrescentarei as minhas músicas preferidas de cada um deles numa playlist (menos as da Joni Mitchell, pois ela saiu do Spotify) que sempre linkarei ao final dos posts. 


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