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Como se faz uma bruxa

Este vai ser um post longo e pessoal, então já vou avisando pra arrumarem seus chazinhos, sentarem confortavelmente ou deixarem isso pra mais tarde porque aqui vou eu. 

Final de semana passado parei pra finalmente ver um filme que todo mundo já viu: A Bruxa (2015). Eu deliberadamente evitei ver o filme nos últimos dois anos porque, apesar de eu amar filmes de terror, às vezes rolam umas identificações meio absurdas com essas histórias de fantasma, espírito e coisas que estão ali mas não deveriam estar. 

A história do filme é aquela que vocês já devem conhecer: alguns anos antes dos acontecimentos de Salém, uma família sai da Inglaterra e vai pra Nova Inglaterra (que se tornaria Estados Unidos depois) e fica lá, vivendo da fazendinha e isolados de todos. Literalmente. Coisas começam a acontecer e é claro que o bode expiatório usado pra desculpar tudo é a bruxa. Que precisa ser alguém. Que acaba sendo a filha mais velha porque alguém precisa ser culpado por toda a desgraça que está acontecendo.


Esse filme me assustou de verdade. Não pela cena com o bode demoníaco (que ficou bem legal, mas não é o ponto forte pra mim) ou o final (que achei bem forçado, na verdade), mas sim por toda a construção narrativa da tensão do puritanismo cristão. Aquela coisa horrorosa de achar um bode expiatório, de sempre se considerar pecador, culpado, de acreditar ter nascido com o pecado original e precisar eternamente se redimir a uma criatura que ninguém nunca viu ou ouviu é simplesmente assustadora. Assusta porque é algo imposto e é algo que sabemos que aconteceu. Aquele século XVI foi de um puritanismo absurdo de tão forte. Não que isso não tenha havido em outros séculos, mas a concentração que teve ali de fanatismo foi tão forte que deu origem à histeria coletiva da caça às bruxas de Salém. 

Obviamente que esse episódio passou e hoje em dia a gente tem mais acesso a coisas como informação de que esse tipo de bruxa que eles achavam existir na época não existe. (Tem gente que pratica o que é chamado de bruxaria, mas isso é outra coisa bem diferente.) Só que ainda existe uma repressão religiosa forte, um puritanismo que beira o fanatismo e gente tapada que acha que só a igreja salva e todo o resto é do demônio. 

Aí você vai me dizer que é exagero e eu vou lhe dizer que: queria eu que fosse. Como já disse algumas vezes aqui, cresci numa família evangélica. Mas era tudo relativamente tranquilo até a gente se mudar pra o local onde moro hoje, o local onde encontrei as piores pessoas que já conheci até agora. 

Fui chamada de bruxa pela primeira vez aos 11 anos. Foi por meus colegas de classe. Não era bullying normal de criança que chama a outra de qualquer termo pejorativo. Eles realmente tinham medo de mim. Ninguém chegava perto, ninguém me encostava. Se eu falava algo, todo mundo parava achando que eu tinha poderes sobrenaturais e que podia amaldiçoá-los. Eu nem sabia o que era uma bruxa pra além do que havia visto nos filmes da Disney, mas era chamada disso por ser estranha. E os pais desses meus colegas eram uns fanáticos que colocaram na cabeça dos filhos que não deveriam se aproximar da bruxa

Depois a coisa continuou. Eu ainda frequentava a igreja com a minha família e a coisa chegou a um ponto em que o pastor da época disse, em pleno altar pra todo mundo ouvir, que eu iria pra o inferno por ser uma pessoa corrupta e estar corrompendo as pessoas. Eu só tinha 17 anos, veja bem que grande corrupção eu fazia. Mas eu era uma bruxa porque me vestia diferente, nunca fui adepta do fanatismo mesmo que participasse dos cultos (mas era uma obrigação social, não algo real pra mim) e sempre tive esse humor peculiar que todo mundo conhece. Aí eu era a bruxa. Porque enquanto eles entravam na histeria coletiva de chorar e se atirar no chão dizendo sentir deus, eu tava lá, rindo daquela palhaçada toda porque eu já senti muitas coisas dentro de uma igreja: raiva, desprezo, nojo, solidão, angústia... Mas deus não foi uma delas. 

Aproveitei essa deixa pra sair de uma vez por todas e nunca mais voltei pra aquele inferno de gente fanática. Mas continuo vivendo aqui. E encontro essas pessoas todos os dias. E todos os dias elas riem de mim, mas se escondem se eu olho. Sussurram um "olha a bruxa" e fazem um sinal da cruz quando eu passo. Essas pessoas são amigas dos meus irmãos, que continuaram nessa seita maluca que está cada vez mais ganhando força no país porque as pessoas são ignorantes demais pra perceber a vibe errada que isso é. 

Uma vez uma família dessa igreja invadiu a minha casa pra tentar matar a bruxa. Obviamente não conseguiram porque eu fui mais ágil e me tranquei no quarto, ligando pra polícia (o que não resultou em nada porque um dos chefes da polícia daqui é integrante desse culto maluco e encobriu tudo). Mas eles conseguiram machucar a minha mãe no processo. E só não foram adiante pelo medo da polícia chegando. 

Aí eu vejo um filme desses e fico com medo real porque eu sei bem o que a histeria coletiva de uma fé cristã pode fazer com alguém. Sei bem o que forma uma bruxa. Não é se ela fala com o diabo ou não, se dança nua numa floresta, se tem saquinhos de feitiço na bolsa. Não. O que forma uma bruxa é a intolerância das pessoas de bem que estão sempre prontas a condenar qualquer um que não concorde com elas, que seja ligeiramente diferente delas.

~cena do filme~ 

Depois eu falo que odeio pessoas e odeio religiões e ninguém sabe o porquê. Mas essa loucura de fanatismo roubou minha infância/adolescência e tirou a vida de milhares de mulheres ao longo da história, transformando-as em coisas que elas não eram. Sinceramente, melhorem.*

*"Ah, mas isso é injusto porque sou cristã e nunca fiz ou ouvi falar disso." Joinha pra você, continue assim, mas os cristãos que eu conheço são bem horríveis. Mas sempre há tempo pra ser uma pessoa melhor, independente de religião; eu acho.  

3 Comentários

  1. Mia, você é demais. É um ópio isso tudo ter acontecido com você, com certeza sua força é absurda. E meu deus, verdade seja dita sobre toda essa obsessão. Nenhum cristão parece ter cacife para pregar o amor; eu só ouço envagélico pregar a palavra de satanás, olha olha.

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  2. Tô boladíssima com essa história.

    Apesar de eu dar umas sumidas épicas, eu admito muito você e não fazia ideia de que você tinha passado por tanta coisa. Eu fico abismada com isso.

    Realmente, as bruxas são criadas. Porque não dá pra admitir os próprios erros, porque não dá pra acreditar que a vida é ruim. Tem que ter um demônio por trás disso, e tem que ter alguém que compactua com esse demônio pra que ele esteja entre nós.

    Sinceramente? Amo a psicologia, mas tem horas que dá vontade de mantar a humanidade ir tomar bem no meio daquele lugar.

    Beijinhos. ♥

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  3. Caramba, Mia! :O
    Deve ter sido horrível o que aconteceu contigo :x

    Na época de escola, devido a mania de falar "sozinha" e ficar na minha, meus colegas diziam que eu falava com espíritos e por isso ia bem nas provas, essa piadinha acontecia quase todo dia, e eu era um misto de ligar pra isso e não ligar, não sei, era estranho.


    Quanto ao filme, ele me arrepiou da cabeça aos pés, senti um desconforto, não sei explicar...

    OBS: vou me abster em falar sobre fanatismo religioso, só vou dizer que, um dia desses, falei para um representante de igreja: "a verdade absoluta ninguém conhece" e fim, nunca mais foram na minha casa, rs

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