na cabeceira

literatura & diarices

You have five minutes to wallow into a delicious misery

Enjoy it, embrace it, discard it... and proceed.
(Elizabethtown, 2005)

O luto é um processo. Só fui começar a entender isso com a doença da minha mãe. O luto pode ser um processo que acontece antes da morte - e se intensifica com ela - ou pode ser repentino, que começa com a morte.

Minha mãe não morreu - ainda. E, honestamente, estou cansada de falar sobre isso, sobre esse problema que ela tem, sobre o período no hospital, sobre a espera. Estou cansada de pensar em morte e ter todo mundo à minha volta me tratando de forma estranha e fazendo com que eu, inclusive, me sinta pior ainda por não conseguir retomar a rotina direito nessa atmosfera deprimente. Foi por isso que decidi parar de falar sobre e ir viver, voltar à rotina da melhor forma possível e lidar com isso para mim mesma.

Esse momento pelo qual eu estou passando é bem delicado, especialmente porque o que as pessoas parecem não entender é que o luto é um processo. E cada um passa por ele de uma forma diferente. A minha maneira, ao menos por enquanto, é viver normalmente e me segurar o máximo possível. Tem dado certo.



Foi por isso que achei tão incrível o filme Elizabethtown. Eu nunca o havia assistido. Por algum motivo, há uns bons anos, até comecei a ver, mas toda aquela falação do início sobre a indústria de sapatos me deixou irritada e parei por ali - fora que realmente não sou fã do Orlandinho moreno; Legolas foi o meu primeiro crush da vida e descobrir que Orlando é moreno foi um choque na época, pois que cabelo daquele elfo, e acho que jamais superei o trauminha de infância. Mas o fato é que eu nunca havia assistido a esse filme. 

Só que aí, numa dessas ideias que total fazem jus ao nome do grupo, as gurias do Cilada e eu decidimos assistir aos filmes preferidos umas das outras e dar nossos pitacos no blog a respeito. Apesar de sermos bem amigas e termos muitas coisas em comum, nossos gostos cinematográficos (e musicais, talvez) são bem diferentes, então me empolguei bastante com a experiência. Porém, confesso que desanimei quando a Manu listou, entre seus filmes favoritos, o Elizabethtown. Torci o nariz e disse AH NÃO. Mas aí respirei fundo, vi que ele era o único filme da lista dela que eu não havia assistido e decidi dar mais uma chance a ele confiando no gosto da Manu, pois as recomendações dela são sempre maravilhosas. 

Ontem, depois de passar a tarde inteira limpando e reorganizando a minha estante (melhor dizendo, uma estante e sete pilhas de livros espalhadas pelo quarto), decidi assistir a um filminho. Mas não sabia qual. Nessas de ficar rolando eternamente a tela da netflix, lembrei do desafio cinéfilo do cilada e catei o que tinha por lá. O único era, obviamente, o preferido da Manu e dei play, pensando que iria ser mais um filme chato da Kirsten Dunst. E aí fui surpreendida. 

Eu jurava que fosse uma história de amor. O casalzinho indie se encontra e tem toda aquela vibe manic-pixie-dream-girl e ela torna a vida dele muito melhor e mais divertida. Porém, apesar de haver um romancezinho ali, esse está longe de ser o foco.

Não costumo ler sinopses ou ver trailers. Gosto de ser surpreendida por filmes, então simplesmente os assisto sem ficar indo atrás de como ele é. E é justamente por isso que eu não fazia ideia de que esse filme se tratava do processo de luto do personagem do Orlandinho.

Após um grande fracasso no trabalho e uma demissão bem dolorida, Orlandinho vai pra casa e prepara um suicídio, mas é interrompido por uma ligação de sua irmã, que avisa que seu pai morreu e ele precisa cuidar de tudo porque ela e a mãe deles não têm condição alguma. Orlandinho calmamente pega, larga tudo e viaja pra uma cidadezinha de interior chamada Elizabethtown levando o terno azul preferido do pai e tentando não ficar doido no processo. Nisso, a comissária de bordo do voo que ele pega vê que ele não tá regulando bem e fica puxando papo com ele durante a viagem inteira, dando a Orlandinho justamente aquilo de que ele precisa no momento: distração - mesmo que seja uma bem irritante.

Se eu soubesse que o filme era sobre isso, é certo que não o teria visto neste particular momento da minha existência.

Neste momento do texto eu posso dizer, sem problema algum, que sou o Orlandinho.
O cara tenta uma coisa por anos, a coisa não dá certo, ele vira o maior fiasco do trabalho e resolve se matar porque nada mais fazia sentido. Não que ele vivesse só pra o trabalho, mas ele tinha um objetivo ali e, por causa disso, abdicou de muita coisa na vida, como relações familiares, um relacionamento saudável e uma vida fora daquela loucura de preciso ser bem sucedido. Mas aí a vida chama e ele precisa ser um Adulto Responsável, essa coisa horrível, e tomar a frente do velório do pai.

Horrível.

Obviamente eu não sou um designer de sapatos cuja criação foi o maior fail de uma mega empresa. Tampouco meu pai morreu. Mas a situação, apesar dos pesares, não é muito diferente. Eu sou uma estudante de jornalismo que não consegue trabalho na área porque mora longe de tudo e precisa pegar mil ônibus pra chegar a qualquer lugar. Ainda moro com os meus pais numa idade em que as pessoas já estão se acertando na vida - e não tenho perspectiva alguma de mudar isso por enquanto. E desde o final do ano passado tenho surtado com a doença da minha mãe, que só fez piorar de uns tempos pra cá e me fez ter um nervous breakdown e sumir de tudo por um mês - o que me atrasou ainda mais a vida em termos de diploma. E esse não seria o problema se não fosse pela questão do processo de luto e da sensação constante de o que diabos tô fazendo da minha vida.

Confesso que às vezes a resposta é algo bem sombrio.
Mas uma coisa que me deu um pouco de ânimo foi ver o filme e me reconhecer com Orlandinho porque percebi que esse processo de não saber como lidar e parecer apático e, pra quem não me conhece direito, "bem", é algo normal. É uma reação normal de alguém que não sabe como expressar as tantas perdas e rasteiras que teve nos últimos tempos. É normal não ter reação perceptível e se agarrar a qualquer coisa pra se distrair.

~tamo junto, Orlandinho~

(Não vou entrar na problemática do manic-pixie-dream-girl porque a internet já tá lotada de textos sobre e realmente é desnecessário ficar remoendo coisas que todo mundo já sabe, até porque, apesar do romance, o papel dela ali na distração é essencial e maravilhoso e quem tem cumprido ele muito bem na minha vida é meu namorado, então, no caso do filme, é mais uma questão de sensibilidade ao contexto do que de idealização da garota perfeita.)

Nesses tempos estranhos, tenho andado na minha, meio catatônica, sem reação e fui obrigada a agir como Adulta Responsável e isso me deixa maluca. Mas, mesmo sabendo que é só um filme e que meus problemas continuam os mesmos, ver isso retratado num filme tão amorzinho e com uma mensagem tão bacana realmente me ajudou a assentar o sentimento de que tá tudo bem não querer me afundar na tristeza, por mais triste que seja a situação, e tá tudo bem fazer coisas que me façam bem. Que eu não preciso sentir culpa por tentar me distrair, me divertir, viver.

Assim como Orlandinho, sigo tentando. Porque eu não mereço afundar numa espiral de sofrimento.
Que momento, meus amigos. 

2 Comentários

  1. Aaaah Mia, fico feliz que mesmo não tendo sido uma indicação minha, as coisas que chegam no Cilada realmente tenham esse poder nas nossas vidinhas reais!
    Como já te disse por lá mesmo, definitivamente palavras de conforto num momento como esse não são lá a melhor coisa a se ouvir, mas algo que lembro do fim do filme, é que mesmo com a loucura toda, dá pra se encontrar e continuar. Tô aqui assistindo -- mesmo de longe --, a sua vez, tá? <3

    Limonada (antigo Novembro Inconstante)

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