na cabeceira

literatura & diarices

The Alice Network, de Kate Quinn


Há alguns anos li um livro que me fez começar a pensar diferente a respeito da guerra. O livro em questão é A Face da Guerra, uma coletânea de crônicas da Martha Gellhorn escritas durante basicamente todas as guerras do século XX. A escrita de Martha se distingue das demais porque ao invés de focar em entrevistas com grandes generais, como boa parte dos correspondentes de guerra faziam na época, ela entrevistou pessoas normais, cidadãos comuns que tiveram suas vidas afetadas pela guerra, mas continuaram vivendo. 

É claro que o livro de Kate Quinn, The Alice Network, não é um trabalho jornalístico de uma correspondente de guerra sobre cidadãos comuns vivenciando um momento histórico. Sua narrativa é atrelada, afinal de contas, a espionagem - e isso está longe de ser algo banal, ainda que tenha sido banalizado durante as guerras. Mas a forma como ela conta a história me lembrou muito a escrita da Martha, talvez por ser diferente dos demais livros sobre esse período que li, geralmente centrados em homens fortes e combatentes. 

The Alice Network 
Kate Quinn 
532 páginas 
William Morrow Paperbacks 
Ano de publicação: 2017 

Sobre o que é: Duas mulheres - uma espiã recrutada para a Alice Network na França durante a Primeira Guerra Mundial e uma socialite americana não convencional em busca de sua prima em 1947 - são reunidas em um história hipnotizante de coragem e redenção. 1947. No caótico rescaldo da Segunda Guerra Mundial, a universitária americana Charlie St. Clair está grávida, solteira e prestes a ser expulsa de sua própria família. Ela também nutre uma esperança desesperada de que sua amada prima Rose, que desapareceu na França ocupada pelos nazistas durante a guerra, ainda possa estar viva. Então, quando os pais de Charlie a banem para a Europa para que seu "probleminha" seja resolvido, Charlie se liberta e vai para Londres, determinada a descobrir o que aconteceu com a prima que ela ama como a uma irmã. 1915. Já há um ano na Grande Guerra, Eve Gardiner está ansiosa para se juntar à luta contra os alemães e inesperadamente tem sua chance quando é recrutada para trabalhar como espiã. Enviada para a França ocupada pelo inimigo, ela é treinada pela hipnotizante Lili, a "Rainha dos Espiões", que administra uma vasta rede de agentes secretos bem debaixo do nariz do inimigo. Trinta anos depois, assombrada pela traição que finalmente destruiu a Alice Network, Eve passa seus dias bêbada e reclusa em sua casa em Londres. Até que uma jovem americana inventa de pronunciar um nome que Eve não ouviu em décadas, e lança as duas em uma missão para encontrar a verdade... não importa para onde isso as leve.

Charlie é a personagem principal, uma estudante universitária nos anos 1940 que se vê em apuros ao se descobrir grávida. Sua mãe a leva para a Europa para cuidar de seu probleminha, ou seja, fazer um aborto. Mas Charlie decide ir atrás de sua prima Rose, que está desaparecida em algum lugar na França. Em sua busca, ela acaba conhecendo Eve, uma antiga espiã da Primeira Guerra Mundial que não está em uma situação melhor do que Charlie. 

Achei particularmente interessante a escolha da autora em colocar duas mulheres protagonizando um livro desse tema. É importante que se crie mais espaço no mercado editorial para que histórias assim, que vão para além do estereótipo do detetive soturno pelas ruas destruídas da Europa que possui apenas uma assistente que mal tem personalidade, se desenvolvam e tomem o imaginário popular das novas gerações. Romances históricos são maravilhosos, mas o tanto que costumam colocar  personagens femininas como um mero enfeite é algo singularmente irritante. Kate Quinn não fez isso e certamente acertou nesse ponto. Entre idas a 1915 a 1947, podemos ver, além da trama principal, as dificuldades de ser mulher em tempos de guerra, e particularmente eu adorei essa visão. 

Outro ponto a destacar é que tanto Charlie quanto Eve são personagens verossímeis. Ao contrário do que costuma ocorrer em romances históricos, elas estão longe de serem flores delicadas e possuem uma profundidade psicológica incrível. Suas motivações - seja de vingança, seja de culpa - são plausíveis, reais e as transformam em mulheres que poderiam ter de fato existido. É possível ter empatia por ambas e até mesmo se identificar com elas em certos pontos. Mais uma estrelinha para Kate Quinn por sua construção de personagens. 

Talvez a única crítica real que se possa fazer acerca da obra seja sua linguagem. Pode ser algo que vá se perder na tradução, mas pelo menos no original a prosa é, em certos momentos, arrastada, o que faz com que a leitura se torne cansativa. Claro que o enredo, muito bem construído, faz com que o leitor insista em continuar mesmo que o capítulo esteja enfadonho, porém é fato que a escrita de Kate Quinn, em termos de vocabulário, é um contraponto - contudo é o único em que pude pensar, já que o livro é basicamente perfeito. 

0 Comentários