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A ladder to the sky, de John Boyne


A primeira vez que li algo do John Boyne foi em 2013. Peguei emprestado da biblioteca do Sesc um exemplar de O menino do pijama listrado. A recém havia me tornado Uma Leitora Séria - ou pretensa Leitora Séria, risos - e quase não tive coragem de começar a leitura por ela tratar de um tema tão pesado. Mas li. Fiz quase toda a leitura num banco de praça da cidade, após a escola, e tive meu coração massacrado pela primeira vez lendo uma história. 

Quando iniciei a leitura de A ladder to the sky, pensei: espero que esse livro não me quebre o coração. Porque John Boyne é um verdadeiro heartbreaker e, por mais que eu o considere um dos grandes mestres da literatura contemporânea, não há como negar que o cara gosta mesmo é de mexer com os sentimentos do leitor. 

A ladder to the sky
John Boyne
366 páginas
Hogarth Press
Ano de publicação: 2018

Sobre o que é: Se você procurar bastante, encontrará histórias em praticamente qualquer lugar. Elas nem precisam ser suas. Ou foi isso que Maurice Swift, pretenso escritor, decide no início de sua carreira. Um encontro casual em um hotel de Berlim com o célebre autor Erich Ackerman dá a Maurice uma oportunidade. Pois Erich é solitário e tem uma história para contar; se deve ou não é outro assunto. Uma vez que Maurice fez seu nome, ele precisa de uma nova ideia. Ele não se importa onde a encontra, desde que isso o ajude a chegar ao topo. As histórias o tornarão famoso, mas também o farão pedir, emprestar e roubar. Elas podem até fazer com que ele faça coisas piores. Este é um romance sobre ambição.

O livro não me quebrou o coração, mas quase. Fui fisgada logo no começo porque não há como ler algo do Boyne sem se sentir aos pés de uma lareira quentinha, tomando um chá e ouvindo uma história narrada por um senhorzinho simpático, porém austero. A princípio, pensei que seria algo meio Thomas Mann em A morte em Veneza, com aquela paixão súbita por um rapaz mais novo, o ideal de beleza, os pensamentos vagos sobre arte… Porém, fui surpreendida de uma forma que realmente não imaginava que seria ao perceber que a narrativa não era nada daquilo. Digo isso porque não tenho o costume de ler sinopses antes de ler livros. Gosto de me aventurar em histórias desconhecidas e tentar descobrir o porquê dos títulos escolhidos e como eles se encaixam na história. Após algumas horas apreciando aquela narrativa, não foi difícil entender a escolha do autor. 

Costumo tomar muito cuidado quanto a nomenclaturas relativas à saúde mental, no entanto é acertado afirmar que Maurice Swift, o protagonista do livro, é um psicopata. Nos primeiros capítulos, pensei que o protagonista fosse o escritor Erich Ackermann, mas logo fica claro que Maurice é a estrela da história e não poderia ser de outra forma, já que ele é completamente obcecado por sua ambição. Mas é de Ackermann a voz que nos introduz àquele mundo de fraudes, perversidade e manipulação. Tudo começa quando o escritor percebe, em um evento literário cuja atração principal é ele, um garçom lindíssimo. A atração é imediata e logo Maurice, o garçom que na verdade nutre uma paixão obsessiva por literatura, entra na vida de Ackermann e de lá só sai após conseguir o que ambicionava: uma história vergonhosa do passado de Ackermann, envolvendo um rapaz judeu e o Estado nazista, que logo é transformada em livro por Maurice. É claro, ele não tem escrúpulos ao revelar que a história é verdadeira e baseada num episódio da vida de Ackermann, desmoralizando o escritor. 

Dez anos se passam e vemos agora um Maurice observando sua lenta decadência. Casado com Edith, também uma escritora, mas bem diferente de seu marido. Ele, obviamente, não lida muito bem com isso e a narrativa suave e envolvente de Boyne leva o leitor a se envolver no drama de uma mulher casada com um homem que nada deseja além dos holofotes. 

Conforme vai envelhecendo, a postura de Maurice piora cada vez mais, sua ambição se mostra um poço sem fundo e é simplesmente impossível não haver uma atração entre leitor e personagem. Por pior que Maurice seja - e ele é horrível -, Boyne faz com que o leitor seja cúmplice de seus delitos e de sua loucura e consiga compreender o quase incompreensível. Atrevo-me a dizer que, fosse essa uma história de amor e não uma história de poder e ambição, Maurice poderia figurar entre os mais amados anti heróis da literatura, incluindo Heathcliff e Dorian Gray. Histórias que envolvem o mundo literário sempre me fascinam, porém ela nada seria não fosse a verdadeira genialidade de Boyne. Tê-lo lido em seu idioma original só fez engrandecer o livro e, apesar de confiar nos tradutores dele aqui no país, temo que o futuro leitor possa perder a real experiência que é ler esse livro da forma como o autor o escreveu. 

1 Comentários

  1. Apenas li O menino do pijama listrado do Boyne, mas sempre leio muitos elogios de outras obras dele, e a minha curiosidade realmente surge em ler mais títulos do autor. Desconhecia essa produção dele, pelas suas descrições, é realmente interessante e diferente do que tô lendo ultimamente. Irei deixar na minha lista de desejos e talvez seja um pontapé para voltar a ler o autor ><

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