na cabeceira

literatura & diarices

A máquina do tempo, de H. G. Wells


Um dos meus temas favoritos, talvez O Favorito, é viagem no tempo. Desde o início da adolescência comecei a sonhar com como seria incrível poder viajar no tempo e no espaço e conhecer coisas passadas e futuras. Das minhas leituras preferidas do ano, pelo menos metade dos livros é sobre viagem no tempo. 2018 foi um ano difícil, repleto de momentos de tristeza solitária e de ódio coletivo. Viver no Brasil - no planeta Terra, pra falar a verdade - neste ano não foi uma experiência fácil ou alegre para ninguém (não, nem mesmo pra eles, acreditem). Portanto, não é difícil de entender por que este foi o ano em que mais li ficção científica e em que viagens no tempo ganharam mais top 10. Quando a vida está muito difícil no presente, a alternativa de se deslocar pra qualquer outro lugar sempre parece válida. 

A máquina do tempo teve esse efeito sobre mim e entrou facilmente pra o meu roll de Livros Favoritos. Ver o Viajante do Tempo se meter em apuros num futuro tão distante que literalmente não consigo imaginar - mas claramente o senhor Wells conseguia - me faz querer ter estudado Física ao invés de ter ido pra Jornalismo porque ao menos eu teria uma chance de construir uma máquina eu mesma, risos.

A máquina do tempo
H. G. Wells
Suma
168 páginas
Ano da edição: 2018
Encontre na Amazon

Sobre o que é: A bordo de sua Máquina do Tempo, o cientista que narra esta história parte do século XIX para o ano de 802701. Nesse futuro distante, ele descobre que o sofrimento da humanidade foi transformado em beleza, felicidade e paz. A Terra é habitada pelos dóceis Eloi, uma espécie que descende dos seres humanos e já formou uma antiga e enorme civilização. Mas os Eloi parecem ter medo do escuro, e têm todos os motivos para isso: em túneis subterrâneos vivem os Morlocks, seus maiores inimigos. Quando a Máquina do Tempo que levou o Viajante some, ele é obrigado a descer às profundezas para recuperá-la e voltar ao presente. 

H. G. Wells era um jornalista britânico do século XIX que estava quebrado. Pra conseguir um dinheiro, ele decidiu pôr em prática uma ideia que estava há muito tempo em sua cabeça: escrever um livro sobre o futuro. Mas não qualquer futuro e muito menos de qualquer forma: sua história se passaria num futuro tão longínquo que sequer conseguimos imaginar e não teria um enredo comum, mas se centraria em um homem de sua época que construiu uma máquina capaz de viajar no tempo. E assim nasceram as histórias de viagem no tempo.

Muitas pessoas criticam esse livro por ele ser mais fantasioso do que científico, mas particularmente eu achei ótimo que Wells não tenha se detido por muito tempo em descrições minuciosas de como sua máquina funciona, mas tenha se focado em descrever e analisar aquele ambiente que era no mesmo espaço, mas não no mesmo tempo, e havia se tornado tão estranho com o passar dos séculos.

Ao ler esse livro é importante manter em mente que ele é um clássico, um produto de sua época. A revolução industrial já tinha feito suas bases e modificado o pensamento dos britânicos quando Wells escreveu A máquina do tempo, o que claramente pode ser visto ao nos depararmos com o tipo de pensamento que parecia ver no futuro tecnológico uma tábua de escape. No entanto, conforme a leitura vai se aprofundando, é perceptível que ele era de fato um homem muito imaginativo porque, ao contrário da maior parte da literatura da época que enxergava o domínio das máquinas como a ascensão humana, ele considerou as mudanças a longo prazo que essa invasão industrial acarretaria.

Quando ele embarca em sua máquina do tempo e vai para o ano 802701 à primeira vista se maravilha: aparentemente os seres humanos se tornaram puros, esteticamente pequenos e infantis e tudo na Inglaterra do futuro é bonito e natural. Ao contrário do que ele imaginou, não havia mais máquinas, pelo contrário: o que ele podia contemplar era o declínio da civilização industrial e um retorno ao Éden. Os habitantes dali pareciam crianças com semblantes que só posso definir como élfico - apesar de que claramente essa não foi a inspiração usada por Wells para os habitantes daquele mundo de sonho, já que Tolkien é bem posterior. A Terra parecia ter sido tomada por crianças alegres que passavam o dia brincando e dançando, sem prestar atenção em nada e apenas sendo felizes.

Com o passar dos dias, ele se deu conta de que essas crianças adultas - os Eloi - eram o resultado de alguma manobra catastrófica que levou os seres humanos ao desprezo completo pela ciência e cultivo ao hedonismo. E que sua máquina do tempo havia sido escondida por alguém. O livro está longe de ser de mistério, na verdade ele é um exercício imaginativo do futuro da humanidade, mas a busca por sua máquina é o que faz nosso Viajante do Tempo passar tantos dias naquele local e seu espírito de homem rico e cientista do século XIX é o que faz com que seu relato seja quase um estudo antropológico daquelas pessoas.

Foi uma delícia ler esse livro. Sempre quis ler algo do Wells por ser um clássico da ficção científica, um dos meus gêneros preferidos, mas acabei deixando de lado. Com essa nova edição da Suma, que tá toda linda, cheia de ilustrações e com textos de apoio (inclusive um texto do próprio Wells), vi a minha oportunidade de conhecer a obra e não apenas não me arrependi como virou um dos favoritos da vida.

Achei particularmente emocionante o capítulo em que o Viajante do Tempo viaja mais ainda para o futuro e observa a paisagem. Não vou contar mais do que isso para não estragar a surpresa da leitura, mas eu realmente tive fortes emoções lendo essa passagem e pude imaginar perfeitamente o que está escrito.

Além de um livro de ficção científica maravilhoso, ele é um convite para refletirmos sobre o que estamos fazendo. Nossas ações têm consequências e Wells foi bem catastrófico quanto ao futuro em sua narrativa de um suposto paraíso terrestre. Não sei se acredito que o futuro previsto por ele vai se concretizar, mas acho muito interessante o balanço de poderes invertidos que ele criou.

Recomendo fortemente, VÃO LER ESSE LIVRINHO AGORA ♥

E assim continuei minha viagem, fazendo uma parada de vez em quando, em avanços de até mil anos ou mais, seduzido pelo mistério do destino final da Terra, e vendo, com uma estranha fascinação, o sol tornar-se maior e menos brilhante a oeste, e a vida na velha Terra extinguir-se aos poucos.

1 Comentários

  1. Oi, Mia! Você já assistiu o filme? Quando vi, não sabia que tinha livro. Na verdade, fui saber anos depois. Falaram dessa edição e também fiquei doida pra ler! E gostaria de rever o filme, mas eu gostei tanto quando vi que tenho medo de mudar minhas boas memórias, hahaha.

    ResponderExcluir

Postar um comentário