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This is how it always is, de Laurie Frankel


Serei bem objetiva: QUE LIVRO INCRÍVEL!
Agora, explico o porquê: faz muito tempo que não lia nada que me fizesse sentir tão acolhida. Não tenho o costume de ler sinopses ou mesmo resenhas antes de ler um livro; gosto de ser surpreendida pela história. Então não fazia ideia do assunto e fiquei completamente surpresa ao perceber que é sobre uma criança trans e todas as implicações que essa descoberta causaram.

Até mais ou menos as primeiras cem páginas, eu estava deliciada com aquela narrativa de um jovem casal se conhecendo, uma família se formando, crianças pra todos os lados e muitas histórias sendo contadas ao pé da cama. Mas não sabia qual seria o ponto central da história, que até então parecia ser bonitinha e só. Quando o pequeno Claude nasceu e começou a mostrar sinais de ser diferente dos irmãos, meus sentidos ficaram atentos.

This is how it always is
Laurie Frankel
338 páginas
Flatiron Books
Ano de publicação: 2018

Sobre o que é: É assim que uma família guarda um segredo... e como esse segredo acaba os unindo. É assim que uma família vive feliz para sempre... até que feliz para sempre se torna complicado. É assim que as crianças mudam... e depois mudam o mundo. Quando Rosie e Penn e seus quatro filhos recebem o mais novo membro de sua família, ninguém fica surpreso que seja outro menino. Mas pelo menos sua grande e amorosa família caótica sabe o que esperar. Mas Claude não é como seus irmãos. Um dia ele veste um vestido e se recusa a tirá-lo. Ele quer trazer uma bolsa para o jardim de infância. Ele quer cabelo o tempo suficiente para se sentar. Quando ele crescer, Claude diz, ele quer ser uma menina.

Dentro do feminismo, me alinho mais com a vertente rad do que com qualquer outra - apesar de não me declarar rad por não querer aderir fielmente a uma única vertente, sendo que outras também possuem pontos válidos de ver o mundo e lidar com ele. Mas, estando mais alinhada ao rad, minha posição sobre trans é complicada. Claro que desejo que o mundo os receba de braços abertos e que essas pessoas tenham a liberdade de ser quem são, independente de isso vir acompanhado de um vestido ou de uma calça cargo. Contudo, acho espinhosa a questão e não me sinto capacitada para opinar, especialmente no que se refere a crianças trans. Tendo crescido numa casa com quatro irmãos, todos mais velhos, e uma mãe trabalhando fora, fui criada por meu pai e tive uma influência masculina fortíssima. Era uma moleca na infância. Odiava bonecas, literalmente desmembrava-as todas e raspava suas cabeças, não gostava da ideia de cozinhar, muito menos de ter um namoradinho. Queria brincar de carrinho, luta e bicicleta. Muitos, olhando para uma criança assim, poderiam dizer que eu tinha tendências trans. Mas isso não aconteceu: minha família me deu liberdade para eu ser quem eu sou e, por mais que a influência masculina ainda seja presente na minha personalidade, me identifico com meu gênero. Porém, essa é a minha história. E a minha história é a regra, não a exceção. A de Claude, contudo, é a que se destaca.

A literatura possui um superpoder: ela nos faz vivenciar experiências que talvez nunca aconteceriam conosco. Por isso ela pode ser perigosa - ao menos é o que pensam os mais conservadores -: através dela podemos compreender os outros e aprender que cada vida é única e que todas as formas de vivê-la devem ser respeitadas. Me parece simplesmente impossível ler a história de Claude e não querer abraçá-lo e protegê-lo do mundo. (Provavelmente eu deveria estar usando o pronome feminino, mas acostumei com o pequeno Claude.) E o melhor é ver como sua família o apoiou, dando amor e liberdade.

"Bem, geralmente meninos não usam vestidos pra ir à pré-escola,", Rosie admitiu com cuidado. "Ou meia-calça."
"Eu não sou todo mundo," disse Claude. Isso, Rosie refletiu, até mesmo naquela época, era verdade. 

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