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Cat Person e outros contos, de Kristen Roupenian

Foto: Elinor Carucci/The New Yorker

Quando o conto Cat Person, de Kristen Roupenian, foi publicado na New Yorker em 2017, recebi muitos e-mails de pessoas me mandando o link e dizendo que eu precisava lê-lo. Não li. Primeiro porque não gosto de contos, são poucos os que realmente me apetecem, a maioria me parece apenas uma história mal contada; segundo porque o conto em questão fala sobre um relacionamento, e digamos que eu não sou a pessoa mais romântica do mundo e não gosto de ler sobre coisas de casais; terceiro por birra, porque não curto ler as coisas quando todo mundo está falando do hype, prefiro esperar a poeira baixar e depois fazer uma visita ao texto se desejar. 

Em fevereiro deste ano a Companhia das Letras lançou Cat Person e Outros Contos, um livro que reúne o famigerado conto e mais onze inéditos da autora. Nessas alturas eu já havia até esquecido da explosão literária que esse conto causou há alguns anos e, ao ler a sinopse, fiquei com vontade de ler o livro. Não me arrependi: ele é bom demais. 

Cat Person e Outros Contos 
Kristen Roupenian 
256 páginas 
Companhia das Letras 
Ano de publicação: 2019 
Tradução: Ana Guadalupe 

Sobre o que é: Ao longo de doze histórias, com tom ora sombrio, ora hilariante, a escritora explora com sensibilidade aguda e imaginação selvagem a realidade contemporânea com tintas por vezes absurdas — e até mesmo assustadoras. Esta reunião de contos apresenta uma galeria de personagens profundamente humanos e, por isso mesmo, estranhamente inquietantes, que buscam se relacionar em dias marcados por angústias, contradições, perversões e uma dificuldade intransponível de comunicação. 

No livro somos apresentados a doze contos perturbadores. E quando eu digo perturbadores eu realmente quero dizer histórias que perturbam, que causam angústia, medo e provocam pesadelos. Eu amo terror e seus subgêneros, mas preciso dizer que definitivamente não estava preparada para o nível de perturbação desse livro - o que foi bom já que, assim, pude me sentir verdadeiramente surpreendida e aproveitar melhor a obra. Apesar de eu não ter gostado de todos os contos, gostei o suficiente para recomendar o livro e até talvez encarar uma releitura em algum momento. Vou comentar alguns dos meus preferidos abaixo.

O primeiro conto do livro não é o que o nomeia, mas sim um outro chamado "Seu safadinho". Eu li o livro no kindle e, enquanto meu namorado, sentado ao meu lado, lia A morte da verdade, da Michiko Kakutani, um livro bem sério de não-ficção (inclusive, leiam-no), fui ficando cada vez mais perplexa com aquilo que Kristen Roupenian criou em seu conto de abertura do livro. Nem pude disfarçar a linguagem corporal: fui me encolhendo, não sei ainda se mais de vergonha ou se de agonia. Isso porque o conto traz a história de um rapaz cujo namoro complicado terminou e que, por estar emocionalmente frágil, se apoia num casal de amigos, passando uns dias na casa deles pra tentar esquecer a ex. No entanto, conforme o tempo vai passando um fetiche acaba se formando entre o casal e o amigo. Mas o que poderia se tornar apenas uma história de poliamor ou coisa do tipo se mostra muito mais macabra do que isso.

Por motivos totalmente pessoais, achei o conto seguinte mais perturbador do que o primeiro - apesar de que a construção narrativa do primeiro ser incontestavelmente mais perturbadora do que a do segundo. O segundo conto, "Look at your game, girl" conta a história de uma adolescente de doze anos que curte ir ao parque sozinha para ficar viajando enquanto vê outros adolescentes skatistas por lá. Normal, tranquilo. O problema é que um cara mais velho e estranho, seguidor de Charles Mason, começa a assediá-la, puxando papo sobre música, lhe dando presentes que ela não quer e tentando forçá-la a sair com ele. Ela recusa e fica em casa, mas logo em seguida fica sabendo do rapto de uma menina numa festa do pijama em que era pra ela estar e isso a transforma, deixa sua marca.

Uma coisa interessante na escrita de Kristen Roupenian é que suas histórias dialogam muito com o mundo feminino e trazem medos que por vezes fazem parte do nosso cotidiano. Não consigo imaginar um homem contando com tal intensidade de detalhes e sentimentos o que se passa na cabeça de uma adolescente de doze anos sendo assediada por um cara mais velho, por exemplo. Existem coisas que só nós sabemos como são porque, infelizmente, são coisas pelas quais passamos. Kristen se aproveita disso e conduz bem suas histórias dessa maneira, mexendo com o imaginário comum a mulheres.

Os três contos seguintes não são lá muito marcantes, porém não são ruins. Gostei o suficiente de "Sardinha" quase pelo mesmo motivo por que gostei do conto anterior, por ser algo que mexe com sentimentos de coisas que não deveriam acontecer, mas acontecem. Porém, seu horror fantástico me deixou um pouco desconfortável como leitora.

Agora, "Cat Person", o conto que dá título ao livro, é realmente muito bom. A história quase todo mundo que esteve ativo na internet em 2017 já sabe: uma jovem de 20 anos começa a trocar mensagens com um cara de 30 e poucos. Tudo parece muito bem até que eles marcam a primeira saída. Naquele momento, a guria não quer mais ficar com ele, porém aguenta firme e forte para não magoar os sentimentos do cara. Além disso ser algo bem comum na vida de praticamente toda mulher - novamente, infelizmente -, o interessante para mim não é nem a história, que é bem banal, pra dizer a verdade, mas sim os pequenos momentos que saem do "que cara legal" para o "ele pode me matar a qualquer momento". Sempre existem esses pequenos momentos e isso é real demais. Sentir medo de homens ocasionalmente infelizmente faz parte de ser mulher neste mundo. O final do conto foi o que o fez valer a pena para mim, sendo extremamente real e horrível. No entanto, este não é o meu conto preferido do livro.

"O cara legal" é incontestavelmente o melhor conto do livro. Sendo bem mais longo do que todos os outros, ele narra as memórias de um cara tipicamente legal, desde a pré-adolescência, quando percebeu que era estranho, até a idade adulta, quando só conseguia uma ereção ao imaginar seu pênis como uma faca com que a mulher se esfaqueava de tanto desejo. Apesar de se enxergar como uma boa pessoa, suas memórias o traem: ele foi horrível com todas as mulheres que passaram por sua vida por acreditar que não era suficientemente valorizado. Nem preciso dizer que meu cérebro fez uma lista de caras legais nesse nível enquanto eu fazia a leitura. Se não quiserem ler o livro inteiro, leiam esse conto. Sério.

Um dos meus preferidos é "O sinal da caixa de fósforos", conto que, por algum motivo, passou despercebido para a maioria das pessoas. Nele conhecemos a história de uma mulher cujo braço, de repente, cria uma pequena ferida, como se fosse uma picada. Os dias vão se passando, aquilo vai coçando e se espalhando, mas nada aparentemente a picou. A coisa chega a um ponto em que ela não consegue mais trabalhar ou mesmo dormir tranquilamente tamanha a agonia e obsessão com aquilo, que ela imagina ser uma espécie de bicho que adentrou sua pele. Seu namorado tenta ajudá-la levando-a ao médico, porém tanto ele quanto o médico acreditam que ela está mentalmente perturbada e a entopem de ansiolíticos - que, obviamente, não ajudam em nada. O desfecho do conto é excelente, mas o que mais se destaca nele é a forma como foi abordado o fato de que para os homens qualquer coisa que uma mulher sente é resultado de algum problema psicológico ou emocional, como se as mulheres fossem essa caixa de emoções e doenças psicossomáticas. É incrível.

Depois desse só gostei verdadeiramente de um outro: "Aquela que morde", sobre uma mulher que desde a infância tem um desejo absurdo de morder as pessoas - mas se refreia durante anos ao descobrir que isso não é socialmente aceitável. Porém, certo dia no trabalho, ela simplesmente não consegue mais lidar com a vontade de morder e cria meios para morder um colega. É genial.

A pegada de Kristen Roupenian é mostrar como todo mundo é psicologicamente perturbado. Tratando de relacionamentos abusivos, medos e desejos intrinsecamente femininos, ela conduz o leitor a caminhos escuros e atraente, onde nos perguntamos até que ponto não poderíamos ser um dos personagens de seus contos. Algo também interessante é que ela trabalha a voz masculina muito bem, conseguindo fazer com que seus personagens homens pareçam verossímeis. Uma vez começada a leitura, foi difícil deixar o livro de lado para fazer outras coisas. Recomendo-o fortemente - mesmo para aqueles que não gostam de contos.

Em um quote:
“Mas não foi eu quem te magoou. Você fez tudo isso, não eu. Eu sou só — só — a ferramenta que você usou para se machucar!" 

1 Comentários

  1. Olá! :)

    Eu li o famoso conto depois do burburinho e confesso que não me surpreendeu nem me marcou, na época. Inclusive, quando fiquei sabendo desse livro, nem tchum pra ele, mas o seu post me fez ficar super curiosa!!

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